quinta-feira, 20 de junho de 2013

Aristófanes- As nuvens



Estrepsíades:
 (apontando para outros alunos, que estão completamente curvados.)
Mas aqueles além, curvados
Quase que até ao chão, o que eles fazem?

Estudante:
São alunos de escol.
Pesquisam o Hades.

Estrepsíades:
 Mas... e os traseiros para o céu voltados?

Estudante:
 Da astronomia são principiantes.



Estrepsíades:
Suponho, realmente, que é melhor
Tu zombares dos deuses lá em cima,
Trepado nesse cesto, do que estares
Aqui em baixo, neste duro chão.

Sócrates:
Essa também é a minha opinião.
Suspenso, como estou, no ar etéreo,
Com ele misturando facilmente
Meu douto pensamento, de Natura
Posso explorar o íntimo mistério,
Mais perto assim do fabuloso Empíreo.
Se aí, no baixo solo, as pesquisas
Da alta ciência eu prosseguir tentasse,
Em vão seria, eu tentaria em vão:
Do nosso pensamento a terra suga
A essência subtil e deixa a grossa.
(como que refletindo)
É o mesmo que acontece com o agrião.



Sócrates:
O que queres saber?

Estrepsíades
Eu quero, Mestre,
Teu curso de oratória e de eloquência
Seguir, pra discutir com meus credores.
Em verdade os credores se tornaram
Absolutamente insuportáveis.
Importunam, perseguem. Uns miseráveis!
O pior é que me estão a ameaçar
De tomar os meus bens. E pouco falta
Que de fato o consigam.



Sócrates
(aspergindo Estrepsíades da cabeça aos pés com a farinha ritual)
Renascerás, senhor, como perfeita
Flor da oratória, como um consumado
Tratante, palavroso e descarado.



Sócrates
São as nuvens, que são deusas
Dos homens de valor filosofal.
Elas nos asseguram o repertório
Do talento verbal e da eloquência,
Da graça, do arranzel, do casuísmo,
Da prova em profusão, do circunlóquio...

Estrepsíades
Deve ser então que por isso me sinto
Como que carregado para o alto,
Flutuando no ar de tão inflado
Com todo o sopro da filosofia,
Envolto numa espécie de lanugem,
Verbal tatuagem que me faz sentir
A sensação de uma inchação etérea.
Como se eu fosse um saco de palavras,
Repleto de argumentos e razões,
Cada qual mais aéreo.


Corifaio
Salve, ó tu, superidoso homem,
Cão amestrado da cultura, salve!



Sócrates
(…) Apenas eu pretendo
Fazer-te umas perguntas. Em primeiro
Lugar, responde: Tens boa memória?

 Estrepsíades
Isso depende. Se alguém me deve,
Eu não me esqueço, de maneira alguma.
Se eu devo a alguém, contudo, o caso é outro:
Não consigo lembrar, por mais que queira.



Quero-o capaz de rir-se da verdade.



Filosofia:
Vamos, vamos,
Penosa Impertinência,
E diante assim do respeitável público,
Faze uma respeitosa reverência.
Gostas de pimponar.
Está na hora.

Sofisma:
Está mesmo na hora,
Massa Informe,
Quanto maior a multidão, maior
O prazer de poder, diante dela,
Te refutar.


Filosofia:
Tem graça. Refutar-me!
Quem pensas que tu és?

Sofisma:
Sou uma Lógica.

Filosofia:
Tu, uma Lógica, vil Loquacidade?
Palavrório vazio!

Sofisma:
Não me importo
Ser chamado de Sofisma.
Eu te liquido.
Vou refutar-te.

Filosofia:
Com o que não é convencional, e ainda
Com o ultramodernismo, e assim também
Com ideias de todo heterodoxas.

Filosofia
Essa moda que ora predomina
Devemos a essa corja de imbecis...

Sofisma
Imbecis?
Cavalheiros requintados.

Filosofia
Eu te invalidarei.

Sofisma
Invalidar-me?
Que estás a pensar, seu defunto andante?

Filosofia
Meus argumentos são, convém saber,
A Verdade e a Justiça.

Sofisma
Eu te desarmo.
E te derroto, com Justiça e tudo.
Não existe a Justiça.

Filosofia
Não existe?
Tem graça!

Sofisma
Então, mostra-me onde ela está.

Filosofia
Onde está a Justiça?
Muito fácil: No regaço dos deuses.

Sofisma
No regaço Dos deuses?
Então podes me explicar
Como Zeus escapou da punição,
Depois de ter prendido o próprio pai?
A incoerência é clara como a água.

Filosofia
Tagarela asqueroso! Tu me enojas!

Sofisma
Decrépito! Senil! Velho caduco!

Filosofia
Pederasta precoce! Pervertido!

Sofisma
Pode atirar-me roas e mancheias.

Filosofia
Ó cogumelo vil! Ó vil latrina!

Sofisma
Com uma coroa de viçosos lírios
A minha fronte cinge.

Filosofia
Parricida!

Sofisma
Uma chuva de ouro sobre mim Faze cair.
Não vês que eu me deleito
Com os teus insultos?

Filosofia
Deleitas-te, monstro?
Em meu tempo, eu teria-te cingido
De vergonha.

Sofisma
Porém hás de convir
Que hoje as coisas mudaram.
O que era errado no teu tempo,
É o certo e a moda agora.

Filosofia
Fedelho repulsivo!

Sofisma
Vil pedante!

Filosofia
Por tua culpa só e tão-somente
As escolas de Atenas estão vazias.
 E por isso, ociosa e pervertida,
Toda uma geração nas ruas vaga.
Escuta o que te digo: no futuro
Saberá a cidade o que fizeste:
Os seus filhos viris tu os tornaste
Tolos e efeminados.

Sofisma
Idiota!

Filosofia
Enquanto isso, por tua vez, viraste
Um peralvilho muito presunçoso,
Mas recordo-me bem de teu começo
Humilde e triste, em que representavas
Bem igual a Telefos, embrulhado
No trapo e no farrapo euripidiano.

Sofisma
Quanta sabedoria havia ali!

Filosofia
 E que prodígio de loucura aqui!
Tua loucura, e, mais louca que tu,
Esta cidade, pois só louca pode
Permitir que tu vivas, miserável,
Corruptor de sua juventude!

Sofisma
(lançando uma asa em torno de Feidipides)
Fica sabendo, seu
Defunto Vivo,
Que a este aluno jamais ensinarás.

Filosofia
(puxando Feidipides para trás)
Hei de ser o seu Mestre, a menos que
Se dedique à carreira da sandice.

Sofisma
Vá esperando. Vem comigo, jovem.

Filosofia
Para a desgraça caminhar?

Corifaios
(intervindo)
Senhores! Chega de altercações e de injúrias.
Que cada um, por sua vez, exponha
Seus argumentos. Tu, Escola Antiga,
Descreve, com clareza e cortesia,
Como ensinaste os homens do passado,
E tu descreve a Nova Educação.

Filosofia
Apoio essa proposta.

Sofisma
E eu também.

Corifaios
Muito bem. Qual dos dois fala primeiro?

Sofisma
Que ele comece. Ficarei ouvindo.
Depois, porém, que ela tiver falado,
Lançarei sobre ela esmagadora
Concentração do Pensamento Novo
E dos Pontos de Vista Derradeiros,
Que vão deixá-la sem poder falar.

Coro
Com atenção ouçamos.
Afinal A Grande Discussão vai começar.
Entre os dois decididos campeões
Quem vai ganhar ninguém pode saber.
Ambos são hábeis, destros e subtis,
Mestres no ataque e na defesa, mestres
No insulto soez e na agressão.
Do pleito o prémio é a Sabedoria.
Da perícia dos dois contendores
O destino depende inteiramente
Do idioma e da mentalidade,
Da educação, enfim, de toda Atenas.

Corifaios
Tem a palavra a Filosofia.
Fala, portanto, ó tu, que conferiste
A virtude às antigas gerações.
Fala com confiança, e  explica-nos
O que na realidade representas.

Filosofia
Quero falar da Educação Antiga,
E como floresceu nos velhos tempos
Dirigida por mim. A Honestidade
Sem atavios, a Linguagem Clara
E a Verdade eram honradas, praticadas.
E em todas as escolas de Atenas
Se seguia o regime dos três DD:
Disciplina, Decoro e Dever.
O programa era a Música e a Ginástica,
Ensinadas de acordo com o ditado:
“As crianças são vistas, não ouvidas”.
Este era o princípio cardeal.
Os alunos, em grupos divididos,
Conforme a região de onde vinham,
Em esquadras marchavam para a escola
Disciplinados e silenciosos.
E eram jovens bem fortes, resistentes.
Mesmo em manhãs de inverno, quando a neve
Caía, a sua única proteção
Contra o rigor do tempo era uma túnica
Muito leve e bem fina. E nas salas
De aula eram os alunos colocados
Em filas e de pé, e muitos atentos
Escutavam as lições e as repetiam
Muitas vezes, de cor, seguidamente.
A própria música era tradicional:
Entoavam-se, então, hinos e cânticos
Bem conhecidos, como, por exemplo,
O que começa: “Uma voz vem de longe”
Ou “Salve, Palas ultriz” e outros cantos
De uma simplicidade que encantava.
Brincadeiras na aula eram severa
E decididamente proibidas.
Aqueles que quisessem improvisar
Ou usar os torneios e trinados
Então em voga na degenerada
E efeminada escola de Frinis,
Eram severamente castigados
Por ultrajarem as Musas.
No ginásio,
Também todo o decoro era exigido.
Nus em pelo os alunos reunidos
Pudicamente as pernas estendiam
Para frente, dos olhos curiosos
Escondendo a nudez.
Tão recatados
Eram os jovens então, que sempre tinham
O cuidado de bem limpo deixarem
O lugar onde se tinham sentado,
Para que acaso o traço sobre a areia
Por suas próprias nádegas deixado
Chegar não fosse a provocar desejos.
Era proibido ungir com óleo o corpo
Para cima do umbigo, e, em consequência,
O órgão genital era mantido
Com toda a exuberância juvenil.
Para os amantes o comportamento
De todos eles era bem viril.
Não eram vistos em pares aos cochichos,
Nem soltando gritinhos nem olhares
Provocantes lançarem, requebrando.
Na mesa, a educação e a cortesia
Eram cumpridas rigorosamente.
Nenhum jovem jamais se atreveria
A salada sequer provar, sem antes
Terem sido servidos os adultos.
Comida temperada era proibida.
Proibido também dar gargalhadas
Ou as pernas cruzar...


Sofisma
Quanta estupidez!

Filosofia
Estupidez? Esses preceitos produziram
Os heróis que venceram a Maratona.
(ao Sofisma)
E tu o que ensinas? A modéstia?
Apenas a vaidade e a frouxidão.
A beleza do corpo nu oculta
Por pesadas e feias vestimentas,
Pouco viris também. Fico enojado
 Se nas Panetenéias vejo os jovens
Dançarem do seu corpo envergonhados.
Esquecendo, de fato, o seu dever
Para com os nossos deuses, quando atrás
Dos seus escudos a nudez escondem.  
(A Feidipides)
Eu te convoco, jovem. Vira as costas
À atração do vício, às artimanhas
Dos tribunais e à fácil, preguiçosa
Corrupção dos banhos. Ao contrário
Escolhe a Antiga Educação, baseada
Na sã Filosofia. Jovem, segue-me
E dos meus lábios, sem temor, aprende
As virtudes do homem: a mente sã,
A decência e a inocência que não vão
Permitir que do mal te aproximes.
Que te sintas furioso, indignado,
Quando a tua honra sentes ultrajada.
Para com os mais velhos, deferência;
Respeitar pai e mãe; manter intacta
A imagem de modéstia assaz viril
Que servirá de guia em tua vida.
Sê puro, evita os sórdidos bordéis,
O amor prostituído, que corrompe
Teu caráter viril, e que rebaixa
Tua reputação. Para teu pai
Mostres sempre total obediência.
Respeita o fim da vida de quem antes
Te criou, te tratou, quando mais moço.
Jamais o chames de velho ou caduco...

Sofisma
 Meu jovem, se seguires tais conselhos,
Acabarás ficando efeminado

Filosofia
Muito ao contrário disso, eu te prometo,
Não discussões estéreis, não pendências
Judiciais repletas de chicana,
E sim lutas atléticas, viris,
Disputadas por jovens musculosos
Repletos de vigor e de saúde.
Parece-me ver-te agora, em um idílio
Com outro jovem de tua mesma idade,
Tão modesto e viril como tu mesmo,
Caminhando talvez na Academia,
Ou entre os olivais, ambos coroados
De pâmpano e respirando o ar sadio
Da primavera, a súbita fragrância
Do início da estação. Portanto, ó jovem,
Segue os meus passos e conquistarás
A perfeição do físico, a saber
(Demonstrando cada tributo individualmente)
FORMA, Estupenda.
CÚTIS, Magnífica.
OMBROS, Gigantes.
LÍNGUA, Bem Pequena.
NÁDEGAS, Robustas.
PÉNIS, Discreto.
Se seguires, porém, a outra parte,
É esta a recompensa que terás:
FORMA, Efeminada.
CÚTIS, Macilenta.
OMBROS, Caídos.
LÍNGUA, Enorme.
NÁDEGAS, Molengas.
PÉNIS, Desprezível!
Mas é verdade que terás também
Muitos e dedicados partidários.
E o que é pior, irás acostumar-te
A zombar da moral, não distinguindo
O bem do mal e o mal do bem. Em suma
Coberto ficarás de vilania,
Indecência, desonra e perversão.

Coro
Bravo! Que brilho! Que vigor!
Que belo! Que saber!
Que modéstia! Que decoro!
Nem uma só palavra desperdiçada!
Felizes foram aqueles cujas vidas
Nas virtudes antigas se apoiaram!
 (Para o Sofisma)
A despeito de tua subtileza,
De tua habilidade, tem cuidado.
Teu rival conseguiu lavrar um tento.
Muito vigor precisas para vencê-lo.
Podes falar agora. A vez é tua.

Corifaios
A não ser que prepares com cuidado
Tua estratégia e, ferozmente, ataques,
Terás perdido a causa, e saíras
Daqui como motivo de chacota.

Sofisma
Até que enfim! Se mais alguns minutos
Tivesse que esperar, eu morreria
Até, de impaciência, do desejo
De refutar e de arrasar o outro.
Muito bem. Para começo de conversa,
Tenho de admitir que, entre os letrados
E os pedantes, costumo ser chamado
 - Pejorativamente algumas vezes –
 De Lógica Sofística, Imoral. E por quê?
Porque eu fui o primeiro
A construir um Método capaz
De subverter as Crenças Sociais
De há muito respeitadas e seguidas
E a Moral respeitada solapar.
Além de tudo, uso um certo truque,
Invençãozinha que a mim mesmo devo,
Que é o de utilizar um argumento
Que parece o pior dos argumentos,
E acabar vencendo, no entanto.
E essa minha invenção tem-se mostrado
Extremamente lucrativa como
Fonte de rendimentos. Vede, agora,
Como eu refuto a vã Filosofia.
(Para a Filosofia)
Em teu programa escolar proíbes
Absolutamente os banhos quentes.
Podes expor-me agora os argumentos
Em que se funda tal proibição?

Filosofia
O que mais poderia eu aduzir?
Os banhos quentes fazem muito mal,
Tornam o homem frouxo, efeminado.

Sofisma
Não me digas mais nada. Isso é bastante.
Estás em minhas mãos, completamente.
Responde-me de pronto: quem dos filhos
De Zeus foi mais valente, mais heróico?
Quem mais aos sofrimentos resistiu?
Quem executou as mais duras tarefas?

Filosofia
Na minha opinião, Héracles foi
O maior dos heróis que o mundo viu.

Sofisma
Quando tu te referes aos famosos
Banhos de Héracles, referindo estás
A que espécie de banhos: frios, quentes?
É claro que são quentes. Assim sendo,
Por tua própria lógica era Héracles
Efeminado e frouxo.

Filosofia
Idiotice! A tua lógica é dessas que se usam
Entre esses jovens desfibrados, torpes,
Que esvaziam os ginásios e enchem os banhos.

Sofisma
Muito bem. Prossigamos. Se quiseres
Considerar a nacional paixão
Pela política e pelo debate
Um mal, muito ao contrário eu a aprovo.
Se a política fosse razoavelmente
Tão nefasta e tão má como sustentas,
 Então jamais o venerando Homero
 - Nosso guia e mentor quanto à Moral –
Jamais, jamais teria retrato
Nestor e outros velhos respeitáveis
Como políticos. Não é mesmo claro?
Agora examinemos a questão
De estudarem os jovens a oratória,
Coisa que eu defendo e tu condenas.
Quanto ao Decoro e à Moderação,
Estas próprias noções são absurdas.
Acho mesmo difícil conceber
Preconceitos tão tolos, ou melhor
Mais que tolos: prejudiciais.
Poderias, por acaso, me citar
O exemplo de um homem que lucrou
Com a moderação? Um só exemplo.

Filosofia
Os exemplos abundam. Eu citaria...
Por exemplo, Peleu. Sua virtude
Conquistou-lhe uma espada.

Sofisma
Ora, uma espada!
Que grande prémio pra tão grande tolo!
Vejamos nosso Hipérbolo. Sem dúvida
Virtude é coisa que ele nunca teve.
No entanto, viveu à tripa forra,
Teve dinheiro a rodo. Não espadas.
Espada não combina com Hipérbolo.

Filosofia
Além disso, porém, a castidade
De Peleu conquistou o amor da deusa
Tétis, que se tornou a sua esposa.

Sofisma
Exatamente. Mas o que fez Tétis
Depois do casamento? Despediu-o,
Por ser frio demais, com espada e tudo.
(A Feidipides)
Eu te aconselho, jovem, a encarares
Com cuidado o caminho da Virtude,
Pois se acaso o seguires, não te esqueças:
Despedirás de todos os prazeres
Que hoje te deleitam. Por exemplo:
Sexo, glutonaria, jogatina, bebedeiras etc.
O que farás na vida, jovem e forte,
Se deixares de lado tais deleites
Essas pequenas alegrias? Pensa
Em tuas naturais necessidades.
Supões que, sendo exemplo da virtude,
Cometas, algum dia, um pecadilho,
Uma seduçãozinha, um adultério,
E, por azar, tu sejas apanhado
Com a boca na botija. Que farias?
Tu estarias desmoralizado,
Não poderias defender-te, é claro,
Sem ter nunca aprendido como agir
Em tal situação imprevisível.
Segue, porém, os meus conselhos, jovem,
E faz o que te dita a natureza.
Goza a vida, diverte-te e ri
Do mundo sem escrúpulos. Se acaso
Em flagrante tu fores apanhado,
Afirma simplesmente ao pobre corno
Que não tens culpa, e invoca como exemplo
O Zeus onipotente, que não pode
Ver mulher sem tratar de conquistá-la.
Se um tão grande e poderoso deus
Não pode resistir, como querer
Que um pobre mortal tenha a arrogância
De ministrar ensinos de moral
Aos deuses imortais? Não é possível.


Filosofia
Mas supõe que, aceitando o teu conselho,
O teu discípulo seja condenado,
Por adultério, a ter um rabanete
Enterrado no reto?
 Por acaso Poderias salvá-lo?

Sofisma
Um rabanete!
Achas mesmo, confessa, uma desgraça
 Tão grande ter um rabanete
Enfiado no rabo?

Filosofia
Para mim
Não pode haver nada mais degradante
Do que ter um rabanete em tal lugar.

Sofisma
E o que dirias, se eu te derrotasse
Neste campo também?

Filosofia
Nada diria. Não abriria nunca mais a boca.
Sofisma
O que achas que são nossos juristas?

Filosofia
Pederastas passivos.

Sofisma
Muito bem. E os poetas trágicos?

Filosofia
O mesmo.

Sofisma
Políticos?

Filosofia
Também a mesma coisa.
Sofisma
É assim? Pois então, agora olha
Para a nossa audiência. Estás olhando?

Filosofia
Estou. Atentamente.

Sofisma
E o que tu vês;

Filosofia
Muitos homens eu vejo,
e quase todos Pederastas passivos.
(Apontando para alguns indivíduos no público)
Vê aqueles
De cabelos compridos?
Têm de ser.

Sofisma
 E agora dize, amigo, onde chegamos.

Filosofia
Fui derrotada pelos Pederastas Passivos.
Vou-me retirar. Só isso. (Atira seu manto para o público)
Tomai meu manto e recebei-me, ó vós,
Pederastas Passivos.



E vós, aí? Sim, vós mesmos, cretinos! Vós carneiros
Com cabeças de pombo! Presa fácil
Do palavroso esperto e do sofista.
Cambada de idiotas! Tenho dito.


Os juros não são mais do que a tendência
Natural do dinheiro aplicado
De se reproduzir, com a passagem
Do tempo. E assim é mais do que claro
Que os juros crescem, o capital aumenta.


Feidipides
Senhores! A Eloquência é coisa boa,
Muito melhor até do que esperava.
Oh! O arrebatamento do discurso!
Oh! A volúpia da articulação!
Mas sobretudo o ático prazer
De poder à vontade subverter
A ordem da Moral seguida e aceite!



Feidipides
Responde agora pai:
Quando eu era pequeno bateste-me?

Estrepsíades
É claro. Eu tinha de te educar. Bati porque te amava.

Feidipides
Muito bem. Uma vez que tu mesmo reconheces
A sinonímia de espancar e amar,
É mais do que natural que eu, agora,
Por minha vez, com muito amor, te espanque.
Mais que isso, aliás: com que direito
Tu podes me espancar e pretenderes
Que eu não possa fazer a mesma coisa.
O que pensas que sou? Que sou escravo?
Não nasci, como tu, um homem livre?
Que me dizes, então?

Estrepsíades
Mas...

Feidipides
Mas o quê?
“Poupas a vara e estragas a criança”?
Este é o teu argumento?
 Pois, se for
Eu posso responder com outro ditado:
 “Os velhos são crianças que cresceram”.
É lógico, portanto, que os velhos
Merecem muito mais ser espancados,
Porquanto, experientes como são,
São menos desculpáveis que as crianças.

Estrepsíades
Mas não é natural! É ilegal!
Honrarás pai e mãe. Tal é a lei.

Feidipides
E quem fez essa lei? Um homem igual
A mim, a ti, um homem igual a nós.
Um homem que lutou por seu projeto
Até poder persuadir o povo
Que o transformasse em lei.
Somente isso.
Pelo mesmo motivo, o que me impede
De uma lei nova apresentar, mandando
Que os pais sejam espancados pelos filhos?
Não seria vingança, é evidente.
Estou mesmo inclinado a sugerir
Uma amnistia que retroagisse
Favorecendo os pais, e garantindo
Uma compensação pelas pancadas
Que, por acaso, houvessem recebido
Antes que fosse promulgada a lei.
Se, apesar disso tudo, não estás
Ainda convencido, todavia,
Argumento com a própria Natureza.
Por exemplo: observa como os galos
Se comportam entre si.
Vivem brigando Filhos com pais, sem vãs hierarquias.
E em quê a sociedade galinácea
 Difere da nossa: tão somente
Porque a nossa tem leis e ela não.

Estrepsíades
Se estás disposto a imitar os galos,
Por que não vais, então, comer titica
E dormir no poleiro?

Feidipides
Ora! Porque... Porque não há no caso analogia.
Se duvidas de mim, pergunta a Sócrates.

Estrepsíades
Deixa os galos para lá. Mas aconselho-te
A não bateres mais em mim, pois isso
Vai acabar é a prejudicar-te.

Feidipides
Prejudicar-me? Eu duvido.

Estrepsíades
Então,
Presta atenção no que te vou dizer:
Quando eras menino eu bati.te.
Mas um dia terás, também um filho,
Nele descontarás o que tiveste.
Se, porém, me bateres, o teu filho
Naturalmente seguirá o exemplo
E contigo fará o que me fazes.

Feidipides
E se eu não tiver filho? Nesse caso
Eu ficarei privado de bater
Em qualquer um.
E agora, o que me dizes?

Estrepsíades
Tenho de confessar que tens razão.
(Para o público.)
Falando para a geração mais velha,
Sou obrigado a confessar, senhores,
Derrotado saí. Meu douto filho
Conseguiu demonstrar a sua tese:
Deve ser espancado o pai faltoso.

Feidipides
Naturalmente. Eu estava a esquecer-me,
De uma questão final, muito importante.

Estrepsíades
Qual é? O funeral?

Feidipides
Muito ao contrário.
Eu acho até que vais ficar contente.

Estrepsíades
Mais do que já estou? Acho difícil...

Feidipides Segundo dizem, “O sofrimento gosta
De companhia”. E terás, meu pai
Em tua desventura, companhia
Vou espancar também minha mãezinha.

Estrepsíades Bater em tua mãe?!
Isso é pior, Dez mil vezes pior!

Feidipides
Tu achas mesmo?
E se eu provar, por Lógica socrática,
Isso também, então o que dirias?

Estrepsíades
O que eu diria? Digo agora mesmo:
Se tal coisa provares, eu permito
Que juntes tua Lógica nojenta,
E o teu Pensamental e que Sócrates,  
Enfie tudo no lugar devido!
(Dirigindo-se ao Coro)
Ó Nuvens, fostes vós que me arrastastes
A esta situação em que me encontro.
Ser assim enganado! Mentirosas!

Corifaios
Foste tu o culpado, Estrepsíades.
O único culpado foste tu.
Não foi feita por nós a tua escolha,
Porém por tua própria improbidade

 Estrepsíades
Por que, então, em vez de aconselhardes
Um pobre ignorante a se afastar
Do mal, muito ao contrário, o incitastes?

Corifaios
Porque é assim mesmo que nós somos:
Insubstanciais nuvens onde o homem
Constrói as suas frágeis esperanças,
Brilhantes, tentadoras, mas formadas
De puro ar, miragens do desejo.
E assim agimos nós, indiferentes.
Seduzindo e atraindo os homens vãos
Nos desonestos sonhos da ambição
Que, como sonhos, logo se desfazem.
E o sofrimento lhes ensina então
A respeitar os deuses, e a temê-los.





sexta-feira, 14 de junho de 2013

Aristófanes- A Assembleia de mulheres


(…Inspiradas no princípio em que há similaridade entre a direção da coisa pública e do lar, as mulheres governarão a cidade com a mesma eficiência com que cuidam de suas casas, para satisfação de todos. Não haverá mais ricos de um lado e pobres do outro. Atenas será como uma única habitação na qual cada um poderá obter, num fundo comum, o necessário à sua subsistência, graças a reformas de base como a comunidade de bens e de mulheres.
     É digna de nota a solução de Valentina (Aristófanes) para o problema das mulheres feias diante da desvantagem em que ficariam, relativamente às bonitas, nesse regime autoritário...)


2.ª Mulher - E qual é a mulher que precisa treinar para falar?



2.ª Mulher – Ora essa! Os homens não bebem na assembleia?

Valentina – Você pensa que eles bebem o que você está a querer beber?

2.ª Mulher – Exatamente. A bebida forte! Todas as leis, quando bem examinadas, parecem ter sido feitas por bêbedos, bem perto da demência! E se não bebessem, como se explicariam as xingações, os palavrões que eles trocam?



Valentina – Alguém quer usar a palavra?

1.ª Mulher – (levantando-se) Eu!

Valentina – Pois suba à tribuna! Estamos em sessão. Mas veja se fala como um homem!

1.ª Mulher – (em tom oratório) Agradar-me-ia mais que alguém, mais eloquente e com ideias mais claras, viesse falar-lhes, permitindo-me continuar tranquilamente sentado no meu lugar. Num momento como este, todavia, seria inadmissível o silêncio, agora que há coisas tão sérias a fazer como...



Valentina –  Eu mesma falarei em defesa de vocês, depois de subir à tribuna. (sobe no banco e assume ares de orador) “Elevo meus pensamentos aos céus: que nossos projetos se realizem! Sou igual a toda a gente mas não posso deixar de afligir-me ao ver o estado de decomposição em que se encontra a administração do país. Vejo-o sempre entregue a maus dirigentes. Se um é bom um dia, torna-se mau durante dez. Recorre-se a outro, é ainda pior. Sei que não é fácil dirigir homens difíceis de contentar. O povo tem medo de quem lhe deseja e adula quem lhe faz mal. Houve um tempo em que não tínhamos assembleias mas sabíamos que um mau elemento era mau elemento mesmo. Agora, que as temos, ouvimos aqueles que conseguem vantagens através de seus candidatos fazer-lhes os elogios mais rasgados; quem nada conseguiu diz que os políticos querem apenas ganhar milhões do povo sem fazer coisa alguma!

E essas medidas salvadoras? Quando deliberam sobre elas parece que o mundo acabaria se não fossem aprovadas; depois, tem-se vontade de matar o autor de tais projetos, tão grande é a decepção! É preciso aumentar os impostos? Os pobres se conformam, os ricos esbravejam!

E o povo é a causa de tudo isso, pois todo mundo cuida apenas dos próprios interesses, com a preocupação única de levar vantagens. E o pobre país vai aos trambolhões, como um bêbedo! Mas se acreditarem em mim ainda haverá salvação. É às mulheres, às mulheres – repito – que devemos entregar o Governo, da mesma forma que confiamos a elas a direção dos nossos lares! ”

“Vou demonstrar agora que os costumes delas são melhores que os dos homens. Primeiro, elas são conservadoras: fazem tudo hoje como sempre fizeram ( os nossos governantes acham que só nos salvam com reformas e inconstância). Elas cozinham hoje como antigamente; fazem bolos como antigamente; chateiam os maridos como antigamente; têm amantes como antigamente; comem pouquinho como antigamente; bebem pouquinho como antigamente; como antigamente trocam beijinhos! Homens aqui presentes! Confiemos o Governo às mulheres sem maiores discussões. Nem perguntemos o que elas irão fazer, mas deixemo-las governar logo e bem! Pensemos um pouco: como mães, elas pouparão de cuidar da vida de seus filhos, de nossos soldados, evitando as guerras; para arranjar dinheiro, as mulheres são muito mais hábeis; nos cargos que ocuparão, ninguém as enganará, pois elas que vivem enganando os homens conhecem todos os truques e saberão defender-se . Quanto ao resto, nem vou falar. Se vocês acreditarem em mim serão felizes para o resto da vida!”




1.ª Mulher – … e se mandassem  retirar você da tribuna à força?

 Valentina –  E quem teria a ousadia de por a mão em mim?

1.ª Mulher – É isso mesmo; e mesmo que pusessem nós obrigaríamos o atrevido a tirar a mão ainda que tivéssemos de puxar os cabelos dele e unhá-lo todinho! (dirigindo-se à sua vizinha) Tudo isso está combinado direitinho, mas há uma coisa em que não pensamos: como é que na hora de votar vamos lembrar de levantar os braços, nós, que só estamos acostumadas a levantar as pernas?




Todas as mulheres – (falando ao mesmo tempo) Vamos para a Assembleia! Vamos depressa para tomar conta dos lugares! Vamos votar, de braços erguidos! Sei que não iremos ganhar dinheiro com o golpe, mas ajamos desinteressadamente, como outrora, quando se tratava de política sem pensar em abiscoitar milhões.



Cremes – Como sempre, os políticos tratavam da salvação da pátria: apresentavam projetos de efetivação de interinos com duas horas de exercício da função, de concessão de taxas de insalubridade ao pessoal que vai à praia aos domingos e fica lá depois do meio-dia, de criação de mil cargos de assistentes sexuais para os deputados, de aumento de subsídios, de férias de 300 dias por ano, etc.



Cremes – Afinal a boa vida vale um sacrifício. Dá-se um jeito!

Blêpiro – Mas tudo que se faz forçado perde o gosto.




Blêpiro – ….E qual o meio de evitar que todos os homens queiram a mais bonita?

Valentina – As feias e mal acabadas ficarão ao lado das mais bonitas e quem quiser as bonitonas terá que satisfazer primeiro as feiosas.

Blêpiro – (com ar desconsolado) E nós, os velhotes, como nos arranjaremos? Se tivermos de “traçar” primeiro as feias o nosso... entusiasmo murchará e como é que vamos dar conta das bonitonas?

Valentina – Elas não vão chorar por isso; pelo menos quanto a você, fique tranquilo. Elas não vão brigar por você...

Blêpiro – Quem sabe?

Valentina – O.... entusiamo que já está murcho não tem o que murchar, meu velho. Esse problema você não terá.

Blêpiro – Para vocês, mulheres, o plano está muito engenhoso; você já arranjou as coisas de tal maneira que nenhuma mulher ficará sem o dela. Mas quanto aos homens, como é que vai ser? As gostosonas fugirão dos feios para entregar-se aos bonitões.

Valentina – Não senhor! Isso aconteceria no regime antigo, quando só se pensava num lado dos problemas. Agora o mecanismo vai ser o mesmo! Os feios tomarão conta dos bonitões e as mulheres não poderão ir com os altos, morenos e simpáticos antes de ter resolvido o problema dos baixinhos e mal acabados.

Blêpiro – (entusiasmado) Muito obrigado em nome dos desfavorecidos!

Valentina – É um dispositivo muito democrático. Nossa reformulação é certinha em tudo. Vocês vão rir dos convencidos, dos galãs, e dirão: “Calma, mocinho bonito! Primeiro aqui o papá vai provar o material!”

Blêpiro – É... Mas com esse género de vida como é que cada um vai reconhecer os próprios filhos?

Valentina – Isso não terá importância. As crianças julgarão seus pais todos os homens que tiverem idade para isso.

Blêpiro – Agora é que a rapaziada vai espancar os velhos à vontade, pois até hoje, sabendo quem era o pai, eles espancavam, quanto mais quando não souberem!

Valentina – Mas os outros rapazes não permitirão. Antes eles não se incomodavam quando um rapaz batia no pai, mas no futuro não deixarão ninguém bater em ninguém, pois um poderia estar batendo no pai do outro.

Blêpiro – Isso que você está a dizer não é nada mau. Mas se um desses rapazinhos rebolantes que andam por aí chegar perto de mim e me chamar de “papá”, vai ser duro de aguentar!

Valentina – Mas esses rapazinhos rebolantes que você está falando nasceram antes da nova lei; não há perigo de eles poderem chamar você de “papá”.

Blêpiro – Só uma pergunta mais: quando alguém perder uma questão na justiça, como vai arranjar dinheiro para pagar ao advogado e aos escreventes? No fundo comum? Não haveria dinheiro que chegasse!...




Blêpiro – (dirigindo-se a Cremes) Acontece que ela vai ter explicar o seguinte: e se dois camaradas brigarem e forem presos, com que pagarão a fiança? E quando, depois de um jantar legal, puxado a vinho, alguém agredir alguém? (dirigindo-se a Valentina) Dessa quem não sai é você!

Valentina – Pagarão a fiança com a parte do que tiverem para comer. Tendo de ficar com o estômago vazio eles pensarão melhor antes de cometer outra violência; o estômago castigado será bom conselheiro.

Blêpiro – (com ar de desânimo mas sem se dar por vencido) E não haverá mais ladrões?

Valentina – Para roubar o que já é deles?

Blêpiro – (depois de pensar alguns segundos) Então não se será mais assaltado de noite?

Cremes – Não, se você ficar em casa.

Valentina – Nem se você dormir fora de casa, como costuma fazer, pois toda a gente terá o suficiente para viver. Se quiserem o seu casaco você o dará, pois bastará ir ao fundo comum para obter outro.

Blêpiro – Nem haverá mais um joguinho?

Valentina – Para ganhar o que?

Blêpiro – Então que espécie de vida você quer que levemos?

Valentina – Todos viverão em comum. Pretendo fazer das cidades uma só casa, demolindo todos os muros, de maneira a que todos possam ir a toda parte.

Blêpiro – (ainda sem querer dar-se por vencido) Não haverá perigo de faltar comida para alguém?

 Valentina – Em nossa terra não haverá mais necessitados. Nós, mulheres, daremos tudo a todos abundantemente. Os homens, depois de terem comido e comido e bebido à vontade nos jantares coletivos, irão embora com a testa coroada de flores e de tocha acesa na mão (para não errarem o caminho). E as mulheres, nas esquinas, dirão aos que vierem voltando dos jantares: “Vem cá! Lá em casa há uma pequena muito boa para você!” Outras dirão: “E lá em casa há uma ainda melhor, clarinha e gostosinha! (Blêpiro e Cremes ouvem embevecidos)!” E os homens mal acabados seguirão os bonitões e lhes dirão: “Para quê tanta pressa? Você nada conseguirá se chegar antes de mim, pois de acordo com o decreto os primeiros a provar os brotinhos serão os velhotes e feiosos;”. (dirigindo-se a Blêpiro e Cremes) Então, a reforma de base está boa para vocês?

Blêpiro e Cremes – (a uma voz) Legalíssima!

 Valentina – (séria) Chega de conversa. Agora tenho de ir à praça pública receber os bens que todos levarão para organizar o fundo comum pelo bem do país, pois fui escolhida para chefa do governo das mulheres. Arranjarei umas ministras de alto gabarito e mandarei providenciar os jantares coletivos para que toda a gente ainda hoje veja o governo em pleno funcionamento. No meu governo todo o mundo vai comer à vontade.

Cremes – Eu vou andando; vou dar um balanço nas minhas coisas para levá-las à praça pública, ao fundo comum.




Cremes – Essa é boa! Não devo obedecer à lei?

Um Homem – A que lei, desgraçado?

Cremes – Às leis que aceitamos.

Um Homem – Aceitamos!... Você é mesmo um grande bobo!

Cremes – Bobo?!

Um Homem – E não é? O maior bobo do mundo!

Cremes – Por fazer o que a lei manda?

Um Homem – Então um sujeito sensato tem de fazer tudo o que a lei manda?

Cremes – Mais que os insensatos.

Um Homem – Isso é para os trouxas!

Cremes – Quer dizer que você não vai entregar as suas coisas ao governo?

Um Homem – Não! Pelo menos até ver o que a maioria fará.

Cremes – Que pode resolver a maioria senão entregar depressa os seus bens?

Um Homem – Quero ver para crer.

Cremes – Toda a gente está a dizer nas ruas que vai entregar tudo.

Um Homem – Dizer, eles dizem...

Cremes – E garantem que vão carregar as coisas nos próprios ombros.

Um Homem – Garantir, eles garantem...

Cremes – Você acaba me matando de raiva, você que não acredita em nada!

Um Homem – Acreditar, se eles não acreditam!

(…)
Um Homem –  Você podia ao menos esperar para ver o que os outros vão fazer. Depois então...

Cremes – Então!

Um Homem – Depois então vai-se ganhando tempo; depois adia-se novamente...

Cremes – Para quê?

Um Homem – Pode haver um terremoto ou alguma outra calamidade, ou vir uma nova lei, e então fica tudo como estava, idiota!



Então você acredita mesmo que alguém de bom senso vai dar o que tem? Nós nunca fomos de dar. Receber, sim! Até os deuses recebem. Você pode ver nos templos: quando vamos pedir alguma graça, lá estão eles de mãos estendidas, não para dar mas para receber.




O meu receio é que as mulheres não se entendem quando se trata dos homens...


Cara não resolve, franguinha! O que resolve é... competência!




Afinal de contas eu não ia fazer esta revolução para aprontar a cama para outras deitarem!













domingo, 9 de junho de 2013

Aristófanes- Lisístrata-A Greve do Sexo

(Cansadas de uma guerra que já durava 20 anos, as mulheres de Atenas, de Esparta, de Beócia e de Corinto (cidades gregas mais duramente atingidas pela), chefiadas pela ateniense Lisístrata, decidiram por fim às hostilidades usando de uma tática pouco ortodoxa: uma greve de sexo. Para melhor conseguir seu objetivo ocuparam a cidadela de Atenas – a Acrópole, e tomaram conta do Tesouro. Os maridos não resistiram à greve e concluíram um tratado de paz, depois de uma série de peripécias de grande efeito cômico apesar da ousadia dos detalhes.)


Se fosse para uma bacanal ou coisa parecida nem teria sido necessário convidá-las. Como é para coisa séria, até agora nenhuma mulher apareceu.


Lisístrata – Quero falar sobre uma coisa...
Cleonice – É grande a coisa?
Lisístrata – Muito grande!
Cleonice – Então todas já deviam ter chegado!
Lisístrata – (com ar de desânimo): A coisa não é essa que você está a pensar! Se fosse já estariam todas aqui há muito tempo. Trata-se de outra coisa, que está remexendo aqui em minha cabeça, que me faz ficar na cama virando para um lado e para outro há muitas noites.
Cleonice – Então essa coisa que faz você se virar tanto deve ser o máximo! Lisístrata - É sim, e a salvação da pátria depende do apoio das mulheres à minha ideia.
Cleonice – Das mulheres? Fraco apoio...


…E que espera você que as mulheres façam de sensato ou de extraordinário, nós que vivemos diante do espelho às voltas com a nossa “maquilagem”, nossos vestidos, nossa roupa de baixo, nossas sandálias?


Lisístrata – Muito bem: vocês terão de se privar... de fazer amor! Ei! Por que vocês estão a ir embora? Aonde vocês vão? Por que estão com essa cara amuada e a coçar a cabeça? E essas lágrimas? Vocês vão ou não vão fazer o que eu disse? Qual é a dificuldade?
Cleonice – Isso eu não posso fazer. Deus me livre! Antes a guerra!
Mirrina – Nem eu. Deus me livre! Prefiro a guerra!
Cleonice – Faço qualquer coisa que você queira. Se for preciso andar descalça em cima de uma fogueira, conte comigo. Antes isso que passar sem fazer amor. Isso é insubstituível, minha querida!
Lisístrata – (dirigindo-se a Mirrina) E você?
Mirrina – Eu também prefiro andar por cima da fogueira da Cleonice.
Lisístrata – Ó sexo dissoluto! Não escapa uma! Não é sem razão que somos assunto de tudo quanto é tragédia. Quando vocês não estão a pensar num homem é porque estão a pensar em vários! (dirigindo-se a Lampito). Mas minha querida espartana, você parece a única que está comigo. Unamo-nos! Ainda poderemos salvar a situação!
Lampito – É doloroso para uma mulher dormir sozinha, sem uma certa coisa... Em todo caso, estou resolvida, pois precisamos de paz!
Lisístrata – Querida! Você é a única mulher de verdade entre todas essas aí! Cleonice – E se, na medida do possível, nós nos privássemos disso que você disse – Deus me livre! – você garante que conseguiríamos a paz? Será que não há outro meio?
Lisístrata – O meio é exatamente esse! Se ficamos em casa, bem pintadas, com vestidos transparentes, deixando ver certos lugares bem depiladinhos, e quando nossos maridos avançarem para nós, taradinhos, loucos para nos agarrar, nós não deixarmos, garanto que eles votarão logo pela paz!
Cleonice – E se nossos maridos nem perceberem nossos encantos à mostra?
Lisístrata – Eles vêem até o que está escondido, minha filha, quanto mais o que se mostra!...
Cleonice – Eu acho tudo isso uma estupidez. Não gosto de fingir. Mas se eles nos agarrarem e nos levarem à força para o quarto?
Lisístrata – Vocês seguram-se à porta.
Cleonice – E se eles baterem em nós?
Lisístrata – Em último caso, vocês deixam, mas de má vontade e sem cooperar. Não há prazer nessas coisas quando forçadas. Além disso é preciso faze-los sofrer. Fique tranquila; eles entregarão logo os pontos pois o homem sem mulher não tem prazer em nada.


Cleonice – Você não receia que os homens contra-ataquem daqui a pouco?
Lisístrata – Não tenho medo deles. Só abriremos as... portas quando aceitarem as nossas condições.
Cleonice – Isso mesmo, ou então não mereceríamos a fama de criaturas mais perigosas do mundo.



1.º Velho – Que negócio é esse, flagelo dos deuses? Que é que você vai fazer com essa água?
1.ª Mulher – E você com esse fogo, sepultura ambulante? Será para reacender o seu... entusiasmo, que está apagadinho?


Mulher só sabe falar alto!

(…)Bem feito! Nós deixamos as mulheres mostrarem a sua ruindade e depois queixamo-nos. Há maridos que vão ao joalheiro e dizem: “Você lembra-se daquele colar de minha mulher que você consertou? Um dia destes ela estava a dançar e aquela coisa pendurada voltou a cair. Eu vou viajar hoje e você bem que podia passar lá em casa para falar com minha mulher e pôr a coisa pendurada no lugar!” outros vão ao sapateiro, homem de grande negócio e dizem: “O dedinho da minha mulher está todo ferido pela argola daquela sandália que comprei aqui para ela. Passe lá em casa ao meio-dia para alargá-la!” O resultado é esse.

Se você puser as mãos em cima dela eu esvazio suas tripas a pontapés!


(…)Então é por causa do dinheiro que fazemos guerras?
Lisístrata – Sim senhor! Vocês e todos os outros. É para poderem roubar nos cargos públicos que vocês vivem armando encrencas. Vocês podem fazer o que quiserem mas no dinheiro do povo, que está lá dentro, ninguém põe a mão!

No princípio da guerra nós, com a moderação própria das mulheres, suportámos tudo de vocês, homens (como vocês fizeram tolices!), pois vocês não nos deixavam abrir a boca. E vocês não faziam coisa alguma para nos agradar. Nós, que vos conhecíamos muito bem, quando às vezes ficávamos sabendo de resoluções desastradas sobre assuntos importantíssimos, perguntávamos aos nossos maridos: “Que foi que decidiram hoje na Assembleia a respeito da paz?”. “Que é que  tens a haver com isso?”, dizia meu marido; “Cale-se!”. E eu calava-me.
 As resoluções pioravam cada vez mais. E eu perguntava: “Mas meu marido, como é que vocês podem fazer tantas tolices?” E ele, olhando para mim de cima para baixo, dizia: ”Se você não voltar já para as suas agulhas e linhas vai ver…! A guerra é assunto para homens, como dizia o poeta.”Pois eu calava-me. As resoluções pioravam cada vez mais. E eu perguntava: “Mas meu marido, como é que vocês podem fazer tantas tolices?” E ele, olhando para mim de cima para baixo, dizia: ”Se você não voltar já para suas agulhas e linhas vai ver…! A guerra é assunto para homens, como dizia o poeta.”
Vocês tomavam resoluções idiotas e nós não podíamos nem dar conselhos. Mas quando ouvíamos dizer nas ruas: “Não há mais homens nesta terra?”  a resposta era “Não; acabou!”…

Lisístrata – Mas se o doce amor encher nosso corpo de desejos e deixar os homens com um entusiasmo de endurecer o... coração, creio que mereceremos as maiores recompensas.
Comissário – Por haver feito o quê
 Lisístrata – Por haver feito que não haja mais soldados fanfarrões desfilando sua vaidade nas ruas! Pois atualmente as ruas estão repletas deles, passeando cheios de armas e pose, mais duros que postes!
Comissário – É a atitude que convém aos bravos.
Lisístrata – Com toda essa bravura fica muito difícil andar por aí de capacete e escudo a fazer comprinhas...
Cleonice – Exatamente! Um dia desses vi um comandante de cavalaria parado perto de uma vendedora ambulante, montado, tomando sopa de legumes no capacete. Vi outro com suas armas treinando pontaria em figos e azeitonas, assustando todo mundo...

Lisístrata –  Se vocês tivessem juízo prestariam mais atenção à nossa linha para não fazerem asneiras em todas as situações complicadas.
Comissário – Como? Vamos! Diga!
Lisístrata – Primeiro, só usaríamos a linha dura. Depois, é tanta gente a querer ocupar os cargos públicos que é como se quisesse enfiar uma porção de linhas ao mesmo tempo no buraco de uma agulha só. Isso não vai mais acontecer! Só entra na agulha linha fina. Linha que pretenda engrossar não entra! Mas para os esforços maiores cada um terá de cooperar com sua linha até formarmos uma corda bem forte, obra da boa vontade de todos, nacionais e estrangeiros. Mais ainda: com muita linha poderemos fazer tecidos para vestir todo o povo!
Comissário– Não é mesmo um desaforo misturar assuntos tão sérios com linhas e agulhas? Bem se vê que elas nunca tomaram parte de uma guerra!
Lisístrata – Você é mesmo um retardado! O fato é que nós, as mulheres, sofremos duplamente com a guerra. Primeiro, quando levam nossos filhos para combater...
Comissário – Cale a boca, mulher! Não fique recordando coisas tristes!
Lisístrata - ...Depois, quando o natural seria experimentar os prazeres da vida e gozar a mocidade com os nossos maridos, ficamos em casa sozinhas por causa da guerra. Não quero nem falar no que nós, as casadas, sofremos com isso, mas para as solteiras ainda é pior, pois elas envelhecem solitárias em seus quartos. Sabe lá o que deve ser isso?
 Comissário– E os homens por acaso não envelhecem?
Lisístrata – Não é a mesma coisa! Um homem quando volta da guerra, por mais velho que seja, trata logo de casar com um rebento. E a mulher, que tem a vida ativa mais curta? Se não aproveitar essa fase ninguém mais vai querer casar com ela. A solteirona passa o resto da vida esperando uma coisa que não vem...
Comissário – Mas todo o homem como eu, ainda é capaz de dar o que vocês querem...
Lisístrata – Essa é fina! Logo você, que não sei o que está à espera para morrer! O chão está aí; é só arranjar um buraco. Eu até o ajudo a enterrar.
Cleonice – E eu faço uma mortalha.
Mirrina – E eu ponho uma coroa em cima.
Lisístrata – Então? Não falta mais nada. A morte está chamando. Vá logo!


Não é crime ter nascido mulher e o sexo não me impede de ter ideias melhores que as que andam por aí. Posso dar ao país outras coisas boas além dos filhos que já dei!


2.º Velho – (…) Vamos sacudir nossa velhice e dar asas ao nosso corpo!
1.º Velho – Isso mesmo! Se cedermos um passo essas gaiatas tomarão conta de tudo! Daqui a pouco elas vão querer substituir os homens até na cavalaria. E nisso elas têm mais facilidade, pois não há nada que atrapalhe na hora de montar... Vamos, pessoal! Vamos pôr umas coleiras no pescoço delas!
2.ª Mulher – Se a coisa continuar a aquecer eu vou acabar a ferver e vai sobrar bolha em você! (às outras mulheres) Se o caso é de mostrar a... valentia vamos tirar mais roupa, para eles verem como nós estamos tinindo de raiva! Quem quiser apanhar primeiro venha!
1.ª Mulher –Vocês não podem passar sem nós! Sozinhos vocês só sabem fazer decretos! Enquanto nós não pegarmos vocês pelas... pernas e os jogarmos num precipício para quebrar o pescoço, vocês não pararão de fazer esses decretos horrorosos!


Lisístrata – Raça ruim a das mulheres! Se eu não fosse durona já teria desanimado com a fraqueza delas! Parecem brotinhos de coração mole. E eu fico andando de um lado para outro sem saber o que fazer!
1.ª Mulher – Não esconda nada de mal que esteja acontecendo!
Lisístrata – Não adianta pedir o auxílio divino. O caso é sério mesmo. Já não consigo mantê-las longe dos maridos; elas fogem. Surpreendi uma, há poucos instantes, abrindo uma brecha no muro; outra descia para a rua por uma corda; outra saiu a correr ao encontro do inimigo; outra já estava para se atirar nos braços do marido quando eu puxei a tarada pelos cabelos. Disse tudo quanto foi desculpa para voltar para casa. Olhe ali uma correndo! Ei! Aonde vai você nessa carreira?
(…)
Lisístrata – Um homem! Vi um homem vindo para cá com ar de tarado! Parece que ele não aguenta mais o jejum! Se a coisa continuar assim vai acontecer tudo como nós queremos!
(…)
Cinésias – Como sou infeliz! Estou até a sentir tonturas! Meu corpo está todo duro. Não suporta mais esta tortura! … A minha vida já não tem encanto depois que ela me abandonou. Não gosto nem de entrar na casa deserta. Não sinto gosto no que como. Não aguento mais. Todo mundo percebe o tamanho da minha... saudade!

Não há fera mais indomável que a mulher, nem fogo mais destruidor. Nem a pantera é mais traiçoeira.

Ah! Que gostoso! Vocês são muito boazinhas! Quando eu tirei a túnica estava zangadíssimo.

Os poetas têm razão quando dizem que com essas pestes (mulheres) a coisa vai mal e sem essas pestes pior.

Você ama-me? Então por que você ainda não está deitada?

Você até parece que criou rabo no lado oposto!

Embaixador – Onde é o Senado de Atenas? Ou então onde estão os ministros? Tenho novidades a dizer.
Ministro – Quem é você? Um homem ou um saca-rolhas?
Embaixador – Sou embaixador, meu caro. Estou a chegar de Esparta para tratar de paz.
Ministro – Mas você vem tratar de paz com essa lança apontada para nós?
Embaixador – Isto não é uma lança...
Ministro – Então por que sua roupa está repuxada na frente, a certa altura? Será um tumor que cresceu durante a viagem?
Embaixador – (à parte) Esse homem está maluco!
Ministro – (levantando a túnica do embaixador) Não é um tumor! Não adianta disfarçar!
Embaixador – Que é isso? Chega de maluquices! (virando as costas para o público e levantando a túnica) Veja!
Ministro – (virando também as costas pata o público e levantando a túnica) Veja também! Já percebi tudo! Pode dizer a verdade. Como vão as coisas lá em Esparta?
Embaixador – Esparta inteira está parada. Nossos aliados também. Precisamos urgentemente de nossas mulheres.
Ministro – Qual é causa dessa... doença? Algum castigo divino?
Embaixador – Não. Foi Lampito quem começou. Depois todas as mulheres, como se fossem uma só, aderiram a essa greve de sexo.
Ministro – E como é vocês estão a passar?
Embaixador – Mal. Andamos até meio caídos para frente, pois não aguentamos o peso da... lança. E as mulheres não se comovem: só acabarão a greve quando for votada a paz em toda a Grécia.
Ministro – Então é uma greve geral das mulheres. Agora estou a entender! Pois vá dizer já ao seu governo que nos envie representantes com plenos poderes para negociar a paz! E eu vou já à Assembleia tratar da eleição de nossos delegados à conferência da paz, depois de mostrar aos deputados o... que você já viu.
Embaixador – Vou voando! Sua opinião é a mais sensata possível!

Aparece a delegação de Esparta para negociar a paz.
1.º Velho – Olhem lá! Está a chegar a delegação de Esparta! Sejam bem-vindos, espartanos! Qual é o caso?
Embaixador – Você ainda pergunta? (virando-se de costas para o público juntamente com os outros delegados espartanos) Veja o estado em que estamos!
1.º Velho – Irra! O mal de vocês cresceu barbaramente e a inflamação parece ter piorado...
Embaixador – Está insustentável! Preciso dizer mais alguma coisa? Viemos para fazer a paz de qualquer maneira, incondicionalmente!
1.º Velho – O pessoal daqui também está vindo para cá. O mal deles também está enorme. Toda gente vê.
Chega a delegação ateniense.
Ministro – Quem sabe onde está Lisístrata? (virando-se de costas para o público juntamente com os demais atenienses) Vejam como estamos!
1.º Velho – (apontando para os espartanos) Engraçado! Eles estão com a mesma doença!... Ela ataca mais de manhã, AO LEVANTAR?
Ministro – Nada disso! A essa nós estávamos acostumados mas agora, se não houver uma reconciliação já, vamos ter de inventar um substituto para as mulheres... Caros amigos espartanos, o que está acontecendo é vergonhoso!
 Embaixador – É mesmo. Aparecer diante de vocês neste estado!...
Ministro – Mas vamos ao que interessa. Para que é que vocês estão aqui?
Embaixador – Pela paz, como enviados plenipotenciários de Esparta.
Ministro – Ótimo! Nós, atenienses, estamos aqui para o mesmo fim. Acho melhor chamarmos logo Lisístrata. Só ela pode resolver nosso problema.
Embaixador – Boa ideia! Em último caso um Lisístrato também serve...
Ministro – Não precisamos de mandar chamá-la. Ela já vem aí.
Reaparece Lisístrata.
1.º Velho – Salve a bravura em pessoa! Chegou a hora da senhora mostrar que é terrível e condescendente, malvada e boa, altiva e camarada, profunda conhecedora dos homens! Os gregos mais ilustres, conquistados por seus encantos, madame, abrem passagem e submetem suas querelas à decisão da senhora!
Lisístrata – Não haverá dificuldades, pois estou diante de homens que desejam o que há de mais natural. Vamos já experimentar. Onde está a Conciliação? (a Conciliação, personificada por uma mulher sumariamente vestida, aparece vestida, aparece trazida pelas outras mulheres. Lisístrata dirige-se a ela) Traga para aqui primeiro os espartanos, não com severidade e arrogância, como se fazia antes, mas gentilmente, como convém às mulheres. Segure pela parte mais saliente os que não quiserem dar a mão. (a Conciliação traz os espartanos para onde está Lisístrata) Muito bem. Agora traga os atenienses, segurando-os por onde eles preferirem. (a Conciliação traz os atenienses) Espartanos, fiquem aqui perto de mim. Vocês, atenienses, fiquem deste lado. Ouçam todos o que vou dizer. Sou mulher mas tenho cabeça para pensar. Além de ter minhas ideias ouvia as conversas de meu pai e de pessoas mais experimentadas. Por isso sei o que estou dizendo. Agora que vocês estão em minhas mãos quero dizer umas verdades e fazer umas censuras merecidas. Vocês têm de unir-se para não perecerem!
1.º Velho – (olhando a Conciliação com ar de tarado) Já estou convencido só de “ver” os “argumentos” dela!
Lisístrata – Vocês, espartanos, têm sido muito injustos com os atenienses. Parecem até esquecidos de que são todos gregos e muitas vezes foram ajudados e até salvos por eles.
Ministro – Isso mesmo, Lisístrata! Eles são de morte. Vivem atacando nosso litoral.
Embaixador – (à parte e apontando para a Conciliação) Se eu pudesse, atacava agora mesmo as costas dela! Que beleza de “litoral”!...
Lisístrata – E vocês, atenienses, não se julguem melhores que os espartanos. Se vocês pensassem um pouco perceberiam que eles fizeram mais bem do que mal a vocês até hoje!
Embaixador – Nunca vi uma mulher pegar as coisas tão bem!
Ministro – (apontando para a Conciliação) E eu nunca vi uma coisa assim!
Lisístrata – Por que, então, vocês guerreiam? Por que vocês não acabam com essas divergências e se reconciliam de uma vez por todas? Vamos! Qual é a dificuldade?
Embaixador – Se soubéssemos que a Conciliação era assim já estaríamos nos braços dela há muito tempo!
Ministro – Nós também queremos a Conciliação! Primeiro nós!
Lisístrata – Calma! Calma! Ela será de todos! A Conciliação dará tudo que vocês querem quando as negociações de paz forem concluídas. Agora vão consultar todos os outros gregos.
Ministro – Para quê? Quem não vai querer essa Conciliação?
Lisístrata – Então aprontem-se enquanto nós, mulheres, vamos fazer os preparativos lá na cidadela para recebê-los da melhor maneira possível e oferecer a vocês o que temos de mais gostoso. Durante a recepção acertaremos as coisas e trocaremos juramentos de paz. Depois cada um sairá com sua mulher.
Lisístrata torna a entrar na Cidadela.
 Ministro – Oba! Vamos depressa, pessoal!
Embaixador – Não quero nem saber para onde: já estou indo!
Ministro – Corram! (batendo à porta da Cidadela) Mulheres, chegamos! Abram as portas! Abram senão eu toco fogo em vocês! (à parte) Eu ia até esquecendo que não estamos mais brigados! Abram! Se vocês não abrirem nós arrombamos!
Embaixador – Arrombar é conosco! Como é, mulheres? Vamos para casa? Se vocês não forem já, vão ter muito o que chorar! Elas estão saindo!
Abrem-se as portas. As mulheres saem e confraternizam ruidosamente com os homens.
Ministro – Espartanos, agarrem suas mulheres! Atenienses, segurem as suas! Isso! Os maridos perto das mulheres, as mulheres grudadas nos maridos. Depois de festejar esse fim feliz com danças em honra dos deuses, tratemos de evitar no futuro os mesmos erros que nos deixaram por tanto tempo sem... PAZ!





sexta-feira, 7 de junho de 2013

Aristófanes- As Aves

É com os inimigos que os sábios mais aprendem. Cautela e caldos de galinha não fazem mal ao doente. E se não é com os amigos que se aprende esta regra, pelo menos com os inimigos é-se obrigado a tê-la em conta. Também as cidades, não foi com os amigos, foi com os inimigos que aprenderam a construir grandes muralhas e a precaver-se com navios poderosos. Este é um princípio que salva a família, a casa e o património.

Mesmo com um inimigo pode-se aprender alguma coisa que interesse.

Juro, mas com uma condição: que todos, júri e espectadores me dêem a vitória por unanimidade… E se eu faltar à palavra, que vença apenas por um voto.

Velhecaria, sempre e de toda a maneira, é coisa que o homem tem na massa do sangue.

… tenho um discurso já bem levedado e nada me impede de lhe dar a última amassadela.

..uma palavra bombástica, untuosa, que lhes faça o coração em pedaços.

Quer dizer então que as palavras dão mesmo asas?


É pela palavra que o pensamento voa e o homem se eleva.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Ésquilo- As Suplicantes

Uma linguagem altaneira não comove ninguém.

… quando a tua língua diz coisas intempestivas que atingem dolorosamente o coração, uma palavra pode curar o mal que outra palavra causou…

Prefiro parecer ignorante a ser um bom profeta de desditas.

… o povo está sempre disposto a tomar partido pelo mais fraco…

Vela para que a excessiva confiança não seja para nós motivos de temor. Já se tem visto, por ignorância, o amigo matar o amigo.

A boas palavras respondem boas palavras.

O temor é impossível dominar quando excessivo.

Só o tempo prova o que pode valer um grupo de desconhecidos. É que a língua de cada qual está sempre pronta a murmurar acerca do estrangeiro e facilmente o mancha nos seus actos.


A doce fruta madura não é fácil de guardar(…) Afrodite proclama a atração dos corpos repletos de sumo…Qualquer homem que passa junto da virgem de formas delicadas se sente vencido pelo amor e as dardeja com o olhar.

domingo, 2 de junho de 2013

Ésquilo- Os Persas

Dupla e inexprimível inquietude me enche o coração. Tesouros sem súditos que os defendam, de nada valem; e, sem tesouros, dias não há de esplendor sem sequer para o mais forte estado. Nossas riquezas acham-se intactas; mas receio pela alma deste palácio; pois a alma de uma casa é o seu dono.

Ó rainha persa! Um invejoso demónio, um génio fatal foi ao tudo, a causa da perda. Um soldado do exército ateniense fora dizer a teu filho que nem bem as sombras da noite descessem, os gregos, não mais ousando enfrentá-lo, retirando-se em silêncio, procurariam separadamente salvar-se, fugindo. Xerxes  ordenou, pois a seus generais, que apenas o sol deixasse de iluminar a terra com seus raios e as trevas obscurecessem a abóbada celeste, fechassem as passagens e estreitos com três linhas de navios, e cada chefe responderia por sua cabeça: tais as ordens que ele, confiante, dera; não sabia o que lhe reservavam os deuses. Obedientes, as tropas fazem tranquilamente a sua refeição, enquanto os marujos dispõem os remos junto aos barcos. Assim que os raios solares se apagaram abrindo lugar às trevas, todos, remadores e soldados, dirigem-se aos seus postos; e os navios se colocam segundo a ordem recebida. Durante toda a noite, a frota, disposta pelos chefes, guarda cuidadosamente a passagem. Escoa-se o tempo, nenhum dos gregos tenta fugir. Mas apenas a aurora, no seu carro luminoso, seus clarões sobre a terra espalha, ouvem-se tons medulados de festivo toque e um canto de guerra repetido pelo eco dos penhascos. Os persas, ludibriados em sua expectativa, horripilam-se: o hino entoado pelos gregos não era de retirada, porém de estímulo ao combate. O som da trombeta inflamava-lhes a coragem. Ressoa um grito; os rápidos remos cortam simultaneamente a onda salgada, que estremece: em breve, surgem todos à nossa vista. Ouve-se uma vibrante voz: “Filhos dos gregos, ide, salvai nossa pátria, vossas mulheres e filhos, os tempos de vossos deuses e os túmulos de vossos ancestrais; é por todos eles que hoje deveis combater”. Surpreendidos, os persas responderam num murmúrio. Impossível evitar o combate. Já as proas de bronze se chocavam; um navio grego, iniciando a abordagem, despedaça o equipamento de um barco fenício; a seguir, a confusão. Nossa frota aguenta o primeiro encontro; porém, os navios, numerosos demais, compridos no estreito, manobram dificilmente, sem poder socorrer-se; entrechocando-se os esporões de ferro; partem-se os remos. Os gregos, peritos na manobra, atacam-nos por todos os lados, afundando-os; o mar desaparece sob os destroços e os mortos; as praias e os rochedos cobrem-se de cadáveres. Em breve, toda a frota dos persas põe-se, desordenadamente, em fuga. Nossos infelizes marinheiros, como atuns dispersos do cardume, ou peixes despejados da rede, são abatidos a golpes de remos e bancos. Gritos e gemidos ecoam na praia. Finalmente, a noite, nos furta o olhar do vencedor. Não, dez dias inteiros não bastariam a pormenorizar tal perda. Sabe apenas que jamais tantos homens pereceram num dia….A nata dos persas, toda aquela juventude tão distinta pelo nascimento, a coragem e a dedicação do rei, pereceu miseravelmente, sem glória… Há, em frente de Salamina, uma pequena ilha, perigosa para os navios, e frequentada por Pã, o deus amigo das danças. Para lá enviou Xerxes seus jovens guerreiros, a fim de dar morte aos gregos, que, após a derrota ali se refugiassem, e socorrer os persas que o mar, porventura, aí lançasse. Lia mal o futuro; pois, assim que os céus, na batalha naval, deram vitória aos gregos, estes, armados de bronze, desembarcaram na ilha, cercando-a de modo a não permitir a fuga de nenhum dos nossos; a princípio, assaltaram-nos com uma saraivada de pedras e dardos; depois sobre eles caindo, num furioso corpo a corpo, despedaçaram-nos à espada, degolando-os até o último. Xerxes instalado num outeiro, de onde descortinava todo o exército, testemunha dessa hedionda carnificina, dilacera as vestes, lançando pungentes gritos e, dando sinal de retirada às tropas de terra, fugiu precipitadamente. Eis a desgraça que ainda tendes a chorar…
Os capitães dos navios restantes fugiram em desordem à mercê dos ventos. Das tropas de terra, uma parte, devorada pela sede, pereceu na Beócia; os outros, fugindo sem tomar fôlego, atravessaram a Fócida, a Dórida e os países vizinhos do golfo Melíaco, as regiões regadas pelas salutares águas de Sperchius. De lá, desprovidos de víveres, atravessamos primeiro a Acaia e a Tessália, onde a maior parte morreu de fome e sede – pois ambos igualmente nos perseguiam. A seguir, a Magnésia, a Macedónia, onde passamos o Áxio, os pântanos de Bobes, o monte Pangeu e a Hedónia. Aí, permitiram os céus que uma geada extraordinária gelasse, à noite, as águas límpidas do Estrimom. A tão inesperada ventura, até os mais incrédulos, forçados a reconhecer a intervenção dos deuses, se prostrarem diante do céu e da terra. Após longa e fervorosa prece, o exército avançou pelo gelo. As tropas que conseguiram passar antes do amanhecer, foram salvas; mas quando o luminoso e flamejante disco derreteu o gelo, os soldados precipitaram-se no rio. Felizes os que logo se afogaram. Os poucos que conseguiram escapar ao perigo, após percorrerem com grande dificuldade a Trácia, regressaram, em fuga, aos lares paternos. Assim, gemente, a Pérsia, por muito tempo, lamentará a flor de seu império. Essa é a verdade, embora em meu relato haja omitido várias das circunstâncias da catástrofe com que nos trucidaram os deuses.

Ah, céus! Xerxes os perdeu! Ah, deuses! O imprudente Xerxes tudo confiou a frágeis navios!

Desvaneceu-se a força de nossos reis. Não há mais freio para conter os murmúrios, pois a língua dos povos desencadeia-se assim que se parte o jugo que os domava.

Amigos. A experiência nos ensina que o homem bafejado pela sorte, crê que o vento da fortuna soprará eternamente; porém, assaltado pelo vendaval do infortúnio, com tudo se alarma.

O infortúnio é a partilha do homem; enquanto dura a vida, sobre a terra e no mar o experimentamos.

E, embora em meio a desgraças, alegrai-vos na fruição do mundo, pois entre os mortos os bens terrestres nada significam.