terça-feira, 13 de novembro de 2012

Padre António Vieira- Sermão de Santo António aos Peixes


VÓS, diz Cristo Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhe dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal. VÓS, diz Cristo Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou por- que a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhe dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal.

Assim como não há quem seja mais digno de reverência e de ser posto sobre a cabeça, que o pregador que ensina e faz o que deve; assim é merecedor de todo o desprezo e de ser metido debaixo dos pés o que com a palavra ou com a vida prega o contrário.

Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes (...) Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, António pregava e eles ouviam.

(…)já que os homens se não aproveitam, pregar aos peixes.

Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam. Uma só cousa pudera desconsolar ao pregador, que é serem gente os peixes que se não há-de converter. Mas esta dor é tão ordinária, que já pelo costume quase se não sente.

Haveis de saber, irmãos peixes, que o sal, filho do mar como vós, tem duas propriedades, as quais em vós mesmos se experimentam: conservar o são e preservá-lo, para que se não corrompa. Estas mesmas propriedades tinham as pregações do vosso pregador Santo António, como também as devem ter as de todos os pregadores. Uma é louvar o bem, outra repreender o mal: louvar o bem para o conservar e repreender o mal para preservar dele.

E onde há bons e maus, há que louvar e que repreender.

(…) Estes e outros louvores, estas e outras excelências de vossa geração e grandeza vos pudera dizer, ó peixes; mas isto é lá para os homens, que se deixam levar destas vaidades, e é também para os lugares em que tem lugar a adulação, e não para o púlpito.

Oh, grande louvor verdadeiramente para os peixes, e grande afronta e confusão para os homens! Os homens perseguindo a António, querendo-o lançar da terra e ainda do mundo, se pudessem, porque lhe repreendia seus vícios, porque lhe não queria falar à vontade e condescender com seus erros, e no mesmo tempo os peixes em inumerável concurso acudindo a sua voz, atentos e suspensos às suas palavras, escutando com silêncio, e com sinais de admiração e assenso (como se tiveram entendimento) o que não entendiam. Quem olhasse neste passo para o mar e para a terra, e visse na terra os homens tão furiosos e obstinados e no mar os peixes tão quietos e tão devotos, que havia de dizer? Poderia cuidar que os peixes irracionais se tinham convertido em homens, e os homens não em peixes, mas em feras. Aos homens deu Deus uso de razão, e não aos peixes; mas neste caso os homens tinham a razão sem o uso, e os peixes o uso sem a razão.

Os homens tiveram entranhas para deitar Jonas ao mar, e o peixe recolheu nas entranhas a Jonas, para o levar vivo à terra.

Os peixes (…) lá se vivem nos seus mares e rios, lá se mergulham nos seus pegos, lá se escondem nas suas grutas, e não há nenhum tão grande que se fie do homem, nem tão pequeno que não fuja dele (…) Não condeno, antes louvo muito aos peixes este seu retiro, e me parece que se não fora natureza, era grande prudência. Peixes! Quanto mais longe dos homens, tanto melhor; trato e familiaridade com eles, Deus vos livre!

Se os animais da terra e do ar querem ser seus familiares, façam-no muito embora, que com suas pensões o fazem. Cante-lhe aos homens o rouxinol, mas na sua gaiola; diga-lhe ditos o papagaio, mas na sua cadeia; vá com eles à caça o açor, mas nas suas piozes; faça-lhe bufonerias o bugio, mas no seu cepo; contente-se o cão de lhe roer um osso, mas levado onde não quer pela trela; preze-se o boi de lhe chamarem fermoso ou fidalgo, mas com o jugo sobre a cerviz, puxando pelo arado e pelo carro; glorie-se o cavalo de mastigar freios dourados, mas debaixo da vara e da espora; e se os tigres e os leões lhe comem a ração da carne que não caçaram nos bosques, sejam presos e encerrados com grades de ferro. E entretanto vós, peixes, longe dos homens e fora dessas cortesanias, vivereis só convosco, sim, mas como peixe na água.

Perguntado um grande filósofo, qual era a melhor terra do mundo, respondeu que a mais deserta, porque tinha os homens mais longe.

(…)que quanto mais buscava a Deus, tanto mais fugia dos homens.

O verso de São Gregório Nazianzeno: Lingua quidem parva est, sed viribus omnia vincit (Na verdade a língua é pequena, mas tudo vence com a força).

O leme da natureza humana é o alvedrio, o piloto é a razão; mas quão poucas vezes obedecem à razão os ímpetos precipitados do alvedrio?

(…) mas isto têm as virtudes grandes, que quanto são maiores, mais se escondem.

Muito pescam, mas não me espanto do muito; o que me espanta é que pesquem tanto, e que tremam tão pouco. Tanto pescar e tão pouco tremer!

Na terra pescam as varas (e tanta sorte de varas); pescam as ginetas, pescam as bengalas, pescam os bastões e até os ceptros pescam, e pescam mais que todos, porque pescam cidades e reinos inteiros. Pois é possível que pescando os homens cousas de tanto peso, lhes não trema a mão e o braço?!

Tantos instrumentos de vista a um bichinho do mar (o quatro olhos), nas praias daquelas mesmas terras vastíssimas, onde permite Deus que estejam vivendo em cegueira tantos milhares de gentes há tantos séculos?!

(…) se tenho fé e uso de razão, só devo olhar direitamente para cima, e só direitamente para baixo: para cima, considerando que há Céu, e para baixo, lembrando-me que há Inferno.

Voltai-me, Senhor, os olhos para que não vejam a vaidade.

Ele queria voltados os seus olhos, de modo que não vissem a vaidade, e isto não o podia fazer neste mundo, para qualquer parte que voltasse os olhos, porque neste mundo tudo é vaidade.

A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande.

Olhai como estranha isto Santo Agostinho: «Os homens, com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes que se comem uns aos outros».

Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer, e como se hão-de comer. Morreu algum deles, vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os acredores; comem-no os oficiais dos órfãos, e os dos defuntos e ausentes; come-o o médico, que o curou ou ajudou a morrer; come-o o sangrador que lhe tirou o sangue; come-o a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para mortalha o lençol mais velho da casa; come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que, cantando, o levam a enterrar; enfim, ainda o pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra.

Já se os homens se comeram somente depois de mortos, parece que era menos horror e menos matéria de sentimento. Mas para que conheçais a que chega a vossa crueldade, considerai, peixes, que também os homens se comem vivos assim como vós.

São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem sentenciado, e já está comido.

A maldade é comerem-se os homens uns aos outros, e os que a cometem são os maiores que comem os pequenos.

…a plebe e os plebeus, que são os mais pequenos, os que menos podem e os que menos avultam na república, estes são os comidos.

… os grandes que têm o mando das cidades e das províncias, não se contenta a sua fome de comer os pequenos um por um, ou poucos a poucos, senão que devoram e engolem os povos inteiros.

…. que esses mesmos maiores, que cá comiam os pequenos, quando lá chegam acham outros maiores que os comam também a eles.

Santo Ambrósio disse: Guarde-se o peixe que persegue o mais fraco para o comer, não se ache na boca do mais forte, que o engula a ele.

Disse também Santo Agostinho: O usurpador do mais fraco fez-se presa do mais forte.

Importa que de aqui por diante sejais mais repúblicos e zelosos do bem comum, e que este prevaleça contra o apetite particular de cada um, para que não suceda que, assim como hoje vamos a muitos de vós tão diminuídos, vos venhais a consumir de todo.

Não vos basta, pois, que tenhais tantos e tão armados inimigos de fora, senão que também vós de vossas portas adentro o haveis de ser mais cruéis, perseguindo-vos com uma guerra mais que civil e comendo-vos uns aos outros?

Se (…) em ocasiões pelo desejo natural da própria conservação e aumento fize ram da necessidade virtude, fazei-o vós também; ou fazei a virtude sem necessidade e será maior virtude.

Pode haver maior ignorância e mais rematada cegueira que esta? Enganados por um retalho de pano, perder a vida?!

Dá um exército batalha contra outro exército, metem-se os homens pelas pontas dos piques, dos chuços e das espadas, e porquê? Porque houve quem os engodou e lhes fez isca com dois retalhos de pano.

A vaidade entre os vícios é o pescador mais astuto e que mais facilmente engana os homens.

(…) e os bonitos, ou os que o querem parecer, todos esfaimados aos trapos, e ali ficam engasgados e presos, com dívidas de um ano para outro ano, e de uma safra para outra safra, e lá vai a vida (…) No triste farrapo com que saem à rua, e para isso se matam todo o ano.

O muito roncar antes da ocasião, é sinal de dormir nela.

Duas cousas há nos homens, que os costumam fazer roncadores, porque ambas incham: o saber e o poder.

Pegadores se chamam estes de que agora falo, e com grande propriedade, porque sendo pequenos, não só se chegam a outros maiores, mas de tal sorte se lhes pegam aos costados, que jamais os desferram.

…os que se deixam estar pegados à mercê e fortuna dos maiores, vem-lhes a suceder no fim o que aos pegadores do mar (…) enfim, morre o tubarão, e morrem com ele os pegadores.

(…) ao menos devereis imitar aos outros animais do ar e da terra, que quando se chegam aos grandes e se amparam do seu poder, não se pegam de tal sorte que morram juntamente com eles.

Chegai-vos embora aos grandes; mas não de tal maneira pegados, que vos mateis por eles, nem morrais com eles.

(…) Pode haver maior ignorância que morrer pela fome e boca alheia?

Quanto melhor lhe fora mergulhar por baixo da quilha e viver, que voar por cima das antenas e cair morto!

Quem quer mais do que lhe convém, perde o que quer e o que tem.

O polvo, com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge; com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão. E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa, testemunham (…) que o dito polvo é o maior traidor do mar.

O polvo é o que abraça e mais o que prende.

Para os homens não há mais miserável morte, que morrer com o alheio atravessado na garganta.

Oh quantas almas chegam àquele altar mortas, porque chegam e não têm horror de chegar, estando em pecado mortal!

(…) eu espero que O hei-de ver; mas com que rosto hei-de aparecer diante do seu divino acatamento, se não cesso de O ofender?

E pois os que nascemos homens, respondemos tão mal às obrigações de nosso nascimento

domingo, 11 de novembro de 2012

Alexandre Herculano- Eurico O Presbítero


A podridão tinha chegado ao âmago da árvore, e ela devia secar. O próprio clero se corrompeu por fim (...) e a maioria do povo preferia a infâmia que a lei impunha aos que recusavam defender a terra natal aos riscos gloriosos dos combates e à vida fadigosa da guerra.

(…) era uma destas almas ricas de sublime poesia a que o mundo deu o nome de imaginações desregradas, porque não é para o mundo entendê-las.

Uma destas revoluções morais que as grandes crises produzem no espírito humano se operou então no moço (…)

A maior das humanas desventuras, a viuvez do espírito (…) O entusiasmo e o amor tinham ressurgido naquele coração que parecera morto, mas transformados: o entusiasmo em entusiasmo pela virtude; o amor em amor dos homens. E a esperança? Oh, a esperança, essa é que não renascera!

O povo rude (…) não podia entender esta vida de excepção, porque não percebia que a inteligência do poeta precisa de viver num mundo mais amplo do que esse a que a sociedade traçou tão mesquinhos limites.

(…) esmagado o seu coração pela soberba dos homens.

O Evangelho é um protesto, ditado por Deus para os séculos, contra as vãs distinções que a força e o orgulho radicaram neste mundo de lodo, de opressão e de sangue (…) a única nobreza é a dos corações e dos entendimentos que buscam erguer-se para as alturas do céu, mas que essa superioridade real é exteriormente humilde e singela.

(…) insolências que costumam acompanhar e encher de amargor para os miseráveis a piedade hipócrita dos felizes da terra.

(…) não perceberiam como, tranquila a consciência e repousada a vida, um coração pode devorar-se a si próprio.

Nem a todos dá o túmulo a bonança das tempestades do espírito.

(…) contemplava este horrível espectáculo de uma nação cadáver (…)

Hipócritas dos afectos humanos, o sono enxugou-lhes as lágrimas!

Orgulho humano, qual és tu mais — feroz, estúpido ou ridículo?

Arrastava-me para o ermo um sentimento íntimo, o sentimento de haver acordado, vivo ainda, deste sonho febril chamado vida, e de que hoje ninguém acorda, senão depois de morrer.

Sabeis o que é esse despertar de poeta?
    É o ter entrado na existência com um coração que trasborda de amor sincero e puro por tudo quanto o rodeia, e ajuntarem-se os homens e lançarem-lhe dentro do seu vaso de inocência lodo, fel e peçonha e, depois, rirem-se dele:
    É o ter dado às palavras — virtude, amor pátrio e glória — uma significação profunda e, depois de haver buscado por anos a realidade delas neste mundo, só encontrar aí hipocrisia, egoísmo e infâmia:
    É o perceber à custa de amarguras que o existir é padecer, o pensar descrer, o experimentar desenganar-se e a esperança nas causas da terra uma cruel mentira de nossos desejos, um fumo ténue que ondeia em horizonte aquém do qual está assentada a sepultura.
     Este é o acordar do poeta. Depois disso, nos abismos da sua alma só há para mandar aos lábios um sorriso de desprezo em resposta às palavras mentidas dos que o cercam ou uma voz de maldição desabridamente sincera para julgar as acções dos homens. É então que para ele há unicamente uma vida real.

(…) e a minha alma via passar diante de si esta geração vaidosa e má, que se crê grande e forte, porque sem horror derrama em lutas civis o sangue de seus irmãos.

Hoje, a cobiça assentou-se no lugar da equidade: o juiz vende a consciência no mercado dos poderosos, como as mulheres de Babilónia vendiam a pudicícia nas praças públicas aos que passavam, diante da luz do dia.

Hoje, (…) a coroa é uma conquista, a lei vontade do desonrado vencedor de pelejas domésticas, a liberdade palavra mentida.

Lá, no tumulto dos cortesãos, onde o amor é cálculo ou sentimento grosseiro, terás achado quem te chame sua, quem te aperte entre os braços, quem tivesse para dar a teu pai o preço do teu corpo e te comprasse como alfaia preciosa para serviço doméstico. O velho estará contente, porque trocou sua filha por ouro.                                                                                                                                                                         
      A isto chama prudência o mundo estúpido e ambicioso; a isto, que não é mais do que uma prostituição abençoada sacrilegamente perante as aras sacrossantas.

O sono ou a vigília, que me importa esta ou aquele? As horas da minha vida são quase todas dolorosas; porque a imaginação do homem não pode dormir .
      Para o povo, ignorante e impiamente crédulo, a noite é cheia de terrores; em cada folha que range na selva ele ouve um gemido de alma que vagueia na terra; em cada sombra de árvore solitária que se balouça com a aragem sente o mover de um fantasma; as exalações dos brejos são para ele luz de demónios, alumiando folgares de feiticeiras.
     Mas, quando jaz no leito do repouso, o seu dormir é tranquilo. Ao cruzar os umbrais domésticos esses terrores sumiram-se com os objectos que os geraram. A sua alma parece despir-se da fantasia grosseira, como o corpo se despe da estringe áspera que lhe resguarda os membros.

(…)as carícias feminis, facilmente compradas e profundamente mentidas, atrás das quais correra loucamente outrora, tinham-se-lhe tornado odiosas; porque o amor, com toda a sua virgindade sublime, lhe convertera em podridão asquerosa os deleites grosseiros que o mundo oferece à sensualidade do homem.

Não há palavras que possam erguer um espírito que deu em terra.

A vingança é mais segura inspiração, porque é o sonho perene do homem desperto, quando vê assim falhar a justiça do céu, se é que nele há justiça.

A traição, semelhante ao veneno recentemente bebido, que gira nas veias e ainda não aparece no aspecto, está por toda a parte.

Examina bem a consciência, e dize-me qual é para os corações puros e nobres o motivo imenso, irresistível das ambições de poder, de opulência, de renome? É um só — a mulher: é esse o termo final de todos os nossos sonhos, de todas as nossas esperanças, de todos os nossos desejos.

Para o que encontrou na terra aquela que deve amar para sempre, aquela que é a realidade do tipo ideal que desde o berço trouxe estampado na alma, a mira das mais exaltadas paixões é a auréola celestial que cinge a fronte da virgem, ídolo das suas adorações.

 Para o que anda, por assim dizer, perdido nas solidões do mundo, porque ainda não descobriu a estrela polar da sua existência, o astro que há-de iluminar-lhe a noite do coração, como o Sol com os seus primeiros raios ilumina as trevas de um templo, para esse a mulher é uma ideia vaga e confusa, mas formosa e que- rida. Não a conhece, não sabe onde esteja a imagem visível da filha da sua imaginação, e, todavia, é para lhe pôr aos pés glória, pode- rio, riqueza, que ele cobiça tudo isso. Tirai do mundo a mulher, e a ambição desaparecerá de todas as almas generosas.

Realidade ou desejo incerto, o amor é o elemento primitivo da actividade interior; é a causa, o fim e o resumo de todos os afectos humanos.

Os montanheses do Hermínio na Lusitânia, aborígenes, talvez, daquele país, os quais, na época das invasões germânicas, bem como já na da conquista romana, a custo haviam submetido o colo ao jugo de estranhos (…) Requeimados pelo sol ardente do Estio ou pelo vento gelado dos invernos rigorosos das serranias, incapazes de conhecerem a vantagem da ordem e da disciplina, estes homens rudes combatiam meios nus e desprezavam todas as precauções da guerra. O seu grito de acometer era um rugido de tigre. Vencidos, nunca se lhes ouvia pedir compaixão; porque, vencedores, não havia a esperar deles misericórdia.

O Sol passava envolto na sua glória, indiferente às angústias daqueles que, em seu ridículo orgulho, se chamavam monarcas e conquistadores do mundo; passava, sem lhe importar se os vermes vestidos de ferro chamados guerreiros se despedaçavam uns aos outros, com o delírio insensato das víboras no momento dos seus amorosos ardores.

E tu, renegado, sai daqui! Possa eu nunca mais ver-te o rosto e esquecer-me na hora de morrer de que nessas veias gira o sangue de nossos nobres e generosos avós.

O cutelo ou a prostituição é o que os árabes oferecem à inocência. Eu escolho o cutelo: a morte vale mais que a desonra.

(…) um homem cujo coração é há longo tempo morto, porque as paixões o queimaram; mas cuja inteligência por isso mesmo é mais fria.

(…) todos os vestígios da cólera tinham desaparecido: só nele se lia a ansiedade de um amor imenso, que precisa, mais que do gozo brutal.

Abomino-te... Não!... Enganei-me. Desprezo-te.

Porque a abelha zumbiu aos ouvidos do caçador faminto, arrojará ele para longe o mel do seu favo e esmagará o insecto?

O que lhe tumultuava no coração não tem nome na linguagem dos homens: era mais que a loucura.

Quero viver: o viver é delicioso.

Nas raias da vida, aquele beijo, primeiro e último, era purificado pelo hálito da morte que se aproximava: era inocente e santo, como o de dois querubins ao dizer-lhe o Criador: «Existi!»








sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Júlio Dinis- As Pupilas Do Senhor Reitor


Era um lavrador abastado, sadio e de uma tão feliz disposição de génio, que tudo levava a rir; mas desse rir natural, sincero e despreocupado, que lhe fazia bem, e não do rir dos Demócritos de todos os tempos - rir céptico, forçado, desconsolador, que é mil vezes pior do que o chorar.

Em todas as separações tem mais amargo quinhão de dores o que fica do que o que parte. A este esperam-no novos lugares, novas cenas, novas pessoas; sobretudo espera-o o atractivo do desconhecido, que de antemão lhe absorve quase todos os pensamentos…

Devo-te a esmola da consolação e do conforto.

A gente é como as flores, que umas nascem com as cores vermelhas que alegram, outras com cores que entristecem.

(…) aquilo é flato que lhe subiu ao coração.

Onde o patrão dorme ressonam os empregados.

Bonita, digo eu, mas leve, leve como uma bola de sabão.

Com o amor dá-se o mesmo que com o vinho. — Perdoem-me as leitoras o pouco delicado da confrontação; mas bem vêem que ambos eles embriagam.

Diz-se de certas pessoas - que têm o vinho alegre - de outras que - o têm triste - estúpido - bulhento - conforme dá a alguns a embriaguez para a hilaridade; a outros para os sentimentalismo, a outros para a modorra ou para brigas. Pois com o amor é o mesmo. Amantes há que celebram os seus amores, e até suas infelicidades amorosas sempre em estilo de anacreôntica - esses têm o amor alegre; outros que, quando amam, embora sejam ardentemente correspondidos, suspiram, procuram os bosques solitários, que enchem de lamentos, e as praias desertas, onde carpem com o alcião penas imaginárias - têm estes o amor sombrio; a outros serve-lhes o amor de pretexto para espancarem ou esfaquearem quantas pessoas imaginam que podem ser-lhes rivais ou estorvos, e, nesses acessos de fúria, chegam a espancar e esfaquear o objecto amado - são os do amor bulhento e intratável; há-os que emudecem e embasbacam diante da mulher dos seus afectos, que em tudo lhe obedecem, que a seguem como o rafeiro segue o dono, e experimentam um prazer indefinível de adormecer-lhe aos pés - pertencem aos do amor impertinente e estúpido.

Onde se encontram facilidades… nem todos têm força para se vencer.

Um olhar de mãe deve ser para a gente, quase como um raio de sol para as flores.

A madrugada opera milagres. Não há luz como a da manhã para dissipar as visões de uma imaginação preocupada.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Fernando Pessoa- Livro Do Desassossego ( VII )


Isto de nada me serve, pois nada me serve de nada.

A vida é um novelo que alguém emaranhou.

Julgo, às vezes, que tudo é falso, e que o tempo não é mais do que uma moldura para enquadrar o que lhe é estranho.

Penso que se o homem que me dita devagar dentro de um carro que segue depressa está indo depressa ou devagar.

Ver é ter visto.

Tudo está em tudo.

Na verdade, nada altera nada, e o que dizemos ou fazemos roça só os cimos dos montes, em cujos vales dormem as coisas.

Tudo é natural, tudo artificial, tudo igual.

A memória afinal, é a sensação do passado…E toda a sensação é uma ilusão.

Se nós não sabemos o que somos, como sabemos nós o que possuímos?

O verdadeiro amor, o imortal e inútil, pertence àquelas figuras em que a mudança não entra, por sua natureza de estáticas.

Nunca se deve devassar os sentimentos que os outros fingim que têm. São sempre demasiadamente íntimos…

O que somos de mais doloroso é o que não somos realmente, e as nossas maiores tragédias passam-se na nossa ideia de nós.

A vida é a hesitação entre uma exclamação e uma interrogação. Na dúvida, há um ponto final.
Sou todo eu uma vaga saudade, nem do passado, nem do futuro! Sou uma saudade do presente, anónima, prolixa e incompreendida.

O tédio é, sim, o aborrecimento do mundo, o mal-estar de estar vivendo, o cansaço de se ter vivido; o tédio é deveras, a sensação carnal da vacuidade prolixa das coisas.

…a vacuidade da própria alma que sente o vácuo, que se sente vácuo, e que nele de si se enoja e repudia.

…e tudo é uma doença incurável.

Nenhum de nós queria saber do outro, porém nenhum de nós sem ele prosseguia. A companhia que nos fazíamos era uma espécie de sono que cada um de nós tinha.

Existir é renegar. Que sou hoje, vivendo hoje, senão a renegação do que fui ontem, de quem fui ontem? 

Já vi tudo, ainda o que não vi, nem o que não verei.

Tive desejos, mas foi-me negada a razão de tê-los. O que achei, mais valeria tê-lo realmente achado.

Nunca soube se era de mais a minha sensibilidade para a minha inteligência, ou a minha inteligência para a aminha sensibilidade.

Resume-se tudo enfim em procurar sentir o tédio de modo que ele não doa.

A vida seria insuportável se tomássemos consciência dela.

Para ser feliz é preciso saber-se que se é feliz. A felicidade está fora da felicidade. Não há felicidade senão com conhecimento.

Que bom estar só largamente! Poder falar alto connosco, passear sem estorvo de vistas, repousar para trás nem devaneio sem chamamento!

O orgulho é a certeza emotiva da grandeza própria. A vaidade é a certeza emotiva de que os outros veem em nós, os nos atribuem tal grandeza.

Mas em sofro em coisas tão reles, ferem-me coisas tão banais que não ouso insultar com essa hipótese a hipótese de que eu possa ter génio.

Considerar a nossa maior angústia como um incidente sem importância, não só na vida do universo, mas na da nossa mesma alma, é o princípio da sabedoria.

Tudo é nada, e a nossa dor nele.

Ser puro, não para ser nobre, ou para ser forte, mas para ser si próprio.

Basta eu querer uma coisa para ela morrer.

Perdi para sempre a segura certeza da lucidez da minha lucidez.

Ninguém supos que ao pé de mim estivesse sempre outro, que afinal era eu.

Vivemos todos longínquos e anónimos; disfarçados sofremos desconhecidos.

Dormir, ser longínquo sem o saber, estar distante, esquecer como próprio corpo; ter a liberdade de ser inconsciente…

Vou ser julgado em cada hoje que há. E o condenado perene que há em mim agarra-se ao leito como à mãe que perdeu, e acaricia o travesseiro como se a ama o defendesse de gentes.

Oiço chinelos num corredor absurdo que conduz até ao meu coração.

Dizer a verdade, encontrar o que se espera, negar a ilusão de tudo…
Tudo o que existe, existe talvez porque outra coisa existe. Nada é tudo, tudo coexiste…

Naufraguei sem tormenta num mar onde se pode estar de pé.

Tudo se me tornou insuportável, exceto a vida.

O tédio pesa mais quando não tem a desculpa da inércia. O tédio dos grandes esforçados é o pior de todos.

A vida, (…) é a busca do impossível através do inútil.

O amor agita e cansa, a ação dispersa e falha, ninguém sabe saber e pensar embacia tudo.

Viajar? Para viajar basta existir.

Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.

Lembrar é um repouso, porque não é agir.

Quanto mais alta a sensibilidade, e mais subtil a capacidade de sentir, tanto mais absurdamente vibra e estremece com as pequenas coisas.

Eu odeio a vida por amor a ela.

O grande sonho requer certas circunstâncias sociais.

O criador do espelho envenenou a alma humana.

Se penso, é porque divago, se sonho, é porque estou desperto. Tudo em mim se embrulha comigo, e não têm forma de saber de ser.

Falar e ter demasiada consideração pelos outros.

A nossa frivolidade de ontem é hoje é hoje uma saudade constante que me rói a vida.

A bondade é a delicadeza das almas grosseiras.

Toda a inapetência para a ação inevitavelmente feminiza.

O prémio natural do meu afastamento da vida foi a incapacidade que criei nos outros, de sentirem comigo. Em torno a mim há uma aureola de frieza, uma halo de gelo que repele os outros.

Sofri a humilhação de me conhecer.

Os homens são fáceis de afastar: basta não nos aproximarmos.

Sou uma ponte entre dois mistérios, sem saber como me construíram.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Fernando Pessoa- Livro Do Desassossego ( VI )


O tédio… Pensar sem que se pense, com o cansaço de pensar; sentir sem que se sinta, com a angústia de sentir; não querer sem que se não queira, com a náusea de não querer.

Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar; porque é extrair de uma coisa a sua essência.

O amor, o sono, as drogas e intoxicantes são formas elementares de arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela.

O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruina de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela.

“A maioria da gente é outra gente”- Oscar Wilde. Uns gastam a vida na busca de qualquer coisa que não querem; outros empregam-se na busca do que querem e lhes não serve.

Tudo que se passa no onde vivemos é em nós que se passa. Tudo o que cessa no que vemos é em nós que cessa. Tudo o que foi se o vimos quando era, é de nós que foi tirado quando se partiu.

A morte é uma libertação porque morrer é não precisar de outrem... Por isso a morte enobrece, veste de galas desconhecidas o pobre corpo absurdo. É que ali está um liberto, embora o não quisesse ser. É que ali não está um escravo, embora até chorando perdesse a servidão.

Adoramos a perfeição, porque a não podemos ter; repugná-la-íamos se a tivéssemos.

A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procura-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade de gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo.

O dinheiro é belo, porque é uma libertação.

A mania do absurdo e do paradoxo é a alegria animal dos tristes. Como o homem normal diz disparates por vitalidade, e por sangue dá palmadas nas costas dos outros, os incapazes de entusiamos e de alegria dão cambalhotas na inteligência e, a seu modo, fazem os gestos da vida.

Para criar destrui-me; tanto me exteriorizei dentro de mim, que dentro de mim não existo senão exteriormente. Sou a cena viva onde passam atores representando várias peças.

O mundo é de quem não sente. A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade.

A arte serve de fuga para a sensibilidade que a ação teve de esquecer.

Governa quem é alegre para ser triste é preciso sentir.

Manda quem não sente. Vence quem pensa só o que precisa para vencer.

Parecendo às vezes, à minha análise rápida, parasitar os outros, na realidade o que acontece é que os obrigo a ser parasitas da minha posterior emoção.

Cada civilização segue a linha íntima de uma religião que a representa: passar para outros religiões é perder essa, e por fim perdê-las a todas.

O homem completo é o homem que se ignora. Sem fé, não temos esperança, e sem esperança não temos propriamente vida.

Minha alma é uma orquestra oculta.

Só me conheço como sinfonia.

Todo o esforço é um crime porque todo o gesto é um sonho morto.

Todos temos por onde sermos desprezáveis. Cada um de nós traz consigo um crime feito ou um crime que a alma lhe pede para fazer.

Os outros não são para nós mais que paisagem, e, quase sempre, paisagem invisível da rua conhecida.

Eu não tinha a força cega dos vencedores ou a visão certa dos loucos… Era lúcido e triste como um dia frio.

Foi num mar interior que o rio da minha vida findou.

Aprazia convalescer para sentir verdadeiramente a vida.

Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos.

O que mata o sonhador é não viver quando sonha; o que fere o agente é não sonhar quando vive.

Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.

A mentira absurda tem todo o recanto de perverso com o último e o maior encanto de ser inocente.

E quando a mentira começar a dar-nos prazer, falemos a verdade para lhe mentirmos. E quando nos causar angústia, paremos, para que o sofrimento nos não signifique perversamente prazer.

…o pasmo que me causa a minha capacidade de angústia.

Para atingir a verdade faltam-nos dados que bastem, e processos intelectuais que esgotam a interpretação desses dados.

Uma rua deserta não é uma rua onde não passa ninguém, mas uma rua onde os que passam, passam nela como se fosse deserta.
                                                                                      

Os que pensam com o raciocínio estão distraídos; os que pensam com a emoção estão dormindo, os que pensam com a vontade estão mortos. Eu, porém, penso com a imaginação, e tudo quanto deveria ser em mim ou razão, ou mágoa, ou impulso, se me reduz a qualquer coisa indiferente e distante, como este lago morto entre os rochedos onde o último do sol paira desalongadamente.

sábado, 3 de novembro de 2012

Fernando Pessoa- Livro Do Desassossego ( V )


Nunca aprendi a existir. Tudo o que quero consigo, logo que seja dentro de mim.

Sem mim, o sol nasce e se apaga; sem mim a chuva cia e o vento geme.

Estátua interior sem contornos, sonho exterior sem ser sonhado.

…esse episódio de imaginação a que chamamos realidade.

Ah, quem me salvará de existir? Não é a morte que quero, nem a vida: é aquela outra coisa que brilha no fundo da ânsia como um diamante possível numa cova a que se não pode descer.

Quando julgo que recordo, é outra coisa que penso, que vejo, ignoro, e quando me distraio, nitidamente vejo.

Ler é sonhar pela mão de outrem. A superficialidade na erudição é o melhor modo de ler bem e ser profundo.

Há dois tipos de artista: o que exprime o que não tem e o que exprime o que sobrou do que teve.

Não quero ter alma e não quero abdicar dela. Desejo o que não desejo e abdico do que não tenho. Não posso ser nada nem tudo: sou a ponte da passagem entre o que não tenho e o que não quero.
Podemos morrer se apenas amámos.

Amarem-no cansava-o.

Sobre as emoções tenho curiosidade. Sobre os factos, quaisquer que venham a ser, não tenho curiosidade alguma.

Nenhum prémio certo tem virtude, nenhum castigo certo o pecado.

A vida é a busca do impossível através do inútil.

A alma humana é um manicómio de caricaturas. Se uma lama pudesse revelar-se com verdade, nem houvesse um pudor mais profundo que todas as vergonhas conhecidas e definidas, seria, como dizem da verdade, um poço, mas um poço sinistro cheio de ecos vagos, habitado por vidas ignóbeis, viscosidades sem vida, lesmas sem ser, ranho da subjectividade.

Perco-me se me encontro, duvido se acho, não tenho se obtive.

A sede de ser completo deixou-me neste estado de mágoa inútil.

Todos somos iguais na capacidade para o erro e para o sofrimento.

E, assim, alheios à solenidade de todos os mundos, indiferentes ao divino e desprezadores do humano, entregamo-nos futilmente à sensação sem propósito, cultivada num epicurismo subtilizado, como convém aos nossos nervos cerebrais.

Ser pessimista é tomar qualquer coisa como trágico, e essa atitude é um exagero e um incómodo.


Não posso ler, porque a minha crítica híper-acesa não descortina senão defeitos, imperfeições, possibilidades de melhor. Não posso sonhar, porque sinto o sonho tão vivamente que o comparo com a realidade, de modo que sinto logo que ele não é real, e assim o seu valor desaparece.

A existência do mal não pode ser negada, mas a maldade da existência do mal pode não ser aceite.

Ninguém se amaria a si mesmo se deveras se conhecesse, e assim não havendo a vaidade, que é o sangue da vida espiritual, morreríamos na alma de anemia.
A vida que se vive é um desentendimento fluido, uma média alegre entre a grandeza que não há e a felicidade que não pode haver.

O pensamento pode ter levação sem ter inteligência, e, na proporção em que não tiver elegância, perderá a acção sobre os outros.

A força sem a destreza é uma simples massa.

A arte mente porque é social. E há só duas grandes formas de arte – uma que se dirige à nossa alma profunda, a outra que se dirige à nossa lama atenta. A primeira é a poesia, o romance a segunda. A primeira começa a mentir na própria estrutura; e a segunda começa a mentir na própria intenção. Uma pretende dár-nos a verdade por meio linhas variadamente regradas, que mentem à inércia da fala; outra pretende dár-nos a verdade por uma realidade que todos sabemos bem que nunca houve.

Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Fernando Pessoa- Livro Do Desassossego ( IV )


Os que verdadeiramente sofrem não fazem plebe, não formam conjunto. O que sofre sofre só.

Uns nascem escravos, outros tornam-se escravos, e a outros a escravidão é dada. O amor cobarde que todos temos à liberdade é o verdadeiro sinal do peso da nossa escravidão.

Tudo é nós, e nós somos tudo; mas de que serve isto, se tudo é nada?

Tudo quanto buscamos, buscamos por uma ambição, mas essa ambição ou não se atinge, e somos pobres, ou julgamos que a atingimos, e somos loucos ricos.

Sábio é quem monotoniza a existência, pois então em cada pequeno incidente tem um privilégio de maravilha.

Posso imaginar-me tudo, porque não sou nada. Se fosse alguma coisa não poderia imaginar.

A ladeira leva ao moinho, mas o esforço não leva a nada.

Sou uma casa viúva, claustral de si mesma, sombreada de espectros tímidos e furtivos. Estou sempre no quarto ao lado … Divago e encontro, encontro porque divago.

Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensatos e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos por que se conquista o internamento num manicómio; a incapacidade de pensar, a anormalidade, e a híper-excitação.

Sou qualquer coisa que fui. Não me encontro onde me sinto e se me procuro, não sei quem é que me procura.

O meu tédio assume aspectos de horror; o meu aborrecimento é um medo. O meu suor não é frio, mas é fria a minha consciência do meu suor.

É tão magno o tédio, tão soberano o horror de estar vivo, que não concebo que coisa haja que pudesse servir de lenitivo, de antídoto, de bálsamo ou esquecimento para ele. Dormir horroriza-me como tudo. Morrer horroriza-me como tudo. Ir e parar são a mesma coisa impossível. Esperar e descrever equivalem-se em frio e cinza.

Despreza tudo, mas de modo que o desprezar te não incomode. Não te julgues superior ao desprezares. A arte do desprezo nobre está nisso.

Reduzir as necessidades ao mínimo, para que em nada dependamos de outrem.

Jazo a vida: Nada de mim interrompe nada.

Repugno a vida real como uma condenação, repugno o sonho como uma libertação ignóbil.

Sou como um escravo que se embebeda à sesta- duas misérias em um só corpo.

O homem vulgar, por mais dura que lhe seja a vida, tem ao menos a felicidade de não a pensar.

Tornei-me uma figura de livro, uma vida lida. O que sinto é sentido para se escrever que se sentiu.

A vida é oca, a alma é oca, o mundo é oco. Tudo está mais vazio do que o vácuo. É tudo uma caos de coisas nenhumas.

Os epilépticos são, na crise, fortíssimos; os paranoicos raciocinam como poucos homens normais conseguem discorrer; os delirantes com mania religiosa agregam multidões de crentes como poucos demagogos as agregam, e com uma força intima que estes não lograram dar aos seus sequazes.

Prefiro a derrota com o conhecimento das flores que a vitória no meio dos desertos, cheia de cegueira da alma a sós com a sua nulidade separada.

Um dia, no fim do conhecimento das coisas, abrir-se-á a porta do fundo e tudo e tudo o que fomos – lixo de estrelas e de almas – será varrido para fora da casa, para o que há recomece.

Existo sem que o saiba e morrerei sem que o queira. Sou o intervalo entre o que sou e o que não sou, entre o que sonho e o que a vida fez de mim, a média abstrata e carnal entre coisas que não são nada, sendo eu nada também.

Quantas coisas, que temos por certas ou justas, não são mais que os vestígios dos nossos sonhos, o sonambulismo da nossa incompreensão.
Sou altamente sociável de um modo altamente negativo.

A alma que é dada ao indivíduo não deve ser emprestada ás suas relações com os outros. O facto divino de existir não dever ser entregue ao facto satânico de existir.

Ter opiniões é estar vendido a si mesmo. Não ter opiniões é existir. Ter todas as opiniões é ser poeta.