quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Thomas More - Utopia


(…) o seu saber e as suas virtudes estão acima dos meus elogios, e sua reputação é tão brilhante que celebrar o seu mérito seria, como diz o provérbio, abrir uma porta aberta.

Sua alma está aberta a todos; mas nutre por seus amigos tanta benevolência, amor, fidelidade e devotamento que poder-se-ia qualificá-lo, muito justamente, como o perfeito modelo da amizade. Modesto e sem fingimentos, simples e prudente, sabe falar com espírito, e seu gracejo não é nunca uma injúria.

Os homens em geral ,só abrem mão de seus bens já velhos e na agonia, e é ainda chorando, que renunciam ao que suas mãos desfalecentes não mais podem reter.

Presentemente sou livre, vivo como quero, e duvido que muitos dos que vestem a púrpura possam dizer o mesmo. Muita gente ambiciona os favores do trono; e sendo assim, os príncipes não sentirão falta, se eu e dois ou três da minha têmpera não nos encontrarmos entre os cortesãos.

É evidente, Rafael, que não procurais riquezas nem poder, e não tenho menos admiração e estima por um homem como vós, do que por aquele que está à frente de um império. Parece-me, entretanto, que seria digno de um espírito tão generoso, tão filósofo, como o vosso, aplicar todos os seus talentos na direção dos negócios públicos, embora houvesse que comprometer o seu bem estar pessoal; ora, a maneira de o fazer com mais proveito, é ainda a de entrar para o conselho de algum grande príncipe; estou certo de que a vossa boca não se abrirá jamais, senão para a virtude e para a verdade.
Vós o sabeis, o príncipe é a fonte de onde o bem e o mal jorram, como uma torrente, sobre o povo; e possuís tanta ciência e tantos talentos que, embora não tivésseis o hábito dos negócios, daríeis, mesmo assim, um excelente ministro para o rei mais ignorante.
- Incidis num duplo erro, caro Morus, replicou Rafael; e não só quanto ao fato em si como quanto à pessoa; estou longe de ter a capacidade que me atribuis; e mesmo que a tivesse cem vezes maior, o sacrifício de meu sossego seria inútil à causa pública. Em primeiro lugar, os príncipes cuidam somente da guerra (arte que me é desconhecida e que não tenho nenhum desejo de conhecer). Eles desprezam as artes benfazejas da paz. Trate-se de conquistar novos reinados, e todos os meios lhes parecem bons; o sagrado e o profano, o crime e o sangue, não os detêm. Em compensação, ocupam-se muito pouco de bem administrar os Estados submetidos à sua dominação.
Quanto aos conselhos dos reis, eis aproximadamente a sua composição: Uns calam-se por inépcia, e teriam até mesmo grande necessidade de ser aconselhados. Outros, são mais dotados, e sabem que o são; mas partilham sempre do parecer dos anteriores, que está em melhores graças, e aplaudem, com entusiasmo, as pobres imbecilidades que estes têm por bem propinar; vis parasitas só têm uma finalidade: ganhar, por uma baixa e criminosa lisonja, a proteção do favorito do Rei. Há ainda, os escravos de seu amor-próprio que escutam apenas a própria opinião, o que não é de admirar, pois a natureza  leva a cada homem a afagar com amor aquilo mesmo que cria. É assim que o corvo sorri à sua ninhada, e o macaco aos seus filhotes. Que sucede então no seio desses conselhos onde reinam a inveja, a vaidade e o interesse? Se alguém entende apoiar uma opinião razoável na história dos tempos passados, ou nos costumes dos outros países, logo outros conselheiros se mostram surpresos e atónitos; e com o amor próprio alarmado como se fossem perder a reputação de sábios e passar por imbecis. Eles quebram a cabeça até encontrar um argumento contraditório, e, se a memória e a lógica lhes minguam, entrincheiram-se neste lugar comum: Nossos pais assim pensaram e assim fizeram; ah! queira Deus que igualemos a sabedoria de nossos pais! Depois assentam-se, pavoneando-se, como se acabassem de pronunciar um oráculo. Dir-se-ia, ao ouvi-los, que a sociedade vai perecer se surgir um homem mais sábio que os seus antepassados. Enquanto isso, permaneçamos indiferentes, deixando subsistir as boas instituições que eles nos legaram; e quando surge um melhoramento novo agarramo-nos à antiguidade para não acompanhar o progresso. Vi, em quase toda a parte, desses julgadores rabugentos, covardes, insensatos ou presunçosos.

 A morte neste caso é uma pena injusta e inútil; é bastante cruel para punir o roubo, mas bastante fraca para impedi-lo. O simples roubo não merece a forca, e o mais horrível suplício não impedirá de roubar o que não dispõe de outro meio para não morrer de fome. Nisto, a justiça de Inglaterra e de muitos outros países se assemelha aos maus professores que espancam os alunos em lugar de instruí-los. Fazeis sofrer aos ladrões pavorosos tormentos; não seria melhor garantir a existência a todos os membros da sociedade, a fim de que ninguém se visse na necessidade imperiosa de roubar primeiro, e de morrer, depois?
- A sociedade previu o fenómeno, replicou o meu legista; a indústria, a agricultura oferecem ao povo inúmeros meios de existência; existem, porém, seres que preferem o crime ao trabalho.
 - Era aí mesmo onde eu vos esperava. Não falarei dos que voltam das guerras civis ou estrangeiras com o corpo mutilado. Quantos soldados, entretanto, na batalha de Cornualha, ou na campanha de França, perderam um ou vários membros a serviço do rei e da pátria! Esses infelizes tornaram-se fracos demais para exercer o seu antigo ofício e velhos demais para aprender um novo. Mas deixemos isso, as guerras só se reacendem a longos intervalos. Olhemos o que se passa cada dia ao redor de nós. A principal causa da miséria pública reside no número excessivo de nobres, zangões ociosos, que se nutrem do suor e do trabalho de outrem e que, para aumentar seus rendimentos, mandam cultivar suas terras, escorchando os rendeiros até à carne viva. Não conhecem outra forma de economia. Mas, tratando-se de comprar um prazer, são pródigos, até à loucura. E não menos funesto é o fato de arrastarem consigo uma turba de lacaios e mandriões sem estado e incapazes de ganhar a vida. Caiam doentes esses lacaios, ou venha o seu patrão a morrer, e são jogados no olho da rua; porque é preferível “nutri-los” para não fazer nada, do que alimentá-los enfermos; muitas vezes o herdeiro do senhor não está em condições de manter toda a criadagem do pai.
Ei-los então expostos a morrer de fome se acaso não têm coragem de roubar. Terão eles, na realidade, outras possibilidades? Gastam a saúde e a vida sempre na espera da melhoria; e quando se tornam descorados pelas moléstias e cobertos de farrapos, os nobres têm-lhes horror, desprezando os seus serviços. Nem os camponeses os querem empregar. Os camponeses sabem que um homem que vive molemente na ociosidade e nos prazeres, habituado a trazer a espada e o escudo, a olhar superiormente os vizinhos e a desprezar todo mundo, um tal homem não é apto a manejar a pá e a enxada, a trabalhar, fielmente, por um salário insignificante e uma parca alimentação, ao serviço de um pobre lavrador.
- É precisamente essa espécie de gente que o Estado deve manter e multiplicar com mais cuidado. Há neles mais ânimo e nobreza da alma que no artesão e no lavrador. São maiores e mais robustos e constituem, portanto, a força do exército na hora de combater.
- Seria o mesmo que dizer, que se deve, para a glória e o êxito dos vossos exércitos, multiplicar os ladrões. Porque esses mandriões são uma sementeira inesgotável para o exército. Com efeito, os ladrões não são os piores soldados, como os soldados não são os mais tímidos ladrões; há muita analogia entre esses dois ofícios. Infelizmente, esta praga social não é particular à Inglaterra; corrói quase todas as nações.

Voltemos aos nossos soldados lacaios (escudeiros soldados). Têm eles, dizeis, mais coragem e grandeza da alma do que os artesãos e os trabalhadores. Eu, de mim, não creio que um lacaio faça muito medo nem a uns nem a outros, a não ser àqueles em que a fraqueza do corpo paralisa o vigor da alma e cuja energia foi aniquilada pela miséria. Os lacaios, dizeis ainda, são maiores e mais robustos. Mas não é uma lástima ver homens fortes e belos (porque os nobres escolhem as vítimas de sua corrupção) consumirem-se na inação, amolecerem-se em ocupações de mulheres, quando fácil seria torná-los laboriosos e úteis, dando-lhes um ofício honrado e habituando-os a viver do trabalho de suas mãos.
De qualquer maneira que se encare a questão, esta massa imensa de gente ociosa parece-me inútil ao país, mesmo na hipótese de uma guerra, que poderíeis, aliás, evitar todas as vezes que o quisésseis. Ela é, além do mais, o flagelo da paz; e a paz merece que se trate dela, tanto quanto da guerra.

Os inumeráveis rebanhos de carneiros (…) Eles subtraem vastos tratos de terra à agricultura e os convertem em pastagens; abatem as casas, as aldeias, deixando apenas o templo para servir de estábulo para os carneiros. Transformam em desertos os lugares mais povoados e mais cultivados. Temem, sem dúvida, que não haja bastantes parques e bosques e que o solo venha a faltar para os animais selvagens.

Colocai um freio ao avarento egoísmo dos ricos; tirai-lhes o direito do açambarcamento e monopólio. Que não haja mais ociosos entre vós. (…)Se não remediardes os males que vos assinalo, não vos vanglorieis de vossa justiça; é ela uma mentira feroz e estúpida.

Abandonais milhões de crianças aos estragos de uma educação viciosa e imoral. A corrupção faz murchar, à vossa vista, essas jovens plantas que poderiam florescer para a virtude, e, vós as matais, quando, tornadas homens, cometem os crimes que germinavam desde o berço em suas almas. E, no entanto, o  que é que fabricais? Ladrões, para terdes o prazer de os enforcar depois.

Minha convicção íntima, é que é injusto matar-se um homem por ter tirado dinheiro de outrem, desde que a sociedade humana não pode ser organizada de modo a garantir para cada um uma igual porção de bens.

Deus proibiu o assassínio e nós, nós matamos tão facilmente por causa do furto de algumas moedas!

A própria lei de Moisés, lei de terror e vingança, feita para escravos e homens embrutecidos, não punia de morte o simples roubo. Evitemos pensar que, sob a lei cristã, lei de perdão e caridade, em que Deus ordena como pai, nós temos o direito de ser mais desumanos, e de derramar, sob qualquer pretexto, o sangue de nosso irmão.

O celerado vê que não há menos a temer furtando do que assassinando; então, ele mata aquele a quem apenas despojara; e mata-o para a sua própria segurança. Assim agindo, ele se descarta do seu principal denunciador, e tem maior probabilidade de esconder o crime. Eis o belo efeito desta justiça implacável: aterrorizando o ladrão com a expectativa da forca, fez dele um assassino!

Platão disse: A humanidade será feliz um dia, quando os filósofos forem reis, ou quando os reis forem filósofos.

Os Filósofos não são bastante egoístas para esconder a verdade; muitos a têm revelado em seus escritos; e se os senhores do mundo estivessem preparados para receber a luz, poderiam ver e compreender. Infelizmente cega-os uma venda fatal, a venda dos preconceitos e dos falsos princípios, em que se formaram e dos quais foram infectados desde a infância. Platão não ignorava isso; sabia, como nós, que os reis nunca seguiam os conselhos dos filósofos, a menos que eles próprios o fossem.

Suponhamos pois que eu seja ministro de um rei. Proponho-lhe os decretos mais salutares; esforço-me por arrancar de seu coração e de seu império todos os germes do mal. Acreditais que não me expulsará da corte ou que não me exporá ao riso dos cortesãos?
(…) se, dirigindo-me ao próprio monarca, o fizesse ver que essa paixão de guerrear, que transtorna as nações, depois de ter esgotado as finanças e arruinado o povo, poderia ocasionar à França as consequências mais fatais; se lhe dissesse: Senhor, aproveitai a paz que um feliz acaso vos concede, cultivai o reino de vossos pais, fazei nele florescer a felicidade, a riqueza e a força; amai vossos súditos, e que o amor deles faça a vossa alegria; vivei como pai no meio deles e não comandeis nunca como déspota; deixai em paz os outros reinos; aquele que vos coube por herança é suficientemente grande para vós. Dizei-me, caro Morus, com que espécie de bom ou mau humor seria acolhida semelhante arenga?
- Com péssimo mau humor, respondi.
- E não é tudo, continuou Rafael; passamos em revista a política exterior dos ministros…; a glória era então o de que necessitava o seu senhor ; agora é o dinheiro. Vejamos um instante os seus novos princípios de governo e justiça. Este, propõe elevar o valor da moeda quando se trate de reembolsar um empréstimo, e de fazê-lo descer muito abaixo do par quando se trate de tornar a encher o tesouro. Com esse duplo expediente, o príncipe poderá cobrir suas enormes dívidas, e, sem trabalho, fazer uma grande colheita em recursos.
Aquele, aconselha simular uma guerra próxima. Este pretexto legitimará um novo imposto. Depois da arrecadação do tributo extraordinário, o príncipe fará subitamente a paz; ordenará a celebração desse feliz acontecimento por meio de ações de graça nos templos e de todas as pompas das cerimónias religiosas. A. nação ficará deslumbrada, e o reconhecimento público elevará até aos céus as virtudes de um rei tão humanamente avaro do sangue de seus súbditos.
Um outro vem, e desenterra velhas leis carcomidas pelas traças e caídas em desuso pelo tempo. Como todos ignoram a sua existência, todos as transgridem. Restaurando, assim, as multas pecuniárias contidas nessas leis, criar-se-ia uma fonte de renda lucrativa e até honrada, pois que se agiria em nome da justiça.
Um terceiro pensa que não seria de menos proveito lançar, sob pena de pesadas multas, uma, multidão de novas proibições, a maioria delas em benefício do povo. O rei, mediante soma considerável, isentaria aqueles cujos interesses privados fossem comprometidos por estas proibições. Dessa maneira o rei ver-se-ia cumulado das bênçãos do povo e faria dupla receita, recebendo, ao mesmo tempo, dinheiro dos transgressores e dos privilegiados. O melhor do negócio é que quanto mais exorbitante fosse o preço das isenções tanto mais Sua Majestade ganharia em estima e consideração. Vejam, diriam, como este bom príncipe violenta seu coração ao vender tão caro o direito de prejudicar o povo.
Outro ainda, enfim, aconselha ao monarca ter à disposição juízes sempre dispostos a sustentar, em todas as ocasiões, os direitos da coroa. Vossa Majestade, acrescenta ele, deveria chamá-los à corte, e persuadi-los a discutir, perante a vossa augusta pessoa, os próprios negócios reais. Por pior que seja uma causa, haverá sempre um juiz para julgá-la boa, seja pela mania da contradição, seja por amor da novidade e do paradoxo, seja para agradar ao soberano. Então, uma discussão se trava; a multiplicidade e o conflito de opiniões embrulham uma coisa de si mesma muito clara, e a verdade é posta em dúvida. Vossa Majestade aproveita o momento para resolver a dificuldade, interpretando o direito em proveito próprio. Os dissidentes se submetem à opinião real por timidez ou por temor, e o julgamento é dado, segundo as formalidades, com franqueza e sem escrúpulo. Faltarão acaso “considerandos” ao juiz que se pronuncia a favor do príncipe? Não terá ele o texto da lei, a liberdade de interpretação, e, acima das leis, para um juiz religioso e fiel, a prerrogativa real?

Ouvi os axiomas de moral política proclamados unanimemente pelos membros do nobre conselho:
 Para o rei que mantém um exército nunca há dinheiro bastante.
 O rei nunca pode proceder mal mesmo que o quisesse.
O rei é o proprietário universal e absoluto dos bens e pessoas de todos os seus súditos; nada possuem senão como usufrutuários pelas boas graças do rei.
 A pobreza do povo é o baluarte da monarquia.
A riqueza e a liberdade conduzem à insubordinação e ao desprezo da autoridade; o homem   livre e rico suporta com impaciência um governo injusto e despótico.
A indigência e a miséria degradam a coragem, embrutecem as almas, habituam-nas ao sofrimento e à escravidão, comprimindo-as a ponto de lhes tirar a energia necessária para sacudir o jugo.
 A esses poderosos senhores respondo: Vossos conselhos são infames, vergonhosos para o rei, funestos para o povo. A honra de vosso senhor e a sua felicidade consistem na riqueza de seus súbditos mais ainda do que na sua própria. Os homens fizeram os reis para os homens e não para os reis; colocaram chefes à sua frente para que pudessem viver comodamente ao abrigo das violências e dos ultrajes; o dever mais sagrado do príncipe é velar pela felicidade do povo antes de velar pela sua própria; como um pastor fiel, deve dedicar-se a seu rebanho, e conduzi-lo às pastagens mais férteis.
Sustentar que a miséria pública é a melhor salvaguarda da monarquia, é sustentar um erro grosseiro e evidente; onde se vêm mais querelas e rixas do que entre os mendigos?
 Qual é o homem que mais deseja uma revolução? Não será aquele cuja existência actual é miserável? Qual é o homem que revelará maior audácia em subverter o Estado? Não será aquele que com isso só pode ganhar por nada ter a perder?
 Um rei que provocasse o ódio e o desprezo dos cidadãos e cujo governo não pudesse se manter senão pelas vexações, pela pilhagem, pelo confisco e pela miséria universal, deveria descer do trono e depor o poder supremo. Empregando estes meios tirânicos, talvez pudesse conservar o nome de rei, mas perderá o prestígio e a majestade. A dignidade real não consiste em reinar sobre mendigos, mas sobre homens livres e felizes.(…)nadar em delícias, saciar-se de voluptuosidades em meio às dores e gemidos de um povo, não é conservar um reino, é manter uma prisão.
O médico que apenas sabe curar as doenças de seus clientes comunicando-lhes outras mais graves, passa por ignaro e imbecil; confessai, portanto, vós que sabeis governar tirando aos cidadãos a subsistência e as comodidades da vida que sois indignos e incapazes de governar homens livres! Ou então corrigi vossa ignorância, vosso orgulho e vossa preguiça: é isso o que excita o ódio e o desprezo pelo soberano. Vivei em conformidade com a justiça; medi vossas despesas na proporção de vossos proventos; detei as torrentes do vício; criai instituições de benemerência, que previnam o mal e o estiolem no germe, ao em vez de inventar suplícios contra os infelizes que uma legislação absurda e bárbara impele ao crime e à morte.
Não ressusciteis leis carunchosas caídas no olvido e no esquecimento, lançando sobre os vossos súbditos toda a sorte de obstáculos e de erro. Não eleveis o preço de um delito a uma taxa que o juiz condenaria, como injusta e vergonhosa, entre simples particulares.

Os ministros e os políticos de hoje, estão impregnados de erros e preconceitos; como quereis bruscamente modificar suas crenças e fazer penetrar, de chofre, em suas cabeças e em seu coração, a verdade e a justiça?

Um bom actor põe todo seu talento no papel que vai representar, qualquer que ele seja; e não perturba o conjunto, porque lhe ocorre à fantasia declamar uma tirada magnífica e pomposa.

Se não se pode desarraigar de uma só vez as máximas perversas, nem abolir os costumes imorais, não é isto razão para se abandonar a causa pública. O piloto não abandona o navio diante da tempestade porque não pode domar o vento.

Falais a homens imbuídos de princípios contrários aos vossos; que caso poderão fazer de vossas palavras, se lhes atirais à face a contradita e o desmentido? Segui o caminho oblíquo - ele vos conduzirá mais seguramente à meta. Aprendei a dizer a verdade com propriedade e a propósito; e, se vossos esforços não puderem servir para efetuar o bem, que sirvam ao menos para diminuir a intensidade do mal; porque tudo só será bom e perfeito, quando os próprios homens forem bons e perfeitos; e até lá, os séculos passarão.

Sei que minha linguagem parecerá dura e severa aos conselheiros do rei; apesar disso, não vejo por que sua novidade seja de tal modo estranha que toque o absurdo.

Há covardia ou má fé em calar as verdades que condenam a perversidade humana, sob o pretexto de que serão escarnecidas como novidades absurdas ou quimeras impraticáveis. De outra forma, seria necessário deitar um véu sobre o Evangelho e dissimular aos cristãos a doutrina de Jesus. Mas Jesus proibia a seus apóstolos o silêncio e o mistério; repetia-lhes sempre: O que vos digo em voz baixa e ao ouvido, pregai pôr toda parte, em voz alta e às claras. Ora, a moral de Cristo está muito mais em contradição aos costumes deste mundo, do que os nossos discursos.

Não há, pois, nenhuma maneira de ser útil ao Estado nessas altas regiões. O ar que aí se respira corrompe a própria virtude. Os homens que vos cercam, longe de corrigirem-se com os vossos ensinamentos, depravam-vos com seu contacto e pela influência de sua perversão; e se conservais vossa alma pura e incorruptível, servireis de manto às suas imoralidades e loucuras. Não há, pois, esperança de transformar o mal em bem…

Em toda a parte onde a propriedade for um direito individual, onde todas as coisas se medirem pelo dinheiro, não se poderá jamais organizar nem a justiça nem a prosperidade social, a menos que chameis  justa a sociedade na qual o que há de melhor é pertença dos piores, e que considereis perfeitamente feliz o Estado no qual a fortuna pública é a presa de um punhado de indivíduos insaciáveis de prazeres, enquanto a massa é devorada pela miséria.

Na Utopia, as leis são pouco numerosas; a administração distribui indistintamente seus benefícios por todas as classes de cidadãos. O mérito é ali recompensado; e, ao mesmo tempo, a riqueza nacional é tão igualmente repartida que cada um goza abundantemente de todas as comodidades da vida.

A igualdade é impossível num Estado em que a posse é particular e absoluta; porque cada um se apoia em diversos títulos e direitos para atrair para si tudo quanto possa, e a riqueza nacional, por maior que seja, acaba por cair na posse de um reduzido número de indivíduos que deixam aos outros apenas indigência e miséria.

Eis o que invencivelmente me persuade que o único meio de distribuir os bens com igualdade e justiça, e de fazer a felicidade do género humano, é a abolição da propriedade. Enquanto o direito de propriedade for o fundamento do edifício social, a esse mais numerosa e mais estimável não terá por quinhão senão miséria, tormentos e desesperos.

Sei que existem remédios que podem aliviar o mal; mas estes remédios são impotentes para curá-lo. Por exemplo:
Decretar um máximo de posse individual em terras e dinheiro
Precaver-se por meio de severas leis contra, o despotismo e a anarquia.
Denunciar e castigar a ambição e a intriga. Não traficar as magistraturas.
Suprimir o fausto e a representação nos altos cargos, a fim de que o funcionário, para sustentar sua posição, não se entregue à fraude e à rapina; ou, a fim de que não seja obrigado a dar aos mais ricos os cargos que deveriam caber aos mais capazes.
Estes meios, repito-o, são excelentes paliativos que podem adormecer a dor e aliviar as chagas do corpo social; mas não espereis com isto devolver-lhe a força e a saúde, enquanto cada um possuir solitariamente e absolutamente seus bens; podeis cauterizar uma úlcera, mas inflamareis todas as outras; curareis um doente, e matareis um homem são; porque o que acrescentais ao haver de um indivíduo tirais ao de seu vizinho.

Disse eu, então, a Rafael: Longe de compartilhar vossas convicções, penso, ao contrário, que o país em que se estabelecesse a comunidade de bens seria o mais miserável de todos os países. Com efeito, como produzir para as necessidades de consumo? Toda a gente fugiria do trabalho e descansaria dos cuidados com sua existência sobre o trabalho dos outros. E, mesmo que a miséria acicatasse os preguiçosos, como a lei não mantém  de maneira inviolável,  e contra todos, a propriedade de cada um, a rebelião rugiria, sem cessar, esfomeada e ameaçadora, e a matança ensanguentaria a vossa república.
Que barreira oporíeis à anarquia? Vossos magistrados têm apenas uma autoridade nominal; estão despidos, despojados de tudo que impõe o temor e o respeito. Não chego nem mesmo a conceber a possibilidade de governo nesse povo de niveladores que repele toda espécie de superioridade.

Eis o que dá aos utopianos a superioridade do bem-estar material e social, embora os igualemos em inteligência e riqueza, é a actividade do espírito dirigida incessantemente para a pesquisa, o aperfeiçoamento e a aplicação, das coisas úteis.


Entre os regulamentos do senado, o seguinte merece ser assinalado. Quando uma proposta é feita, é proibido discuti-la no mesmo dia; a discussão é transferida para a sessão seguinte. Desta maneira ninguém fica exposto a desembuchar levianamente as primeiras coisas que lhe passem pela cabeça, e a defender, em seguida, a sua opinião antes do que o bem geral; pois não é frequente acontecer que se recue diante da vergonha de uma retratação e do reconhecimento de um erro irreflectido? Então, sacrifica-se o bem público para salvar a reputação. Este perigo funesto da precipitação foi previsto, e aos senadores é dado o tempo suficiente para reflectir.

Não se deve crer que os utopianos se atrelem ao trabalho como bestas de carga desde a madrugada até à noite. Esta vida embrutecedora para o espírito e para o corpo, seria pior que a tortura e a escravidão. E no entretanto, tal é, em outra qualquer parte, a triste sorte do operário!

Porque, neste século de dinheiro, onde o dinheiro é o deus e a medida universal, grande é o número das artes frívolas e vãs que se exercem unicamente a serviço do luxo e do desregramento.

O fim das instituições sociais na Utopia é de prover antes de tudo as necessidades do consumo público e individual; e deixar a cada um o maior tempo possível para libertar-se da servidão do corpo, cultivar livremente o espírito, desenvolvendo suas faculdades intelectuais pelo estudo das ciências e das letras. É neste desenvolvimento completo que eles põem a verdadeira felicidade.

Segundo os seus princípios, a guerra mais justa é aquela que se faz a um povo que possui imensos territórios incultos e que os conserva desertos e estéreis, notadamente quando este mesmo povo interdiz a sua posse e o seu uso aos que vêm para cultivá-los e deles se nutrir, conforme a lei imprescritível da natureza.

O que torna, em geral, os animais cúpidos e rapaces, é o temor das privações no futuro. No homem em particular, existe uma outra causa de avareza - o orgulho, que o excita a ultrapassar em opulência os seus iguais e a deslumbrá-los pelo aparato de um luxo supérfluo.

(…)Estas riquezas são destinadas a engajar e a pagar copiosamente as tropas estrangeiras; porque o governo da Utopia prefere expor à morte os estrangeiros que os seus cidadãos. Ele sabe também que o inimigo mais encarniçado se vende algumas vezes, se o preço da venda está à altura de sua cobiça; sabe que, em geral, o dinheiro é o nervo da guerra, quer para comprar traições, quer para combater abertamente.

Quanto mais os costumes estrangeiros são opostos aos nossos, menos estamos dispostos a acreditar neles.

O ouro e a prata não têm, nesse país, mais valor do que lhes deu a natureza. Esses dois metais são ali considerados bem abaixo do ferro, o qual é tão necessário ao homem quanto a água e o fogo. Com efeito, o ouro e a prata não têm nenhuma virtude, nenhum uso, nenhuma propriedade cuja privação acarrete um inconveniente natural e verdadeiro. Foi a loucura humana que pôs tanto valor em sua raridade. A natureza, esta excelente mãe, escondeu-os em grandes profundidades, como produtos inúteis e vãos, enquanto que expõe a descoberto a água, o ar, a terra, e tudo o que há de bom e realmente útil.     (só já, no séc XX ,se descobriu algumas outras utilidades importantes para o Au e Ag)

Os utopianos não escondem seus tesouros nas torres, ou em outros lugares fortificados e inacessíveis. Com o ouro e a prata não se fabricam nem vasos, nem obras artisticamente trabalhadas. Porque, se houvesse necessidade de um dia fundi-los, para pagar o exército em caso de guerra, os que tivessem posto sua afeição e suas delícias nesses objetos de arte e de luxo, sentiriam, ao perdê-los, uma dor amarga. A fim de prevenir esses inconvenientes, os utopianos imaginaram um uso perfeitamente em harmonia com o restante de suas instituições, mas em completo desacordo com as do nosso continente, onde o ouro é adorado como um Deus, procurado como o bem supremo; o ouro e a prata são destinados aos usos mais vis, tanto nas residências comuns, como nas casas particulares; são feitos com eles até os vasos nocturnos  Forjam-se cadeias e correntes para os escravos, e marcas de opróbrio para os condenados que cometeram crimes infames. Estes últimos levam anéis de ouro nos dedos e nas orelhas, um colar de ouro no pescoço, um freio de ouro na cabeça. Assim, tudo concorre para manter o ouro e a prata na ignomínia. Entre outros povos a perda da fortuna é um sofrimento tão cruel como um dilaceramento de entranhas; mas quando se arrancasse à nação utopiana todas suas imensas riquezas ninguém pareceria ter perdido um cêntimo.
Os utopianos recolhem pérolas na sua costa, diamantes e pedras preciosas em certos rochedos. Sem ir à cata desses objectos raros, eles gostam de polir os que a sorte os presenteia, a fim de adornar os seus filhinhos, que ficam todo orgulhosos de trazer esses ornamentos. Mas, à medida que crescem, percebem logo que estas frivolidades não convêm senão às crianças pequenas. Então, não esperam pela observação dos pais; espontaneamente e por amor próprio livram-se desses enfeites. É como entre nós, quando as crianças que vão crescendo, abandonam as bolas e as bonecas.

Os utopianos admiram-se de que seres razoáveis possam se deleitar com a luz incerta e duvidosa de uma pedra ou de uma pérola, quando têm os astros e o sol com que encher os olhos. Encaram como louco aquele que se acredita mais nobre e mais estimável só porque está coberto de uma lã mais fina, lã tirada das costas de um carneiro, e que foi usada primeiro por este animal. Admiram-se que o ouro, inútil por sua própria natureza, tenha adquirido um valor fictício tão considerável que seja muito mais estimado do que o homem; ainda que somente o homem lhe tenha dado este valor e dele se utilize, conforme seus caprichos.

Espantam-se também que um rico, de inteligência de chumbo, estúpido como uma acha de lenha, tão tolo quanto imoral, mantenha em sua dependência uma multidão de homens sábios e virtuosos, apenas porque a sorte lhe deixou algumas pilhas de escudos.
Há uma outra loucura que os utopianos detestam ainda mais, e que dificilmente concebem, é a loucura dos que rendem homenagens quase divinas a um homem porque é rico, sem serem, entretanto, nem seus devedores nem seus súbditos.

Em filosofia moral, agitam as mesmas questões que os nossos doutores. Procuram na alma do homem, no seu corpo e nos objectos exteriores, o que pode contribuir para sua felicidade; perguntam, procuram saber se o nome de Bem convém indiferentemente a todos os elementos da felicidade material e intelectual, ou só ao desenvolvimento das faculdades do espírito. Dissertam sobre a virtude e o prazer; mas a primeira e principal de suas controvérsias tem por fito determinar a condição única, ou as diversas condições da felicidade do homem.


Eis aqui seu catecismo religioso: A alma é imortal: Deus que é bom, criou-a para ser feliz. Depois da morte, as recompensas coroam a virtude, o crime, castigo. Embora esses dogmas pertençam à religião, os utopianos pensam que a razão pode induzir a crer neles e aceitá-los.
Não hesitam em declarar que, na ausência desses princípios, fora preciso ser estúpido para não procurar o prazer por todos os meios possíveis, criminosos ou legítimos. A virtude consistiria, então, em escolher, entre duas volúpias, a mais deliciosa, a mais picante; e em fugir dos prazeres a que se seguissem dores mais vivas do que o gozo que tivessem proporcionado.
Mas praticar virtudes severas e difíceis, renunciar aos prazeres da vida, sofrer voluntariamente a dor e nada esperar depois da morte em recompensa às mortificações da terra, é, aos olhos dos nossos insulares, o cúmulo da loucura.
A felicidade, dizem, não está em toda espécie de voluptuosidade; está unicamente nos prazeres bons e honestos. É para esses prazeres que tudo, até a própria virtude, arrasta irresistivelmente a nossa natureza; são eles que constituem a felicidade.
Os utopianos definem a virtude: viver segundo a natureza. Deus, ao criar o homem, não lhe deu outro destino. O homem que segue o impulso da natureza, é aquele que obedece à voz da razão, em seus ódios e seus apetites.
Ora, a razão inspira, em primeiro lugar, a todos os mortais o amor e a adoração da majestade divina, à qual nós devemos o ser e o bem estar. Em segundo lugar, ela nos ensina e nos instiga a viver alegremente e sem lamentações, e a proporcionar aos nossos semelhantes, que são nossos irmãos, os mesmos benefícios.
De facto, o mais enfadonho e o mais fanático zelador da virtude, o inimigo mais odiento do prazer, ao vos propor imitar seus trabalhos, suas vigílias e mortificações, ordena-vos, também, que consoleis, com todas as vossas forças, a miséria e as aflições dos outros.
Esse moralista severo enche de elogios, em nome da humanidade, o homem que consola e que salva o homem; e crê, assim, que a virtude mais nobre e mais humana, em qualquer terreno, consiste em suavizar os sofrimentos do próximo, arrancá-lo ao desespero e à tristeza, restituir-lhe as alegrias da vida, ou, em outros termos, fazê-lo ter parte também na volúpia.
 E por que a natureza não induziria cada um de nós a se fazer, a si mesmo, o mesmo bem que aos outros? Pois, das duas uma: ou uma existência agradável, isto é, a volúpia, é um bem ou um mal. Se é um mal, não somente não se deve ajudar seus semelhantes a fruí-la, mas ainda deve-se arrancá-la como coisa perigosa e condenável. Se é um bem, pode-se e deve-se procurá-la para si próprio como para os outros. Por que iríamos ter menos compaixão de nós do que dos outros? A natureza, que inspira em nós a caridade por nossos irmãos, não ordena que sejamos cruéis com nós próprios.
Eis o que leva os utopianos a afirmarem que uma vida honestamente agradável quer dizer que o prazer é o fim de todas as nossas ações; que tal é a vontade da natureza e que obedecer a esta vontade é ser virtuoso. A natureza, dizem eles, convida todos os homens a se ajudarem mutuamente e a partilharem em comum do alegre festim da vida. Este preceito é justo e razoável, pois não há indivíduo tão altamente colocado acima do género humano que somente a Providência deva cuidar dele. A natureza deu a mesma forma a todos; aqueceu-os todos com o mesmo calor, envolve todos com o mesmo amor; o que ela reprova, é aumentar o próprio bem-estar agravando a infelicidade alheia.
É por isto que os utopianos pensam que é necessário observar não só as convenções privadas entre simples cidadãos, mas ainda as leis públicas, que regulam a distribuição das comodidades da vida, em outros termos, que distribuem a matéria do prazer, quando estas leis foram justamente promulgadas por um bom príncipe, ou sancionadas pelo consentimento geral de um povo, nem oprimido pela tirania, nem vítima do artifício.
 A sabedoria reside em procurar a felicidade sem violar as leis. A religião é trabalhar pelo bem geral. Calcar aos pés a felicidade de outrem, em busca da sua, é uma ação injusta.
Ao contrário, privar-se de algum prazer, para comunicá-lo a outrem, é indício de um coração nobre e humano, e que, aliás, acaba por encontrar alguma coisa mais do que o prazer que sacrificou. Primeiro que tudo, esta boa ação é recompensada pela reciprocidade dos serviços; em seguida, o testemunho da consciência, a lembrança e o reconhecimento dos que foram obsequiados causam à alma uma delícia maior que não poderia ter dado ao corpo o objeto de que se foi privado. Finalmente, o homem que tem fé nas verdades religiosas, deve estar firmemente persuadido de que Deus recompensa a privação voluntária de um prazer efémero e passageiro, com alegrias inefáveis e eternas.
 Assim, em última análise, os utopianos reduzem todas as ações e mesmo todas as virtudes ao prazer, como finalidade.
Eles chamam volúpia a todo o estado ou a todo o movimento da alma e do corpo, nos quais o homem experimenta uma deleitação natural. Não é sem razão que eles acrescentam a palavra natural, porque não é apenas a sensualidade, é também a razão que nos atrai para as coisas naturalmente deleitáveis; e por isto devemos compreender os bens que se podem procurar sem injustiça, os gozos que não privem de um prazer mais vivo, e que não arrastem consigo nenhum mal.

Há coisas fora da natureza, que os homens, por uma convenção absurda, intitulam prazeres (como se tivessem o poder de transformar a essência tão facilmente como modificam as palavras). Essas coisas, longe de contribuir para a felicidade, são outros tantos obstáculos em seu caminho; aos que seduzem, elas impedem gozarem satisfações puras e verdadeiras; viciam o espírito, preocupando-o com a ideia de um prazer imaginário. Há, com efeito, uma quantidade de coisas, às quais a natureza não juntou nenhuma doçura, as quais ela chegou até a misturar de amargura e que, no entanto, os homens olham como altas volúpias de algum modo necessárias à vida, apesar de, na sua maioria, serem essencialmente más e só estimular as paixões perversas.
Os utopianos classificam essa espécie de prazeres bastardos, a vaidade daqueles, que se crêem melhores porque usam uma roupa mais bonita. A vaidade desses tolos é duplamente ridícula.
Em primeiro lugar, consideram suas roupas acima de suas pessoas; pois, quanto ao que é de uso, em que, vos pergunto, uma lã mais fina prevalece sobre uma lã mais grossa? Entretanto, os insensatos, como se se distinguissem da multidão pela excelência de sua natureza, e não pela loucura de seu comportamento, erguem orgulhosamente a cabeça, imaginando valer um grande preço. Exigem, em virtude da rica elegância de suas vestes, honras que não ousariam esperar com um traje simples e comum; mostram-se indignados quando se olha a sua roupa com um olhar de indiferença.
Em segundo lugar, esses mesmos homens não são menos estúpidos por se alimentarem de honras sem realidade e sem proveitos. É natural e verdadeiro o prazer que se sente em frente de um adulador que tira o chapéu e dobra humildemente o joelho? Uma genuflexão cura alguém da febre ou da gota?

Entre aqueles que ainda seduz uma falsa imagem do prazer, estão os nobres que se comprazem com orgulho e amor no pensamento de sua nobreza. E de que se gabam? Do acaso que os fez nascer em uma longa série de ricos antepassados, e, sobretudo, de ricos proprietários (porque a nobreza de hoje é a riqueza). Todavia, se esses insensatos nada tivessem herdado de seus pais, ou tivessem devorado todo seu património, ainda assim não se sentiriam, por isso, diminuídos na sua nobreza de um só cabelo.

Os utopianos classificam os amadores de pedrarias na categoria dos maníacos de nobreza. Os homens que têm essa paixão, julgam-se uns pequenos deuses, quando encontram uma pedra bela e rara, particularmente apreciada na sua época e no seu país, pois a mesma pedra não conserva sempre e por toda a parte o mesmo valor. O amador de pedras compra-as nuas e sem ouro; leva mesmo a precaução ao ponto de exigir do vendedor uma caução e até o juramento que o diamante, o rubi, o topázio são de bom quilate, de tal modo teme que um falso brilhante impressione os seus olhos! Que prazer há, pois, em olhar uma pedra natural de preferência a uma artificial, desde que o olho não apreende a diferença? Tanto uma como outra não têm realmente mais valor para um que enxerga do que para um cego.

Que dizer dos avarentos que acumulam dinheiro e mais dinheiro, não para seu uso, mas para se consumir na contemplação de uma enorme quantidade de metal? O prazer desses ricos miseráveis não é pura quimera? E será mais feliz aquele que, por uma extravagância mais estúpida ainda, enterra os seus escudos? Este último nem ao menos vê o seu tesouro, e o medo de perdê-lo faz com que o perca de facto. Mas enterrar ouro não é o mesmo que roubar a si próprio e aos outros? No entanto, o avarento sente-se tranquilo, salta de alegria quando enterrou bem suas riquezas.
Agora, suponhamos que alguém se apodere desse depósito confiado à terra, e que o nosso Harpagon sobreviva dez anos à sua ruína, sem o saber; eu vos pergunto, que lhe importou nesse intervalo, ter conservado ou perdido o tesouro? Enterrado ou roubado, ele lhe deu exactamente a mesma serventia.

Não é mais fatigante do que agradável ouvir os cães ladrarem e ganirem? Em que é mais divertido ver correr um cão atrás de uma lebre do que vê-lo atrás de outro cachorro? Entretanto, se é a corrida que faz o prazer, a corrida existe nos dois casos. Mas não é antes a expectativa da morte ou a espera da carniceria o que apaixonam os homens pela caça? E como não abrir a alma à piedade, como não ter horror a esta matança, em que o cão forte, cruel e audaz, dilacera a lebre fraca, tímida e fugitiva?

A caça é a parte mal vil da arte de matar os animais; as outras partes desse ofício são muito mais consideradas, porque trazem maior lucro e porque nelas só matam os animais por necessidade, enquanto que o caçador procura no sangue e na morte um divertimento estéril.

Os utopianos distinguem diversas espécies de prazeres verdadeiros: uns relacionam-se com o corpo, outros com a alma. Os prazeres da alma estão no desenvolvimento da inteligência e nas puras delícias que acompanham a contemplação da verdade. Acrescentam ainda a certeza tde uma vida irrepreensível e a esperança certa de uma imortalidade bem-aventurada. Eles dividem em duas espécies as voluptuosidades do corpo:
 A primeira espécie compreende todas volúpias que exercem sobre os sentidos uma impressão actual, manifesta, e cuja causa é o restabelecimento dos órgãos consumidos pelo calor interno. Essa impressão nasce de um lado, da acção de beber e comer que devolve as forças perdidas; de outro lado, das funções animais que expelem do corpo as matérias supérfluas. Tais são as secreções intestinais, o coito, e o alívio de uma comichão qualquer, ao esfregar-se ou ao coçar-se. Algumas vezes o prazer dos sentidos não provém das funções animais que reparam os órgãos esgotados, ou os aliviam de uma exuberância penosa; mas pelo efeito de uma força interior e indefinível que comove, encanta e seduz; tal é o prazer que nasce da música.
 A segunda espécie de volúpia sensual consiste no equilíbrio estável e perfeito de todas as partes do corpo, isto é, numa saúde isenta de mal-estar. Com efeito, o homem que não é afectado pela dor, experimenta em si um certo sentimento de bem-estar, mesmo que nenhum objecto exterior agite agradavelmente os seus órgãos. É verdade que esta espécie de volúpia não afecta nem atordoa os sentidos, como por exemplo os prazeres da mesa; apesar disso, muitos a colocam em primeiro lugar; e quase todos os utopianos declaram que ela é a base e o fundamento da verdadeira felicidade. Porque, dizem, só uma saúde perfeita torna a condição da vida humana tranquila e apetecível; sem saúde, não há voluptuosidade possível; sem ela, a própria ausência da dor não é um bem, é a insensibilidade do cadáver.

Que triste destino seria o nosso, se nos fosse preciso expulsar, à força de venenos e drogas amargas, a fome e a sede de cada dia, como expulsamos as moléstias que nos assaltam de longe em longe!

 Eles mantêm e cultivam de boa vontade a beleza, o vigor, a agilidade do corpo, os dons mais agradáveis e felizes da natureza. Admitem também os prazeres que a natureza criou exclusivamente para o homem e que fazem a graça e o encanto da vida. Porque o animal não demora a olhar sobre a magnificência da criação, sobre a ordem e o arranjo do universo. Sente o odor para distinguir a alimentação, mas não saboreia a delícia dos perfumes; não conhece as relações dos sons, e não aprecia a dissonância nem a harmonia.
Finalmente, em toda espécie de satisfações sensuais, os utopianos não esquecem jamais esta regra prática: Fugir à volúpia que impede gozar uma volúpia maior ou que é seguida de qualquer dor. Ora, a dor é, a seus olhos, a consequência inevitável de toda volúpia desonesta. Eis ainda um de seus princípios: Desprezar a beleza do corpo, enfraquecer suas forças, converter sua agilidade em entorpecimento, esgotar seu temperamento pelo jejum e pela abstinência, arruinar a saúde, em uma palavra, repelir todos os favores da natureza, no intuito de devotar-se mais eficazmente à felicidade da humanidade, na esperança de que Deus venha recompensar essas penas de um dia por êxtases de alegria eterna, é dar mostra de religião sublime.
Mas crucificar a carne, sacrificar-se por um vão fantasma de virtude, ou para habituar-se antecipadamente a misérias que talvez não aconteçam nunca, é dar mostra de loucura, de uma covarde crueldade para consigo mesmo, de orgulhosa ingratidão para com a natureza. É pisar aos pés os benefícios do Criador, como desdenhando ser-lhe obrigado em alguma coisa. Tal é a teoria utopiana no que se refere à virtude, e ao prazer. A menos que uma revelação descida do céu inspire ao homem qualquer coisa de mais santo, eles crêem que a razão humana não pode conceber nada de mais verdadeiro. Esta moral é boa, é má?

O médico, costumam dizer, que se aplica em penetrar os mistérios da vida, não somente tira deste estudo admiráveis prazeres, como ainda se torna agradável ao divino obreiro, autor da vida.

A servidão recai particularmente sobre os cidadãos culpáveis de grandes crimes e sobre os condenados à morte pertencentes ao estrangeiro. Estes são muito numerosos na Utopia; os utopianos vão mesmo procurá-los no exterior onde os compram a vil preço; algumas vezes obtêm-nos até de graça.
Todos os escravos são submetidos a um trabalho contínuo, e trazem correntes. Os que são tratados, porém, com mais rigor, são os indígenas, que são tidos como os mais miseráveis dos celerados, dignos de servir de exemplo aos outros por uma pior degradação. Com efeito, eles receberam todos os germes da virtude; aprenderam a ser felizes e bons, e, no entanto, abraçaram o crime.


Os utopianos não se casam às cegas; e para melhor se escolherem, seguem um uso que, à primeira vista, nos pareceu eminentemente ridículo, mas que praticam com um sangue frio e uma seriedade verdadeiramente notáveis.
Uma dama honesta e grave mostra ao prometido sua noiva, donzela ou viúva, em estado de completa nudez; e reciprocamente, um homem de probidade comprovada, mestra à rapariga seu noivo nu.
Quando, diziam os utopianos, comprais um burrico, negócio de alguns escudos, tomais precauções infinitas. O animal está quase nu, e entretanto, tirai-lhe a sela ou os arreios, temendo que esses fracos invólucros escondam alguma úlcera. E, quando se trata de escolher uma mulher, escolha que influi sobre todo o resto da vida, e que pode fazer desta uma delícia ou uma tortura, procedeis com a maior incúria! Como?! Prendei-vos indissoluvelmente a um corpo todo oculto em vestes que o envolvem; julgais a mulher inteira por um pedaço de sua pessoa, tão grande quanto a mão, pois só o rosto está à vista! E não temeis de encontrar depois disto alguma deformidade secreta, que vos leve a maldizer esta união arriscada!
 Os utopianos tinham alguma razão em falar assim, porque todos os homens não são bastante filósofos para estimar uma mulher apenas por seu espírito e coração, e os próprios filósofos não se aborreceriam por encontrar refluídas a beleza do corpo e as qualidades da alma.
(…) Na Utopia onde a poligamia é severamente proscrita e onde o casamento não se dissolve, na maioria das vezes, senão pela morte, exceptuando-se o caso de adultério e de costumes absolutamente dissolutos. Nos dois casos o senado dá ao cônjuge ofendido o direito de se casar novamente; o outro é condenado a viver perpétuamente na infâmia e no celibato.

Não é permitido, sob nenhum pretexto, repudiar uma mulher de comportamento irrepreensível, sob o fundamento de alguma enfermidade corporal que haja adquirido. Abandonar assim uma esposa, no momento em que tem maior necessidade de socorros, é, aos olhos dos utopianos, uma cruel covardia; é ainda tirar à velhice toda esperança no futuro, pois não é a velhice a mãe de todos os achaques, e não é ela, já em si, uma doença?
Acontece algumas vezes na Utopia que o marido e a mulher não podendo conviver juntos por incompatibilidade de génios, procuram novas metades, que lhes prometam uma vida mais feliz e mais doce. A demanda de separação deve ser levada aos membros do senado que, após terem escrupulosamente examinado a questão, juntamente com suas mulheres, rejeitam ou autorizam o divórcio. Neste último caso, as duas partes queixosas separam-se com mútuo consentimento e casam-se em segundas núpcias.
O divórcio é raramente permitido; os utopianos sabem que dar a esperança de poder casar novamente com facilidade, não é o melhor meio de estreitar os laços do amor conjugal.
O adultério é punido com a mais dura escravidão.
Se os dois culpados eram casados, os esposos ultrajados têm, cada qual, o direito de repúdio respectivo, e podem casar-se entre si ou com quem bem lhes pareça. Entretanto, se o cônjuge, homem ou mulher, que sofreu a injúria, ama ainda o esposo ou esposa indigna, o casamento não é rompido, com a condição, entretanto, de que o inocente siga o culpado aonde ele foi condenado a trabalhar.
A reincidência no adultério é punida com a morte.

As penas dos outros crimes não são invariavelmente determinadas pela lei. O senado proporciona a pena conforme a enormidade do delito. Os maridos castigam suas mulheres; os pais, seus filhos; a menos que a gravidade do delito exija uma reparação pública. A pena ordinária, mesmo para os maiores crimes, é a escravidão.
 Os utopianos crêem que a escravidão não é menos terrível para os celerados do que a morte, sendo, além disso, mais vantajosa para o Estado. Um homem que trabalha, afirmam, é mais útil que um cadáver; e o exemplo de um suplício perpétuo inspira um terror muito mais duradouro do que uma matança legal, que faz o culpado desaparecer num instante.
Quando os condenados escravos se revoltam, são mortos como animais ferozes e indomáveis que a cadeia e a prisão não puderam conter. Mas os que suportam pacientemente sua sorte, não perdem de todo a esperança. Vêm-se infelizes que, domados pelo tempo e pelo rigor dos sofrimentos, testemunham verdadeiro arrependimento, mostrando que o crime lhes pesa com mais força do que o castigo. Então, a prerrogativa do príncipe, ou a voz do povo, concede-lhes a liberdade.
A simples solicitação ao deboche é passível da mesma pena que o estupro cometido. Em toda matéria criminal, a tentativa bem definida é reputada igual ao facto. Os obstáculos que impedem a execução de uma má intenção não justificam aquele que a concebeu, e que, por certo, teria cometido o mal se tivesse podido.
 Os bobos da Utopia fazem as delícias dos habitantes; maltratá-los é coisa vergonhosa. Assim, o prazer que se tira da loucura de outrem não é proibido. Os utopianos não confiam os bobos a esses homens tristes e severos que as palavras e as acções mais cómicas não conseguem desanuviar. Temem que tão sérias personagens não possuam a indulgência precisa para aturar e cuidar de um pobre louco que não serve para nada e que nem ao menos os consegue fazer rir, único talento com que a natureza o dotou.
 É igualmente vergonhoso insultar a fealdade ou aleijados; o que reprocha a um infeliz os defeitos físicos, que não estava em si evitar, passa por insensato. Menosprezar o zelo pela beleza natural é dar prova de uma preguiça ignóbil; mas chamar em seu auxílio o artifício e o enfeite é infame impertinência.
Os nossos insulares sabem, de experiência própria, que as graças do corpo recomendam menos uma mulher ao amor de seu marido, do que a probidade dos costumes, a doçura e o respeito.
Muitos se deixam seduzir pela beleza; mas nem um só é constante e fiel, se não encontrar com a beleza, a bondade e a virtude.

Os utopianos não somente afastam o crime pelas leis penais, como incitam à virtude com honrarias e recompensas. Estátuas são erguidas nas praças públicas aos homens de génio e àqueles que prestaram à república serviços relevantes. Assim, a memória das grandes acções perpetua-se e a glória dos antepassados é um aguilhão a estimular a conquista da posteridade e o incitamento ao bem.
Aquele que afronta um só magistrado perde toda esperança de exercer algum dia qualquer magistratura. Os utopianos vivem em família. Os magistrados não se mostram nem orgulhosos nem terríveis; são chamados pais, e, realmente, destes têm a justiça e a bondade. Recebem com simplicidade as honras que às suas funções lhes são rendidas voluntariamente; essas provas de deferência não constituem obrigação para ninguém. O próprio príncipe não se distingue da massa, nem pela púrpura nem pelo diadema, mas apenas por um feixe de trigo que traz na mão. As insígnias do pontífice reduzem-se a um círio que é levado à sua frente.
As leis são em muito pequeno número e não obstante bastam às instituições. O que os utopianos desaprovam especialmente nos outros povos é a quantidade - infinita de volumes, leis e comentários, que, apesar de tudo, não são suficientes para garantir a ordem pública. Consideram como injustiça suprema enlear os homens numa infinidade de leis, tão numerosas que se torna impossível conhecê-las todas, ou tão obscuras que é impossível compreendê-las.
Não há advogados na Utopia. Os demandistas de profissão, que se esforçam por torcer a lei, e decidir uma questão com a maior astúcia, foram dali excluídos. Os utopianos pensam que é preferível que cada um defenda sua causa e confie directamente ao juiz o que teria a dizer a um advogado. Desta maneira há menos ambiguidade e rodeio e a verdade se descobre mais facilmente. As partes expõem seu negócio simplesmente, pois não há advogados para ensinar-lhes as mil artimanhas da chicana. O juiz examina e pesa as razões de cada um com bom senso e boa-fé; defende a ingenuidade do homem simples contra as calúnias do velhaco.
Seria bem difícil praticar semelhante justiça nos outros países, enterrados num montão de leis, tão embrulhadas e tão equivocas. De resto, todo o mundo na Utopia é doutor em direito; porque, repito-o, as leis são em muito pequeno número e a interpretação mais grosseira e mais material é admitida como a mais razoável e mais justa.
As leis são promulgadas, dizem os utopianos, com a única finalidade de que cada qual seja advertido de seus direitos e deveres.
Ora, as subtilezas de vossos contendores são acessíveis a pouca gente e esclarecem apenas um punhado de sábios; ao passo que uma lei claramente formulada, cujo sentido não é equívoco e se apresenta naturalmente ao espírito, está ao alcance de todos.
Que importa à massa, isto é, à classe mais numerosa e a que mais importa ter normas se não há leis ou que as leis estabelecidas sejam de tal maneira embrulhadas que para obter-se sua significação verdadeira se faça necessário um génio superior, ou longas discussões e longos estudos?

Infeliz do país onde a avareza e as afeições privadas sentam-se no banco do magistrado! Adeus justiça! o mais firme esteio dos Estados!

Para que servem os tratados? Não uniu a natureza o homem ao homem por laços bastante indissolúveis? Aquele que despreza esta aliança íntima e sagrada terá escrúpulo em violar um protocolo? Consolida-os nesta opinião o fato de que nas terras desse novo mundo é raro que as convenções entre príncipes sejam observadas de boa-fé.

É muito fácil descobrir matéria para chicana no texto de uma aliança; os negociadores insinuam de má-fé, nos textos, manhosas escapatórias, a fim de que o príncipe não fique jamais indissoluvelmente preso, e possa encontrar sempre uma saída secreta para seus compromissos.
E, entretanto, este mesmo ministro que se vangloria de falsificar assim as negociações, por conta do rei, seu senhor, se percebesse que semelhantes embustes, ou melhor, velhacarias, eram introduzidas num contrato entre simples particulares, este mesmo diplomata, franzindo o sobrolho do alto de sua probidade, condenaria a fraude como um sacrilégio digno da forca.

Em tese, encaram como um mal a introdução de tratados entre os povos, mesmo que fossem observados religiosamente. Este uso habitua os homens a se considerarem mutuamente inimigos, nascidos para se guerrearem sempre e para legitimamente se entredevorarem, na falta de um tratado de paz; como se não houvesse mais uma sociedade natural entre duas nações só porque uma colina ou um rio as separa. Ainda se as alianças garantissem a amizade dos confederados, mas, na realidade, nunca eliminam elas todos os pretextos de rompimento, e por conseguinte, de saque e de guerra, dada a leviandade dos diplomatas que redigem os artigos. É raro que os plenipotenciários possam abarcar todos os casos possíveis de proibições e compromissos, ou que os formulem de uma forma perfeitamente clara e precisa.
Os utopianos têm por princípio que não se deve ter por inimigo senão aquele que se torna culpado de injustiça ou violência. A comunhão na mesma natureza parece-lhes um laço mais indissolúvel do que todos os tratados. O homem, afirmam, está unido ao homem de uma maneira mais íntima e mais forte pelo coração e pela caridade do que pelas palavras e protocolos.

Os utopianos abominam a guerra como uma coisa puramente animal e que o homem, no entanto, pratica mais frequentemente do que qualquer espécie de animal feroz.
Os utopianos choram amargamente sobre os louros de uma vitória sangrenta; envergonham-se mesmo, considerando absurdo comprar as mais brilhantes vantagens ao preço do sangue humano. Para eles, o mais belo título de glória é o de ter vencido o inimigo à força de habilidade e artifício. É então quando celebram os triunfos públicos e erguem os troféu; como após uma acção heróica; é então quando se vangloriam de ter agido como homens e como heróis, uma vez que venceram unicamente pela força da razão, coisa de que não é capaz nenhum animal, excepto o homem.
(...) Tal é o poder que tem o ouro para arrastar ao crime! Também, os utopianos não poupam dinheiro nessa circunstância. Recompensam com a gratidão mais generosa aqueles que impelem aos perigos da traição; eles têm o cuidado de fazer com que a grandeza do perigo seja largamente compensada pela magnificência do prémio. É por isso que prometem aos traidores não só imensas somas em dinheiro, mas ainda a propriedade perpétua de terras de grande rendimento situadas em lugar seguro no país aliado. E cumprem fielmente a palavra. O uso de negociar os seus próprios inimigos, pondo suas cabeças a prémio, é reprovado nos outros países como uma infâmia digna unicamente de almas degradadas. Os utopianos, porém, gabam-se disso como de uma acção de alta sabedoria que termina sem combate as guerras mais terríveis. Honram-se disso como de uma acção humanitária e misericordiosa, que resgata, ao preço da morte de um punhado de culpados, a vida de vários milhares de inocentes, de um como de outro lado, destinados a morrer nos campos de batalha.
A piedade dos utopianos também se estende aos soldados de todas as bandeiras; sabem que o soldado não vai por sua própria vontade à guerra, mas é arrastado pelas ordens e pelos furores dos príncipes.

Os cidadãos são para a república da Utopia o tesouro mais caro e mais precioso.

É também comum ver-se parentes muito próximos, amigos estreitamente ligados, enquanto serviam a mesma causa, combatendo-se com o mais vivo encarniçamento, desde que a sorte os dispersou pelas fileiras das duas partes contrárias. Eles esquecem família, amizade e se matam furiosamente só pelo fato de dois soberanos inimigos pagarem algumas moedas por seu sangue e seu furor.

Desde cedo aprendem a não desdenhar tanto a vida, para esbanjá-la estouvadamente; mas também a não amá-la tanto para guardá-la com vergonhosa avareza, quando a honra exige que seja arriscada.

Os utopianos observam tão religiosamente as tréguas concluídas com o inimigo, que não as violam mesmo em caso de provocação Não devastam as terras do país conquistado; não queimam suas colheitas; vão até a impedir, tanto quanto possível, que elas sejam esmagadas sob os pés dos homens e dos cavalos, na previsão de que venham a necessitar delas um dia.
Nunca maltratam um homem sem armas, a menos que seja espião. Conservam as cidades que se rendem e não abandonam à pilhagem as que tomam de assalto. Apenas, matam os principais chefes que puserem obstáculos à rendição da praça, e condenam à escravidão o resto dos que sustentaram o sítio. Quanto à massa indiferente e pacífica, deixam-na em paz. Se sabem que um ou mais sitiados haviam aconselhado a capitulação, dão-lhes uma parte dos bens dos condenados; a outra parte é para as tropas auxiliares. Não tocam no despojo.

Utopus, decretando a liberdade religiosa, não tinha unicamente em vista a manutenção da paz outrora perturbada por combates contínuos e ódios implacáveis; pensava ainda que o próprio interesse da religião exigia tal medida. Nunca ousou ele estatuir temerariamente qualquer coisa, em matéria de fé, na incerteza de que o próprio Deus não tenha inspirado aos homens as diversas crenças no intuito de experimentar, por assim dizer, esta grande variedade de cultos. Quanto ao emprego da violência e de ameaças para constranger alguém a adoptar a mesma crença que outrem, pareceu-lhe tirânico e absurdo. Previa que se todas as religiões fossem falsas, à excepção de uma, tempo viria em que, com o auxílio da doçura e da razão, a verdade se desprenderia espontaneamente, luminosa e triunfante, da noite do erro Ao contrário, quando a controvérsia se faz pelo tumulto e de armas na mão, dado que os piores homens são os mais teimosos, sucede que a melhor e mais santa das religiões acabaria sepultada sob uma multidão de vãs superstições, como uma bela seara coberta pelo mato e os espinhos.

Quem pode duvidar, com efeito, que um indivíduo que não tem outro freio senão o código penal, outra esperança que a matéria e o nada, não encontra prazer em iludir, astuciosa e secretamente, as leis de seu país, ou violá-las pela força, desde que satisfaça a sua paixão e o seu egoísmo?

Todos os utopianos, à parte pequena minoria, alimentam a convicção íntima de que uma felicidade imensa aguarda o homem além túmulo. É por isto que choram pelos doentes e jamais pelos mortos, exceptuado o caso em que o moribundo deixa a vida inquieto ou a contragosto. O temor da morte é para eles um mau augúrio; parece-lhes que este temor não existe senão nas almas sem esperança e cujas consciências intranquilas tremem diante da eternidade, como se sentissem já o aproximar do suplício. Além disso acreditam que Deus não recebe com prazer o homem que não acorre de bom grado ao seu chamado, mas é pela morte arrastado à sua presença entre rebelde e aflito.

(…)o amor e a caridade, longe de se extinguirem após a morte no coração dos eleitos, devem provavelmente crescer, como todas as outras perfeições. Por conseguinte, segundo as ideias utopianas, os mortos se misturam à sociedade dos vivos e são testemunhas de suas acções e de suas palavras. A crença na presença dos antepassados inspira a este povo uma confiança extrema nas suas acções  porque lhes assegura a proteção e o apoio de poderosos defensores; além disso, impede uma enorme quantidade de crimes ocultos.

Durante os combates, os padres, retirados a um lado, mas não muito longe dos campos de batalha, rezam de joelhos  as mãos erguidas ao céu e paramentados com os hábitos sagrados. Imploram a paz acima de tudo, e só em segundo lugar a vitória do seu país, e, ainda assim, uma vitória que não seja sangrenta para nenhum dos dois lados. Se são os seus concidadãos os vencedores, atiram-se no mais forte da refrega e evitam a matança dos vencidos. O inimigo que deles se aproxima, os vê ou os chama, tem sua vida poupada; aquele que consegue tocar suas vestimentas sagradas, longas e flutuantes, conserva com a vida, a fortuna.

É justo que um nobre, um ourives, um usurário, um homem que não produz senão objectos de luxo, inúteis ao Estado, é justo que tais indivíduos levem uma vida caprichosa e esplêndida por entre a ociosidade e ocupações frívolas, enquanto que um trabalhador, um carreteiro, um artesão, um lavrador vivem uma negra miséria, mal podendo alimentar-se? E, no entanto, os últimos estão amarrados a um trabalho tão pesado e tão penoso que as bestas de carga mal suportariam; tão necessário que nenhuma sociedade poderia subsistir um ano sem ele. Na verdade, a condição de uma besta de carga parece mil vezes preferível; esta trabalha menos tempo, sua alimentação não chega a ser pior, e é mesmo mais conforme aos seus gostos. E depois, o animal não teme o futuro.
Mas qual é o destino do operário? Um trabalho infrutífero, estéril a esmagá-lo agora e a expectativa de uma velhice miserável no futuro; o seu salário diário não chega para todas as necessidades quotidianas; como, então, poderá ele aumentar sua fortuna e reservar dia a dia um pouco do supérfluo para as necessidades da velhice?
Não é iníqua e ingrata a sociedade que prodigaliza tantos bens aos que se intitulam nobres, aos joalheiros, aos ociosos ou a esses artesãos de luxo que só sabem lisonjear e servir a frívolas volúpias; quando, de outra parte, não tem nem coração nem cuidados para o lavrador, o carvoeiro, o carregador, o operário, sem os quais não existiria sociedade?
Em seu cruel egoísmo, ela abusa do vigor da juventude dessa gente para tirar dela maior proveito; e logo que fraquejam esses pobres homens, sob o peso da idade e da doença, justamente quando tudo lhes falta, é que ela esquece das suas canseiras infindas, dos seus numerosos serviços, e os recompensa deixando-os morrer a fome. E não é tudo.
Os ricos diminuem todos os dias, de uma maneira ou outra o salário dos pobres, não só por meio de manobras fraudulentas, mas ainda decretando leis especiais.
Recompensar tão mal aqueles que mais merecem da república, parece-nos à primeira vista uma evidente injustiça; mas os ricos fazem desta monstruosidade um direito, sancionando-o em leis. É por isto que, quando considero e observo as repúblicas mais florescentes hoje, não vejo, Deus me perdoe, senão uma conspiração de ricos a gerir do melhor modo os seus negócios sob o rótulo e o título pomposos de república.
Os conjurados procuram por todas as manhas e meios possíveis atingir um duplo fim: Primeiramente, assegurar a posse certa e indefinida de uma fortuna mais ou menos mal adquirida;
em segundo lugar, abusar da miséria dos pobres, abusar de suas pessoas, e comprar pelo preço mais baixo suas habilidades e labores. E essas maquinações decretadas pelos ricos em nome do Estado, e, por conseguinte, em nome dos pobres também, são transformadas em leis.

Na Utopia a avareza é impossível, porque o dinheiro ali não é de uso algum, e por isso mesmo que abundante fonte de males não estancou ela? Que enorme seara de crimes não cortou pela raiz? Quem não sabe, com efeito, que as fraudes, os roubos, as rapinas, as rixas, os tumultos, as querelas, as sedições, os assassínios, as traições, os envenenamentos; quem não sabe, digo, que todos esses crimes dos quais se vinga a sociedade com suplícios permanentes, sem, entretanto, poder preveni-los, seriam suprimidos no dia em que o dinheiro desaparecesse?
Então, desapareceriam também o temor, a inquietude, os cuidados, as fadigas e as canseiras. A própria pobreza, que parece ser a única a carecer de dinheiro, diminuiria no instante mesmo, caso o dinheiro fosse completamente abolido. E veja-se esta prova evidente: Suponde que vem um ano mau e estéril, durante o qual uma horrível fome rouba muitos milhares de vidas. Sustento que, ao fim da calamidade, se fossem pesquisados os celeiros dos ricos, neles se encontrariam imensas provisões de grãos. De sorte que, se essas provisões tivessem sido distribuídas em tempo, nenhum dos infelizes que morreram de fraqueza e debilidade teria sido tocado pela inclemência do céu e a avareza da terra.
Vedes pois, que, sem o dinheiro, a existência teria podido e poderá ser assegurada a todos; e que a chave de ouro, esta bem-aventurada invenção que nos devia abrir as portas da felicidade, no-las fecha impiedosamente. Os próprios ricos, não o duvido, compreendem estas verdades. Sabem que é infinitamente preferível não lhes faltar jamais o necessário a ter em abundância quantidades de coisas supérfluas; que mais vale verem-se livres de males inúmeros do que se cercarem de grandes riquezas.
Creio mesmo que de há muito teria o género humano abraçado as leis da república utopiano, seja em interesse próprio, seja em obediência às leis do Cristo, pois a sabedoria do Salvador não poderia ignorar o que há de mais útil aos homens, e sua bondade divina certamente já soube recomendar-lhes o que sabia ser bom e perfeito.

Mas o orgulho, paixão feroz, rainha e mãe de todas as pragas sociais, opõe uma resistência invencível a essa conversão dos povos. O orgulho não mede a felicidade de acordo com o bem- estar pessoal, mas de acordo com a infelicidade alheia. Nem o orgulho seria o que é se não houvesse desgraçados a insultar e a tratar como escravos, se o luxo de sua felicidade não fosse mais exaltado pelas angústias da miséria e se a ostentação de suas riquezas não torturasse mais a indigência e lhe acentuasse o seu desespero. O orgulho é uma serpente do inferno, que se introduziu no coração dos homens, que os cega com seu veneno e os afasta da senda de uma vida melhor. Este reptil agarra-se tão fortemente à carne que se torna difícil arrancá-lo.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Antoine de Saint-Exupéry- O Principezinho


… as pessoas crescidas estão sempre a precisar de explicações.

As pessoas crescidas nunca entendem nada sozinhas e uma criança acaba por se cansar de lhes estar sempre a explicar tudo. Vivi durante anos e anos no mundo das pessoas crescidas.

Vivi durante anos e anos no mundo das pessoas crescidas. Vi-as de bem perto. Não fiquei com muito melhor opinião delas. (…) Foi assim que vivi sempre sozinho (…)

Quando um mistério é grande de mais, não nos atrevemos a desobedecer.

(…)É que eu gosto que as minhas desgraças sejam levadas a sério.

(…) Mas ninguém o levou a sério por causa da maneira como estava vestido. As pessoas crescidas são assim.

As pessoas crescidas gostam de números. Quando lhes falam de um amigo novo, nunca perguntam nada de essencial. Nunca perguntam: «Como é a voz dele? A que é que ele gosta mais de brincar? Faz colecção de borboletas?» Em vez disso, perguntam: «Que idade tem? Quantos irmãos tem? Quanto é que ele pesa? Quanto ganha o pai dele?» Só então julgam ficar a saber quem é o vosso amigo. Se contarem às pessoas crescidas: «Hoje vi uma casa muito bonita de tijolos cor-de-rosa, com gerânios nas janelas e pombas no telhado...», as pessoas crescidas não conseguem imaginá-la. Precisam de lhes dizer: «Hoje vi uma casa que custou cem mil contos.» Então já são capazes de a admirar: «Mas que linda casa!»

As pessoas crescidas são mesmo assim. Não vale a pena zangarmo-nos com elas. As crianças têm de ser muito indulgentes para as pessoas crescidas.

O meu amigo já se foi embora há seis anos com a sua ovelha. Se o tento descrever, é só para não me esquecer dele. É tão triste esquecermo-nos de um amigo! Nem toda a gente teve um amigo na vida… E depois, posso ficar como as pessoas grandes que já não se interessam senão por números.

(…)O meu amigo nunca explicava nada. Talvez pensasse que eu era igual a ele. Infelizmente, não sei ver ovelhas através de caixas. Se calhar, estou um bocado parecido com as pessoas crescidas. Devo ter envelhecido.

Às vezes não faz mal nenhum deixar um trabalho elaborado para depois (…) Queria precaver os meus amigos contra um perigo terrível que nos ameaça sabe-se lá desde quando, sem que nenhum de nós suspeitasse.

Sei de um planeta onde há um senhor todo afogueado. Nunca cheirou uma flor. Nunca olhou para uma estrela. Nunca gostou de ninguém. Nunca fez senão contas. E, tal como tu, passa o dia a dizer: “Eu sou um homem a sério! Eu sou um homem sério!” Mas aquilo não é um homem!

Amar uma flor de que só há um exemplar em milhões e milhões de estrelas basta para uma pessoa se sentir feliz quando olha para o céu. Porque pensa: «Ali está ela, algures lá no alto…» Mas se uma ovelha comer a flor, para essa pessoa é como se as estrelas se apagassem todas de repente!

É tão misterioso o país das lágrimas!


(…) mas a flor nunca acabava de se arranjar, de se pôr bonita (…)
- Ai! Ainda mal acordei... Peço-lhe que me perdoe... Estou toda despenteada...Mas o principezinho não pôde conter a admiração :
- Mas que flor tão bonita!
- Lá isso é verdade... - respondeu ela, com uma voz muito suave.
- E nasci com o Sol...
O principezinho suspeitou logo que a modéstia não devia ser o seu forte; mas era tão enternecedora !
(…) Não fui capaz de entender nada. Devia tê-la avaliado não pelas palavras e sim pelos actos. Ela perfumava-me e dava-me luz! Eu nunca devia ter fugido! Devia ter sido capaz de adivinhar toda a ternura escondida por detrás daquelas pobres manhas. As flores são tão contraditórias! Mas eu era novo demais para saber gostar dela.

Tenta ser feliz.

Ainda não tinha aprendido que o mundo se encontra extremamente simplificado para os reis. Todos os homens são súbditos.

Se eu ordenasse a um general que se transformasse em gaivota e ele não me obedecesse, o general não tinha culpa. Eu é que tinha.

Se eu ordenasse a um general que voasse de flor em flor como as borboletas, ou que escrevesse uma tragédia, ou que se transformasse em gaivota e se o general não executasse a ordem recebida, de quem era a culpa: minha ou dele?

Só se pode exigir a uma pessoa o que essa pessoa pode dar. A autoridade baseia-se antes de mais , no bom senso. (…)Eu tenho direito de exigir obediência porque as minhas ordens são sensatas.
- E então o meu pôr-do-sol? - lembrou o principezinho que, quando fazia uma pergunta, nunca desistia dela.
- Calma, que o hás-de ter. Eu assim o exijo. Mas a minha ciência da governação recomenda-me que espere pelas condições mais favoráveis.

É muito mais difícil julgarmo-nos a nós próprios do que aos outros. Se conseguires julgar-te bem a ti próprio, és um autêntico sábio.

As pessoas crescidas são mesmo muito esquisitas.

Para os vaidosos, todos os outros homens são admiradores.

Os vaidosos só ouvem os elogios.

Estás a fazer o quê? Perguntou ao bêbado.
-Estou a beber- respondeu o bêbado, com ar lúgubre.
-Estás a beber porquê?- perguntou o principezinho.
- Para me esquecer- respondeu o bêbado.
Para te esqueceres de quê?- perguntou o principezinho, que começava a ter pena dele.
-Para me esquecer que tenho vergonha- confessou o bêbado, baixando a cabeça.
- Vergonha de quê?- tentou saber o principezinho, cheio de vontade de o ajudar.
- Vergonha de beber!- concluiu o bêbado, fechando-se definitivamente no seu silêncio.


Calcula tu que o planeta cada ano gira mais depressa e as ordens nunca mudam!...

Às vezes, quando queremos ter graça, damos por nós a mentir.

Também se está sozinho ao pé dos homens.

Os homens? (…) nunca se sabe onde encontra-los. O vento leva-os de um lado para outro. Não têm raízes e isso é muito incómodo para eles.

Os homens têm cá uma falta de imaginação! Só sabem repetir o que se lhes diz…

E afinal tinha ali cinco mil rosas, todas iguais, ó num jardim.  (A massificação dos homens)

Julgava-me muito importante por ter uma flor única no mundo e, afinal, tenho uma rosa vulgar.

- (…) «Cativar» quer dizer o quê?
É uma coisa que toda a gente esqueceu- disse a raposa- Quer dizer «criar laços»
.…Criar laços?
Sim, laços - disse a raposa. – Ora vê: por enquanto tu não és para mim senão um rapazinho perfeitamente igual a cem mil outros rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto eu não sou para ti senão uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativares, nós passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E eu também passo a ser única no mundo para ti...
(…) Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu caço galinhas e os homens caçam-me a mim. As galinhas são todas parecidas umas com as outras e os homens são todos parecidos uns com os outros. Por isso, às vezes aborreço-me muito. Mas, se tu me cativares, a minha vida fica cheia de sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois, repara! Estás a ver aqueles campos de trigo ali adiante? Eu não gosto de pão e, por isso, o trigo não me serve para nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando me tiveres cativado, vai ser maravilhoso! O trigo é dourado e há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do som do vento a bater no trigo…
A raposa calou-se e ficou a olhar para o principezinho durante muito tempo. Se fazes favor… Cativa-me! – acabou finalmente por pedir.
Eu bem gostava – respondeu o principezinho, - mas não tenho muito tempo. Tenho amigos para descobrir e uma data de coisas para conhecer.
Só conhecemos o que cativamos - disse a raposa. - Os homens deixaram de ter tempo para conhecer o quer que seja. Compram as coisas já feitas aos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens deixaram de ter amigos. Se queres um amigo, cativa-me!
E tenho de fazer o quê? - disse o principezinho.
Tens de ter muita paciência. Primeiro, sentas-te longe de mim, assim, na relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas podes sentar-te cada dia um bocadinho mais perto…
O principezinho voltou no dia seguinte.
Era melhor teres vindo à mesma hora - disse a raposa. – Por exemplo, se tu vens às quatro horas, às três já eu começo a estar feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sinto. Às quatro em ponto hei-de estar toda agitada e toda inquieta: fico a saber qual o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca vou saber a que horas hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito... Precisamos de rituais.
O que é um ritual? - disse o principezinho.
Também é uma coisa de que toda a gente se esqueceu - disse a raposa. - É o que torna um dia diferente dos outros dias e uma hora diferente das outras horas.
(…)E o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da despedida:
Ai! – suspirou a raposa – Ai que me vou pôr a chorar...
A culpa é tua - disse o principezinho. - Eu não te desejava mal nenhum, mas tu pediste para eu te cativar...
Pois pedi – disse a raposa.
Mas agora vais-te pôr a chorar! – disse o principezinho.
Pois vou – disse a raposa.
Então não ganhaste nada com isso!
Ai ganhei, sim, senhor! - disse a raposa. - Por causa da cor do trigo… (…) dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo. (…) É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...(...)Os homens já se esqueceram desta verdade - disse a raposa. - Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que cativaste.

Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.

Nunca se está bem onde se está.

Era um vendedor de comprimidos para tirar a sede.    (O artificialismo do homem)

É  bom ter tido um amigo, mesmo quando se vai morrer.

O que torna o deserto bonito é ele ter um poço escondido algures por aí….

Casas, estrelas ou desertos, é tudo a mesma coisa: o que lhes dá beleza nunca se vê.

O que eu estou a ver não passa de uma capa. O mais importante é invisível…

Os homens bem se encafuam dentro dos comboios, mas já não sabem do que andam à procura. Andam sempre à roda…

Levei-lhe o balde à boca e ele bebeu de olhos fechados. Tão boa Tenho sede desta água - disse o principezinho. - Dá-me de beber...
E então soube do que ele andava à procura.
Levei-lhe o balde à boca e ele bebeu, de olhos fechados. Tão boa! Aquela água era muito mais do que um alimento. Nascera da caminhada sob as estrelas, do canto da roldana, do esforço dos meus braços. Era boa para o coração, como uma prenda. O mesmo se passava quando eu era pequeno: as luzes da árvore, a música da Missa do Galo e a ternura dos sorrisos é que davam o brilho todo ao meu presente de Natal.
- Os homens da tua terra são capazes de plantar cinco mil rosas no mesmo sítio... - disse o principezinho. - E, apesar de terem um jardim com muitas rosas, não descobrem aquilo de que andam à procura...
- Pois não... - respondi eu.
- E podiam descobrir aquilo de que andam à procura numa única rosa ou num único golo de água.
- Pois era - respondi eu.
O principezinho acrescentou:
 - Mas os olhos são cegos. Só se procura bem com o coração.


Quando nos deixamos cativar, é certo e sabido que algum dia alguma coisa nos há-de fazer chorar.



- As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para os viajantes, as estrelas são guias. Para outros, não passam de luzinhas. Ainda para outros, os cientistas, são problemas. Para o meu homem de negócios, eram outro. Mas todas essas estrelas estão caladas. Tu, tu vais ter estrelas como mais ninguém…
- isso quer dizer o quê?
-Tu, vais  ter as estrelas como mais ninguém...
- Isso quer dizer o quê?
- À noite, vais-te pôr a olhar para o céu, e porque eu moro numa delas, porque eu me estou a rir numa delas, então, para ti, vai ser como ser todas as estrelas se rissem! Vais ser a única pessoa do mundo que tem estrelas a rir!
Voltou a rir.
- E quando estiveres consolado (afinal acabamos sempre por nos consolar), vais ficar contente de me teres conhecido. Vais ser sempre meu amigo. Vai-te apetecer rir comigo. E, às vezes, sem mais nem menos, vais abrir a janela, só por ser bom… E os teus amigos vão ficar espantados por te verem a olhar para o céu e a rir. Mas tu dizes-lhes: “Pois é! As estrelas dão-me sempre vontade de rir!” E eles vão ficar a pensar que não estás bom da cabeça. Bela partida a minha…
E voltou a rir.
- É como, se em vez de estrelas, te desse quinhentos milhões de guizinhos a rir.



E, claro, agora já passaram seis anos… nunca contei esta história a ninguém. Quando voltei, os meus colegas tiveram uma grande alegria por eu não ter morrido. Eu estava triste, mas dizia-lhes “é do cansaço…”
Depois, fui-me consolando. Enfim… quase. Mas tenho a certeza absoluta de que o principezinho voltou para o planeta dele. (…) E, à noite, gosto de me pôr a ouvir as estrelas. São mesmo quinhentos milhões de guizinhos… Mas passa-se uma coisa extraordinária. Como me esqueci de pôr a correia no açaimo e como, sem correia, o principezinho nunca se pode ter servido dele, ando sempre com uma dúvida: a ovelha terá ou não comido a flor?
Umas vezes penso: “Claro que não! O principezinho põe a flor todas as noites debaixo da redoma de vidro e, de dia,não tira os olhos da ovelha…” E fico feliz. E todas as estrelas se põem a rir baixinho.
 Outras vezes, penso: “Uma distracção e basta… se calhar, um dia, o principezinho esqueceu-se da redoma de vidro… ou a ovelha escapou-se-lhe de noite, sem fazer barulho…” E todos os guizinhos se transformam em lágrimas!
Que grande mistério! Vão ver que também para vocês, que gostam do principezinho, nada no Universo fica na mesma se algures, não se sabe bem onde, uma ovelha que nós não conhecemos tiver ou não comido uma rosa… Ora olhem para o céu e pensem: “A ovelha terá ou não comido a flor?” Vão ver como tudo muda…
E nunca nenhuma pessoa crescida há-de entender como isso é importante!















quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Nicolau Maquiavel - O Príncipe



 Para a preservação dos Estados hereditários e afeiçoados à linhagem de seu príncipe, as dificuldades são assaz menores que nos novos, pois é bastante não transgredir nem violar a ordem dos antepassados e, depois, contemporizar conforme os casos que surgirem, de forma que, se tal príncipe for dotado de ordinária capacidade sempre se manterá no poder, a menos que uma extraordinária e excessiva força dele venha a privá-lo; e, uma vez dele destituído, ainda que temível seja o usurpador, volta a conquistá-lo.

Na verdade, o príncipe natural não tem tantas causas e menos necessidade de ofender os seus súbditos: donde se conclui dever ser mais amado e, se não se faz odiar por desbragados vícios, é lógico e natural seja benquisto de todos. E na antiguidade e continuação do exercício do poder, apagam-se as lembranças e as causas das inovações, porque uma mudança sempre deixa lançada a base para a ereção de outra.

(…) dificuldade inerente a todos os principados novos: é que os homens, com satisfação, mudam de senhor pensando melhorar e esta crença faz com que lancem mão de armas contra o senhor actual, no que se enganam porque, pela própria experiência, percebem mais tarde ter piorado a situação.
Isso resulta numa outra necessidade natural e ordinária, a qual faz com que o novo príncipe sempre precise ofender os novos súbditos com seus soldados e com outras infinitas injúrias que se lançam sobre a recente conquista; dessa forma, tens como inimigos todos aqueles que ofendeste com a ocupação daquele principado e não podes manter como amigos os que te permitiram a entrada, por não poderes recompensares estes pela forma por que tinham imaginado, nem aplicar correctivos violentos uma vez que estás a eles obrigado; porque sempre, mesmo que fortíssimo em exércitos, tem-se necessidade do apoio dos habitantes para penetrar numa província.
Foi por essas razões que Luís XII, rei de França, ocupou Milão rapidamente e logo depois o perdeu, para tanto bastando inicialmente as forças de Ludovico, porque aquelas populações que lhe haviam aberto as portas, reconhecendo o erro de seu pensar anterior e descrentes daquele bem-estar futuro que haviam imaginado, não mais podiam suportar os dissabores ocasionados pelo novo príncipe.
É bem verdade que, reconquistando posteriormente as regiões rebeladas, mais dificilmente se as perdem, eis que o senhor, em razão da rebelião, é menos vacilante em assegurar-se da punição daqueles que lhe faltaram com a lealdade, em investigar os suspeitos e em reparar os pontos mais fracos.

Estados conquistados e anexados a um Estado antigo, ou são da mesma província e da mesma língua, ou não o são: Quando o sejam, é sumamente fácil mantê-los sujeitos, máxime quando não estejam habituados a viver em liberdade, e para dominá-los seguramente será bastante ter-se extinguido a linhagem do príncipe que os governava, porque nas outras coisas, conservando-se suas velhas condições e não existindo alteração de costumes, os homens passam a viver tranquilamente.
E quem conquista, querendo conservá-los, deve adoptar duas medidas: a primeira, fazer com que a linhagem do antigo príncipe seja extinta; a outra, aquela de não alterar nem as suas leis nem os impostos; por tal forma, dentro de mui curto lapso de tempo, o território conquistado passa a constituir um corpo todo com o principado antigo.

Mas, quando se conquistam territórios numa província com língua, costumes e leis diferentes, aqui surgem as dificuldades e é necessário haver muito boa sorte e habilidade para mantê-los. E um dos maiores e mais eficientes remédios seria aquele do conquistador ir habitá-los. Isto tornaria mais segura e mais duradoura a posse adquirida.
Isso porque, estando no local, pode-se ver nascerem as desordens e, rapidamente, podem ser elas reprimidas; aí não estando, delas somente se tem notícia quando já alastradas e não mais passíveis de solução. Além disso, a província conquistada não é saqueada pelos lugar-tenentes; os súbditos ficam satisfeitos porque o recurso ao príncipe se torna mais fácil, donde têm mais razões para amá-lo, querendo ser bons, e para temê-lo, caso queiram agir por forma diversa. Quem do exterior desejar assaltar aquele Estado, por ele terá maior respeito; donde, habitando-o, o príncipe somente com muita dificuldade poderá vir a perdê-lo.
Outro remédio eficaz é instalar colónias num ou dois pontos, que sejam como grilhões postos àquele Estado, eis que é necessário ou fazer tal ou aí manter muita tropa. Com as colónias não se despende muito e, sem grande custo, podem ser instaladas e mantidas, sendo que sua criação prejudica somente aqueles de quem se tomam os campos e as casas para cedê-los aos novos habitantes, os quais constituem uma parcela mínima do Estado conquistado. Ainda, os assim prejudicados, ficando dispersos e pobres, não podem causar dano algum, enquanto que os não lesados ficam à parte, amedrontados, devendo aquietar-se ao pensamento de que não poderão errar para que a eles não ocorra o mesmo que aconteceu àqueles que foram espoliados.
Concluo dizendo que estas colónias não são onerosas, são mais fiéis, ofendem menos e os prejudicados não podem causar mal, tornados pobres e dispersos . Por onde se depreende que os homens devem ser acarinhados ou eliminados, pois eles vingam-se das pequenas ofensas, mas não se podem vingar das grandes; daí decorre que o mal que se fizer ao homem deve ser tal que não se possa temer a vingança.
Mas mantendo, em lugar de colónias, forças militares, gasta-se muito mais, absorvida toda a arrecadação daquele Estado na guarda aí destacada; dessa forma, a conquista transforma-se em perda e ofende muito mais por que danifica todo aquele país com as mudanças do alojamento do exército, incómodo esse que todos sentem e que transforma cada habitante em inimigo: e são inimigos que podem causar dano ao conquistador, pois, os vencidos, ficam em sua própria casa. Sob qualquer ponto de vista essa guarda armada é inútil, ao passo que a criação de colónias é útil.

Deve, ainda, quem se encontre à frente de uma província diferente, como foi dito, tornar-se chefe e defensor dos menos fortes, tratando de enfraquecer os poderosos e cuidando que em hipótese alguma aí penetre um forasteiro tão forte quanto ele. E sempre surgirá quem seja chamado por aqueles que na província se sintam descontentes, seja por excessiva ambição, seja por medo.
E a ordem das coisas é que, tão logo um estrangeiro poderoso penetre numa província, todos aqueles que nela são mais fracos a ele dêem adesão, movidos pela inveja contra quem se tornou poderoso sobre eles; tanto assim é que em relação a estes não se torna necessário grande trabalho para obter seu apoio, pois logo todos eles, voluntariamente, formam bloco com o seu Estado conquistado.
Apenas deve haver o cuidado de não permitir que adquiram eles muito poder e muita autoridade, podendo o conquistador, facilmente, com suas forças e com o apoio dos mesmos, abater aqueles que ainda estejam fortes, para tornar-se senhor absoluto daquela província.
E quem não encaminhar satisfatoriamente esta parte, cedo perderá a sua conquista e, enquanto puder conservá-la, terá infinitos aborrecimentos e dificuldades.

Todo príncipe inteligente deve fazer: não somente vigiar e ter cuidado com as desordens presentes, como também com as futuras, evitando-as com toda a cautela porque, previstas a tempo, facilmente se lhes pode opor correctivo; mas, esperando que se avizinhem, o remédio não chega a tempo, e o mal já então se tornou incurável. Ocorre aqui como no caso do tuberculoso, segundo os médicos: no princípio é fácil a cura e difícil o diagnóstico, mas com o decorrer do tempo, se a enfermidade não foi conhecida nem tratada, torna-se fácil o diagnóstico e difícil a cura. Assim também ocorre nos assuntos do Estado porque, conhecendo com antecedência os males que o atingem (o que não é dado senão a um homem prudente), a cura é rápida; mas quando, por não se os ter conhecido logo, vêm eles a crescer de modo a se tornarem do conhecimento de todos, não mais existe remédio.
Por isso, os romanos remediaram sempre os inconvenientes, pois previram-nos sempre, também. Nunca os deixaram alastrar para evitar uma guerra, porque sabiam, que a guerra não se evita mas apenas se adia em benefício dos outros; por isso mesmo, promoveram a guerra contra Felipe e Antíoco na Grécia, para evitar terem de fazê-la na Itália e, no entanto, podiam ter evitado a luta naquele momento, se o quisessem. Nem em momento algum lhes agradou aquilo que todos os dias está nos lábios dos entendidos de nosso tempo, o desejo de gozar do benefício da contemporização, mas sim apenas aquilo que resultava de sua própria bravura e sabedoria: na verdade o tempo lança à frente todas as coisas e pode transformar o bem em mal e o mal em bem.

É coisa muito natural e comum o desejo de conquistar e, sempre, quando os homens podem fazê-lo, serão louvados ou, pelo menos, não serão censurados; mas quando não têm possibilidade e querem fazê-lo de qualquer maneira, aqui está o erro e, consequentemente, a censura.
(…) O Rei Luís, cometeu estes cinco erros: eliminou os menos fortes; aumentou na Itália o prestígio de um poderoso; aí colocou um estrangeiro poderosíssimo; não veio habitar o país; não instalou colónias. Estes erros, contudo, poderiam não ter causado dano enquanto vivo ele fosse, se não houvesse sido cometido o sexto erro, tomar os territórios aos venezianos. Na verdade, se não tivesse tornado grande a Igreja nem introduzido a Espanha na Itália, seria bem razoável e necessário enfraquecê-los;

Nunca se deve deixar prosseguir uma crise para escapar a uma guerra, mesmo porque dela não se foge mas apenas se adia para desvantagem própria.

Quem é causa do poderio de alguém arruína-se a si próprio, por que esse poder resulta ou da astúcia ou da força e ambas são de temer para aquele que se tornou poderoso.


Os principados de que se conserva memória, têm sido governados de duas formas diversas: ou por um príncipe, sendo todos os demais servos que, como ministros por sua mercê e permissão, ajudam a governar o Estado, ou por um príncipe e por barões, os quais, não pela mercê do príncipe mas por antiguidade de sangue, têm aquele grau de ministros. Estes barões têm Estados e súbditos próprios que os reconhecem por senhores e a eles dedicam natural afeição.
Os Estados que são governados por um príncipe e servos, têm-no com maior autoridade, porque em toda a sua província não existe alguém reconhecido como chefe senão ele, e se os súbditos obedecem a algum outro, fazem-no em razão de sua posição de ministro e oficial, não lhe dedicando o menor amor.
Quem tiver em mira, um e outro desses governos, encontrará dificuldades para conquistar o Estado governado por um príncipe e servos, mas, vencido que seja este, encontrará grande facilidade para conservá-lo, Ao contrário, encontrar-se-á em todos os sentidos maior facilidade para ocupar o Estado governado por um príncipe e barões, mas grande dificuldade para mantê-lo.

As razões da dificuldade em ocupar o reino governado por um príncipe e servos decorrem de não poder o atacante ser chamado por príncipes daquele reino, nem esperar, com a rebelião dos que rodeiam o soberano, poder ter facilitada a sua empresa: é o que resulta das razões referidas. Porque, sendo todos escravos e obrigados, são mais dificilmente corruptíveis e, quando fossem subornados, pouco de útil poder-se-ia esperar, visto não serem eles capazes de arrastar o povo atrás de si. Logo, se alguém assaltar o Estado, governado por um príncipe e servos deve pensar que irá encontrá-lo todo unido, convindo contar mais com as suas próprias forças que com as desordens dos outros. Mas, vencido que seja e uma vez desbaratado em batalha campal de modo que não possa refazer os exércitos, não se deve recear outra coisa senão a dinastia do príncipe; uma vez extinta esta, ninguém mais resta que deva ser temido, já que os demais não gozam de prestígio junto ao povo; e como o vencedor deste nada podia esperar antes da vitória, depois dela não deve receá-lo.

O contrário ocorre nos reinos governado por um príncipe e barões, por que com facilidade pode-se invadi-lo em obtendo o apoio de algum barão do reino, pois que sempre se encontram descontentes e há os que desejam fazer inovações. Estes, pelas razões referidas, podem abrir o acesso àquele Estado e facilitar a vitória. Esta, depois, se desejarem manter-se, arrasta atrás de si infinitas dificuldades, seja com aqueles que ajudaram, seja com os que foram oprimidos. Não é bastante extinguir a linhagem do príncipe, pois permanecem aqueles senhores que se tornam chefes das novas revoluções e, não podendo nem contentá-los nem exterminá-los, perde-se aquele Estado tão logo surja a primeira oportunidade.

Quando aqueles Estados que se conquistam, estão habituados a viver com suas próprias leis e em liberdade, existem três modos de conservá-los: o primeiro, arruiná-los; o outro, ir habitá-los pessoalmente; o terceiro, deixá-los viver com suas leis, arrecadando um tributo e criando em seu interior um governo de poucos, que se conservam amigos, porque, sendo esse governo criado por aquele príncipe, sabe que não pode permanecer sem sua amizade e seu poder, e há que fazer tudo por conservá-los. Querendo preservar uma cidade habituada a viver livre, mais facilmente que por qualquer outro modo se a conserva por intermédio de seus cidadãos.

Na verdade, não existe modo seguro para conservar tais conquistas, senão a destruição. E quem se torne senhor de uma cidade acostumada a viver livre e não a destrua, espere ser destruído por ela, porque a mesma sempre encontra, para apoio de sua rebelião, o nome da liberdade e o de suas antigas instituições, jamais esquecidas seja pelo decurso do tempo, seja por benefícios recebidos. Por quanto se faça e se proveja, se não se dissolvem ou desagregam os habitantes, eles não esquecem aquele nome nem aquelas instituições, e logo, a cada incidente, a eles recorrem.
Mas quando as cidades ou as nações estão acostumadas a viver sob um príncipe, extinta a dinastia, sendo de um lado afeitas a obedecer e de outro não tendo o príncipe antigo, dificilmente chegam a acordo para escolha de um outro príncipe, não sabem, enfim, viver em liberdade: dessa forma, são mais lerdas para tomar das armas e, com maior facilidade, pode um príncipe vencê-las e delas apoderar-se.
Contudo, nas repúblicas há mais vida, mais ódio, mais desejo de vingança; não deixam nem podem deixar esmaecer a lembrança da antiga liberdade: assim, o caminho mais seguro é aniquilá-las ou habitá-las pessoalmente.

Como os homens caminham quase sempre, as estradas abertas por outros, procedendo nas suas ações por imitações, não sendo possível seguir fielmente as trilhas alheias nem alcançar a virtude do que se imita, deve um homem prudente seguir sempre pelas sendas percorridas pelos que se tornaram grandes e imitar aqueles que foram excelentes, isto para que, não sendo possível chegar à virtude destes, pelo menos daí venha a auferir algum proveito; deve fazer como os arqueiros hábeis que, considerando muito distante o ponto que desejam atingir e sabendo até onde vai a capacidade de seu arco, fazem mira bem mais alto que o local visado, não para alcançar com sua flecha tanta altura, mas para poder com o auxílio de tão elevada mira atingir o seu alvo.

No principado completamente novo, onde exista um novo príncipe, encontra-se menor ou maior dificuldade para mantê-lo, segundo seja mais ou menos virtuoso quem o conquiste. E porque o elevar-se de particular a príncipe pressupõe ou virtude ou boa sorte, parece que uma ou outra dessas duas razões mitigue em parte muitas dificuldades; não obstante, tem-se observado, aquele que menos se apoiou na sorte reteve o poder mais seguramente. Gera ainda facilidade o fato de, por não possuir outros Estados, ser o príncipe obrigado a vir habitá-lo pessoalmente.
Os que, por suas virtudes, se tornam príncipes, conquistam o principado com dificuldade, mas com facilidade o conservam; e os obstáculos que se lhes apresentam no conquistar o principado, em parte nascem das novas disposições e sistemas de governo que são forçados a introduzir para fundar o seu Estado e estabelecer a sua segurança.
Deve-se considerar não haver coisa mais difícil para cuidar, nem mais duvidosa a conseguir, nem mais perigosa de manejar, que tornar-se chefe e introduzir novas ordens. Isso porque o introdutor tem por inimigos todos aqueles que obtinham vantagens com as velhas instituições e encontra fracos defensores naqueles que das novas ordens se beneficiam.
 Esta fraqueza nasce, parte por medo dos adversários que têm as leis conformes os seus interesses, parte pela incredulidade dos homens: estes, em verdade, não crêem nas inovações se não as vêem resultar de uma firme experiência.
Donde decorre que a qualquer momento em que os inimigos tenham oportunidade de atacar, o fazem com calor de sectários, enquanto os outros defendem fracamente, de forma que ao lado deles se corre sério perigo.
É necessário, pois, examinar se esses inovadores dependem de outros ou se baseiam sobre forças suas próprias, isto é, se para levar avante sua obra é preciso que roguem, ou se em realidade podem forçar. No primeiro caso, sempre acabam mal e não realizam coisa alguma; mas, quando dependem de si mesmos e podem forçar, então é que raras vezes perigam.

A natureza dos povos é vária, sendo fácil persuadi-los de urna coisa, mas difícil firmá-los nessa persuasão. Convém, assim, estar preparado para que, quando não acreditarem mais, se possa fazê-los crer pela força.

(…) têm grandes dificuldades em conduzir-se e todos os perigos estão no seu caminho, convindo que os superem com o valor pessoal; mas superado que os tenham, quando começam a ser venerados, extintos aqueles que tinham inveja de sua condição, ficam poderosos, seguros, honrados, felizes.

Aqueles que de simples pessoas por sorte se tornam em príncipes, com pouca fadiga assim se transformam, mas só com muito esforço assim se mantêm: não encontram nenhuma dificuldade pelo caminho porque atingem o posto a vôo; mas toda a sorte de dificuldades nasce depois que aí estão. São aqueles aos quais é concedido um Estado, seja por dinheiro, seja por graça do concedente.
Estes estão simplesmente submetidos à vontade e à fortuna de quem lhes concedeu o Estado, que são duas coisas grandemente volúveis e instáveis: e não sabem e não podem manter a sua posição. Não sabem, porque, se não são homens de grande engenho e virtude, não é razoável que, tendo vivido sempre em ambiente de baixa condição, saibam comandar; não podem, porque não têm forças com que possam contar e ser amigas e fiéis.
Além disso, os Estados que surgem rapidamente, como todas as demais coisas da natureza que nascem e crescem depressa, não podem ter raízes e estruturação perfeitas, de forma que a primeira adversidade os extingue; salvo se aqueles que, assim repentinamente se tornaram príncipes, forem de tanta virtude que saibam desde logo preparar-se para conservar aquilo que a fortuna lhes pôs no regaço, formando posteriormente os alicerces que os outros também estabeleceram antes de se tornarem príncipes.
Quem não lança os alicerces primeiro, com uma grande virtude poderá estabelecê-los depois, ainda que se façam com aborrecimentos para o construtor e perigo para o edifício.

 Todo aquele que por fortuna e com as armas dos outros subiram ao poder, no seu principado novo, deve julgar necessário assegurar-se contra os inimigos, adquirir amigos, vencer ou pela força ou pela fraude, fazer-se amar e temer pelo povo, seguir e reverenciar pelos soldados, eliminar aqueles que podem ou têm razões para ofender, ordenar por novos modos as instituições antigas, ser severo e grato, magnânimo e liberal, extinguir a milícia infiel, criar uma nova, manter a amizade dos reis e dos príncipes, de modo que beneficiem de boa vontade ou ofendam com temor.
Na verdade, os homens ofendem ou por medo ou por ódio.

E quem acreditar que nas grandes personagens os novos benefícios façam esquecer as velhas injúrias, engana-se.

Mas, há ainda outros dois modos de subir de humilde condição à de príncipe, que não podem ser atribuídos totalmente à sorte ou à virtude. Estes são, ou quando por qualquer meio pérfido ou criminoso se ascende ao principado, ou quando um cidadão privado torna-se príncipe de sua pátria pelo favor de seus concidadãos.
(…) matar os seus concidadãos, trair os amigos, ser sem fé, sem piedade, sem religião; tais modos podem fazer conquistar poder, mas não glória. (…) sua exacerbada crueldade e desumanidade, com infinitas perversidades, não permitem seja ele celebrado entre os homens mais ilustres.

Poderia alguém ficar em dúvida sobre a razão por que Agátocles e algum outro a ele semelhante, após tantas traições e crueldades, puderam viver longamente, sem perigo, dentro de sua pátria e, ainda, defender-se dos inimigos externos sem que os seus concidadãos contra eles tivessem conspirado, tanto mais notando-se que muitos outros não conseguiram manter o Estado, mediante a crueldade, nos tempos pacíficos e, muito menos, nos duvidosos tempos de guerra. Penso que isto resulte das crueldades serem mal ou bem usadas. Bem usadas pode-se dizer serem aquelas (se do mal for lícito falar bem) que se fazem instantaneamente pela necessidade do firmar-se e, depois, nelas não se insiste mas sim se as transforma no máximo possível de utilidade para os súbditos; mal usadas são aquelas que, mesmo poucas a princípio, com o decorrer do tempo aumentam ao invés de se extinguirem.
Aqueles que observam o primeiro modo de agir, podem remediar sua situação com apoio de Deus e dos homens, como ocorreu com Agátocles; aos outros torna-se impossível a continuidade no poder. Por isso é de notar-se que, ao ocupar um Estado, deve o conquistador exercer todas aquelas ofensas que se lhe tornem necessárias, fazendo-as todas a um tempo só para não precisar renová-las a cada dia e poder, assim, dar segurança aos homens e conquistá-los com benefícios.
 Quem age diversamente, ou por timidez ou por mau conselho, tem sempre necessidade de conservar a faca na mão, não podendo nunca confiar em seus súbditos, pois que estes nele também não podem ter confiança diante das novas e contínuas injúrias.
Portanto, as ofensas devem ser feitas todas de uma só vez, a fim de que, pouco degustadas, ofendam menos, ao passo que os benefícios devem ser feitos aos poucos, para que sejam melhor apreciados.
 Acima de tudo, um príncipe deve viver com seus súbditos de modo que nenhum acidente, bom ou mau, o faça modificar o seu procedimento. Como as dificuldades surgem em épocas adversas, não se está em situação de fazer mal, e, se se faz bem, de nada aproveitará, pois suporão que foi forçado e não ficarão gratos.


Quando um cidadão simpes, não por perfídia ou outra violência execrável, porém com o favor de seus concidadãos, torna-se príncipe de sua pátria, o que se pode chamar principado civil (para tal se tornar, não é necessária muita virtude ou muita sorte, mas antes uma astúcia afortunada) digo que se ascende a esse principado ou com a dignidade do povo ou o favor dos grandes. Porque em todas as cidades se encontram estas duas tendências diversas e isso resulta do fato de que o povo não quer ser mandado nem oprimido pelos poderosos e estes desejam governar e oprimir o povo: é destes dois anseios diversos que nasce nas cidades um dos três efeitos: ou principado, ou liberdade, ou desordem.
O principado provém ou do povo ou dos grandes, conforme uma ou outra destas partes tenha oportunidade: vendo os grandes não lhes ser possível resistir ao povo, começam a emprestar prestígio a um dentre eles e o fazem príncipe para poderem, sob sua sombra, dar expansão ao seu apetite; o povo, também, vendo não poder resistir aos poderosos, volta a estima a um cidadão e o faz príncipe para estar defendido com a autoridade do mesmo.
O que chega ao principado com a ajuda dos grandes mantém-se com mais dificuldade daquele que ascende ao posto com o apoio do povo, pois encontra-se o príncipe com muitos ao redor a lhe parecerem seus iguais e, por isso, não pode nem governar nem manobrar como entender.
 Aquele que chega ao principado com o favor popular, aí encontra-se só e ao seu derredor não tem ninguém ou são pouquíssimos que não estejam prontos para obedecer. Além disso, sem injúria aos outros, não se pode honestamente satisfazer os grandes, mas sim pode-se fazer bem ao povo, eis que o objetivo deste é mais honesto do que o dos poderosos, querendo estes oprimir enquanto aquele apenas quer não ser oprimido.
Contra um povo hostil um príncipe jamais pode estar garantido, por serem muitos; dos grandes, porém, pode-se assegurar porque são poucos. O pior que pode um príncipe esperar do povo hostil é ser por ele abandonado; mas dos poderosos inimigos não só deve temer ser abandonado, como também deve recear que os mesmos lhes caiam em cima, pois que, havendo neles mais visão e maior astúcia, nunca perdem tempo para salvar-se e procuram logo adquirir prestígio junto àquele que esperam venha a vencer.
Acontece ainda que o príncipe tem de viver, obrigatoriamente, sempre com o mesmo povo, mas pode bem viver sem aqueles mesmos poderosos, uma vez que pode fazer e desfazer a cada dia esse seu poderio, dando-lhes ou tirando-lhes reputação, quando lhe aprouver.
E, para melhor esclarecer esta parte, digo que os grandes devem ser considerados em dois grupos principais: ou procedem por forma a se obrigarem totalmente à  sote, ou não do príncipe.
Os que se sujeitam e não pilham, devem ser honrados e amados. Os que não se obrigam devem ser encarados de dois modos:
Se fazem isso por covardia ou por natural defeito de espírito, deverá o príncipe servir-se deles, principalmente dos que são bons conselheiros, porque na prosperidade isso honrará o príncipe e na adversidade não precisará temê-los.
 Mas quando eles, ardilosamente, não se sujeitam por ambição, é sinal que pensam mais em si próprios do que no príncipe: desses deve o príncipe guardar-se temendo-os como se fossem inimigos declarados, porque sempre, na adversidade, ajudarão a arruiná-lo.
 Deve, pois, alguém que se torne príncipe através do favor do povo, conservá-lo amigo, o que se torna fácil, uma vez que não pede ele senão não ser oprimido.
Mas quem se torne príncipe pelo favor dos grandes, contra o povo, deve antes de mais nada procurar aliciar para si o povo, o que se lhe tornará fácil quando assume a proteção do mesmo. E, por que os homens, quando recebem o bem de quem esperavam somente o mal, se obrigam mais ao seu benfeitor, torna-se o povo desde logo mais seu amigo do que se tivesse sido por ele levado ao principado.
Um príncipe é necessário ter o povo como amigo, pois, de outro modo, não terá possibilidades
E não surja alguém para refutar esta minha opinião com aquele provérbio bastante conhecido de que, “quem se apoia no povo firma-se na lama”, porque o mesmo é verdadeiro somente quando um simples cidadão estabelece bases sobre o povo e imagina que o mesmo vá libertá-lo quando oprimido pelos inimigos ou pelos magistrados. Mas sendo um príncipe que se apoie no povo, que possa comandar e seja um homem de coragem, que não esmoreça nas adversidades, não careça de armas e mantenha com seu valor e suas determinações alentado o povo todo, jamais se sentirá por ele enganado e constatará ter estabelecido bons fundamentos.
Amiúde esses principados periclitam quando estão para passar de um governo civil para um governo absoluto, porque esses príncipes ou governam por si mesmos ou por intermédio dos magistrados. Neste último caso a situação dos mesmos é mais fraca e perigosa, porque dependem completamente da vontade dos cidadãos que têm tais dignidades, os quais, principalmente nos tempos adversos, podem tomar-lhes o Estado com grande facilidade, ou  podem contrariar as suas ordens ou não lhes prestar obediência.
 E o príncipe já não pode, nas ocasiões de perigo, assumir a tempo a autoridade absoluta, porque os cidadãos e os súbditos, acostumados a receber as ordens dos magistrados, não estão, naquelas conjunturas, para obedecer às suas determinações, havendo sempre, ainda, nos tempos duvidosos, carência de pessoas nas quais ele possa confiar.
Tal príncipe em épocas duvidosas terá sempre poucos em quem possa confiar. Não pode confiar naquilo que se observa nas épocas de paz, quando os cidadãos precisam do Estado, porque então todos o lisonjeiam, todos lhe fazem promessas e todos querem morrer por ele, visto a morte estar longe; mas na adversidade, no momento em que o Estado tem necessidade dos cidadãos, então poucos são encontrados. E tanto mais é perigosa esta experiência, porque só pode ser feita uma vez. Contudo, um príncipe hábil deve pensar na maneira pela qual possa fazer com que os seus cidadãos sempre e em qualquer circunstância tenham necessidade do Estado e dele mesmo, e estes, então, sempre lhe serão fiéis.

(…) se um príncipe tem Estado tão grande e forte que possa, precisando, manter-se por si mesmo, ou então se tem sempre necessidade da defesa de outrem.
 Para esclarecer melhor esta parte, digo julgar como podendo manter-se por si mesmos aqueles que podem, por abundância de homens e de dinheiro, organizar um exército à altura do perigo a enfrentar e fazer face a uma batalha contra quem venha assaltá-lo, assim como julgo necessitados da defesa de outrem os que não podem defrontar o inimigo em campo aberto, mas são obrigados a refugiar-se atrás dos muros da cidade, guarnecendo-os.
 Relativamente ao segundo, não se pode aduzir algo mais do que exortar tais príncipes a fortificarem e a proverem sua cidade, não se preocupando com o território que a contorna. E quem tiver bem fortificada a sua cidade será sempre assaltado com grande temor, porque os homens são sempre inimigos dos empreendimentos onde vejam dificuldades, e não se pode encontrar facilidade para atacar quem tenha sua cidade forte e não seja odiado pelo povo.
A quem replicasse que, tendo as suas propriedades fora da cidade e vendo-as a arder, o povo não terá paciência e o longo assédio e a piedade de si mesmo o farão esquecer o príncipe, eu responderia que um príncipe poderoso e afoito superará sempre aquelas dificuldades, ora um dia dando aos súbditos esperança de que o mal não será longo, ora no outro dia incutindo temor da crueldade do inimigo, ora assegurando-se com destreza daqueles que lhe pareçam muito temerários. Além disso, é razoável que o inimigo deva queimar o país apenas chegado, nos tempos em que o ânimo dos homens está ainda ardente e voluntarioso na defesa; por isso, o príncipe deve ter pouca dúvida porque, depois de alguns dias, quando os ânimos estão mais frios, os danos já foram causados, os males já foram sofridos e já não há mais remédio; então, os súbditos vêm-se unir ainda mais ao príncipe, parecendo-lhes que este lhes deva obrigação, uma vez que suas casas foram incendiadas e suas propriedades arruinadas para a defesa do mesmo. Sucede assim porque a natureza dos homens deixa-se cativar tanto pelos benefícios que fazem como por aqueles que se recebem. Donde, em se considerando tudo bem, não será difícil a um príncipe prudente conservar firmes, antes e depois do cerco, os ânimos de seus cidadãos, desde que não faltem víveres nem meios de defesa.

Nos principados eclesiásticos, todas as dificuldades existem antes que se os possuam, são adquiridos ou pela virtude ou pela fortuna, e sem uma e outra se conservam, porque são sustentados pelas ordens de há muito estabelecidas na religião;
estes tornam-se tão fortes e de tal natureza que mantêm os seus príncipes sempre no poder, seja qual for o modo por que procedam e vivam.
Só estes possuem Estados e não os defendem; súbditos, e não os governam; os Estados, são indefesos e não lhes são tomados; os súbditos, por não serem governados, não se preocupam, não pensam e nem podem separar-se deles. Somente estes principados, pois, são seguros e felizes.
 Mas, sendo eles dirigidos por razão superior, à qual a mente humana não atinge, deixarei de falar a seu respeito, mesmo porque, sendo engrandecidos e mantidos por Deus, seria obra de homem presunçoso e temerário dissertar a seu respeito. Contudo, se alguém me perguntar donde provém que a Igreja, no poder temporal, tenha chegado a tanta grandeza, pois que antes do Papa Alexandre os potentados italianos, e não apenas aqueles que eram ditos "potentados" mas qualquer barão e senhor, mesmo que sem importância, pouco valor davam ao poder temporal da Igreja, e agora um rei de França treme, ela pode expulsá-lo da Itália e ainda logra arruinar os venezianos, apontarei factos que, a despeito de conhecidos, não me parece supérfluo reavivar em parte na memória.


Os principais fundamentos que os Estados têm, tanto os novos como os velhos ou os mistos, são as boas leis e as boas armas. E, como não pode haver boas leis onde não existam boas armas e onde existam boas armas convém que haja boas leis, deixarei de falar das leis e me reportarei apenas às armas.
Digo, pois, que as armas com as quais um príncipe defende o seu Estado, ou são suas próprias ou são mercenárias, ou auxiliares ou mistas. As mercenárias e as auxiliares são inúteis e perigosas e, se alguém tem o seu Estado apoiado nas tropas mercenárias, jamais estará firme e seguro, porque elas são desunidas, ambiciosas, indisciplinadas, infiéis; galhardas entre os amigos, vis entre os inimigos; não têm temor a Deus e não têm fé nos homens, e tanto se adia a ruína, quanto se transfere o assalto; na paz é-se espoliado por elas, na guerra, pelos inimigos. A razão disto é que elas não têm outro amor nem outra razão que as mantenha em campo, a não ser um pouco de soldo, o qual não é suficiente para fazer com que queiram morrer por ti. Querem muito ser teus soldados enquanto não estás em guerra, mas, quando esta surge, querem fugir ou ir embora.
Quero demonstrar melhor a infeliz qualidade destas tropas. Os capitães mercenários ou são homens excelentes, ou não: se o forem, o príncipe não pode confiar, porque sempre aspirarão à própria grandeza, abatendo o príncipe que é o seu patrão, ou oprimindo os outros contra a vontade do príncipe; mas se não forem grandes chefes, certamente te levarão à ruína.
E, se for respondido que qualquer capitão de armas que detenha as forças nas mãos fará isso, mercenário ou não, responderei dizendo que devem ser usadas por um príncipe ou por uma República. O príncipe deve ir pessoalmente com as tropas e cumprir as atribuições de um bom capitão: a República deve mandar seus cidadãos e, quando enviar um que não se revele valente, deve substitui-lo, quando corajoso deve detê-lo com as leis para que não avance além do limite.
Por experiência vêem-se só príncipes e repúblicas armadas fazerem grandes progressos, enquanto se vêem tropas mercenárias não causarem mais do que danos. Além disso, será muito mais difícil cair sob a tirania um de um seu  dos seus cidadãos uma república munida das suas próprias armas do que outra que esteja protegida por tropas mercenárias ou auxiliares.
Na verdade, destas tropas resultam apenas lentas, tardias e fracas conquistas, mas rápidas e miraculosas perdas.
Tendo a Itália quase toda, chegado a cair nas mãos da Igreja e de algumas repúblicas, não estando aqueles padres e aqueles outros cidadãos habituados ao uso das armas, começaram a aliciar mercenários estrangeiros. O primeiro que deu fama a essa milícia foi Alberico da Conio, natural da Romanha, sendo que de sua escola de armas vieram, dentre outros, Braccio e Sforza, nos seus dias os árbitros da Itália. Depois destes vieram todos os outros que até nossos tempos têm chefiado essas tropas, e o fim do valor das mesmas foi que a Itália viu-se percorrida por Carlos, saqueada por Luís, violentada por Fernando e desonrada pelos suíços.

As tropas auxiliares, que são as outras forças inúteis, são aquelas que se apresentam quando se chama um poderoso para que, com seus exércitos, ele venha ajudar e defender.

Estas tropas auxiliares podem ser úteis e boas para si mesmas, mas, para quem as chame, são quase sempre danosas, eis que perdendo ficas liquidado, vencendo ficas seu prisioneiro.

Assim, aquele que queira não poder vencer, valha-se destas tropas muito mais perigosas do que as mercenárias, eis que com estas a ruína é certa, dado que são todas unidas, todas voltadas à obediência a outrem. As mercenárias, para te prejudicarem após a vitória, contrariamente ao que ocorre com as mistas, precisam de mais tempo e maior oportunidade, não só por não constituírem um todo, como também por terem sido organizadas e pagas por vós; ainda, um terceiro um chefe, não pode desde logo assumir tanta autoridade que vos cause dano. Enfim, enquanto nas tropas mercenárias o mais perigoso é a covardia, nas auxiliares é o valor.

Um príncipe prudente, portanto, sempre tem fugido a essas tropas para voltar-se às suas próprias forças, preferindo perder com as suas a vencer com aquelas, eis que, em verdade, não representaria vitória aquela que fosse conquistada com as armas alheias.
Enfim, as armas de outrem, ou te caem de cima, ou te pesam ou te constrangem.
Mas a pouca prudência dos homens muitas vezes começa uma coisa que lhe parece boa, sem se aperceber do veneno que ela encobre.

Aquele que num principado não conhece os males logo no início, não é verdadeiramente sábio, o que é dado a poucos.

E, se se considerar o início da ruína do Império Romano, ver-se-á ter ela resultado do simples começo de aliciamento dos godos, eis que foi daí que começaram a declinar as forças do Império Romano e todo aquele valor que se lhe tirava era atribuído a eles. Concluo, pois, que, sem ter armas próprias, nenhum principado está seguro; ao contrário, fica ele totalmente sujeito à sorte, não havendo virtude que o defenda na adversidade.
As forças próprias são aquelas que se constituem de súbditos, de cidadãos ou de criaturas tuas; todas as outras são ou mercenárias ou auxiliares.

Deve, um príncipe não ter outro objetivo nem outro pensamento, nem tomar qualquer outra coisa por fazer, senão a guerra e a sua organização e disciplina, pois que é essa a única arte que compete a quem comanda. E é ela de tanta virtude, que não só mantém aqueles que nasceram príncipes, como também muitas vezes faz os homens de condição privada subirem àquele posto; ao contrário, vê-se que, quando os príncipes pensam mais nas delicadezas do que nas armas, perdem o seu Estado. A primeira causa que te faz perder o governo é negligenciar dessa arte, enquanto que a razão que te permite conquistá-lo é o ser professo da mesma.
Em verdade, entre outros males que te acarreta o estares desarmado, ele te torna vil.
Entre um príncipe armado e um desarmado, não existe proporção alguma, e não é razoável que quem esteja armado obedeça com gosto ao que seja desprovido de armas, nem que o desarmado se sinta seguro entre servidores armados, eis que, existindo desdém de parte de um e suspeita do lado do outro, não é possível que ajam bem, estando juntos.
Um príncipe que não entende de tropas, além de outros prejuízos, sofre de não poder ser estimado pelos seus soldados e nem poder neles confiar.
Deve o príncipe, não desviar um momento sequer o seu pensamento do exercício da guerra, o que pode fazer por dois modos: um com a ação, o outro com a mente, Quanto à ação, além de manter bem organizadas e exercitadas as suas tropas, deve estar sempre em caçadas para acostumar o corpo às fadigas e, em parte, para conhecer a natureza dos lugares e saber como surgem os montes, como embocam os vales, como se estendem as planícies, e aprender a natureza dos rios e dos pântanos, pondo muita atenção em tudo isso. Esses conhecimentos são úteis por duas razões: primeiro, aprende-se a conhecer o próprio país e pode-se melhor identificar as defesas que ele oferece; depois, em decorrência do conhecimento e prática daqueles sítios, com facilidade poderá entender qualquer outra região que venha a ter de observar; do conhecimento do terreno de uma província, pode-se passar facilmente ao de outras. O príncipe que seja falto dessa perícia, está desprovido do elemento principal de que necessita um capitão, pois ela ensina a encontrar o inimigo, estabelecer os acampamentos, conduzir os exércitos, ordenar as jornadas, fazer incursões pelas terras com vantagem sobre o inimigo.
(…) ouvia as opiniões, dava a sua corroborando-a com argumentos, de maneira tal que, em razão dessas contínuas cogitações, jamais poderia, comandando os exércitos, encontrar pela frente algum imprevisto para o qual não tivesse solução.
Mas, quanto ao exercício da mente, deve o príncipe ler as histórias e nelas observar as ações dos grandes homens, ver como se conduziram nas guerras, examinar as causas de suas vitórias e de suas derrotas, para poder fugir às responsáveis por estas e imitar as causadoras daquelas; deve fazer, sobretudo, como, em tempos idos, fizeram alguns grandes homens que imitaram todo aquele que antes deles foi louvado e glorificado, e sempre tiveram em si os gestos e as ações do mesmo.
Um príncipe inteligente deve observar essa semelhança de proceder, nunca ficando ocioso nos tempos de paz, mas sim, com habilidade, procurar acumular um capital que possa utilizá-lo na adversidade, a fim de que, quando mudar a fortuna, se encontre preparado para resistir.

Em verdade, há tanta diferença de como se vive e como se deveria viver, que aquele que abandone o que se faz por aquilo que se deveria fazer, aprenderá antes o caminho de sua ruína do que o de sua preservação, pois que um homem que queira em todas as suas palavras fazer profissão de bondade, perder-se-á em meio a tantos que não são bons. Donde é necessário, a um príncipe que queira se manter, aprender a poder não ser bom e usar ou não da bondade, segundo a necessidade.
Os príncipes por se encontrarem em mais alta condição, quando analisados, se fazem notar por alguns daqueles atributos que lhes acarretam ou reprovação ou louvor. Assim é que alguns são havidos como liberais, alguns sovinas; alguns são tidos como pródigos, alguns gananciosos; alguns cruéis, alguns piedosos; um fedífrago, o outro fiel; um efeminado e pusilânime, o outro feroz e corajoso; um humano, o outro soberbo; um lascivo, o outro casto; um simples, o outro astuto; um duro, o outro fácil; um grave, o outro leviano; um religioso, o outro incrédulo, e assim por diante.
Sei que seria sumamente louvável encontrarem-se num príncipe, apenas aqueles que são considerados bons; mas, desde que não os podem possuir nem inteiramente observá-los em razão da condição humana não o permitirem, é necessário que seja o príncipe tão prudente que saiba fugir à infâmia daqueles vícios que o fariam perder o poder, cuidando evitar até mesmo aqueles que não chegariam a pôr em risco o seu posto;
Que não evite o príncipe de incorrer na censura dos vícios, sem os quais, não pode facilmente conservar o Estado; pois, se bem considerado for tudo, sempre se encontrará alguma coisa que, parecendo virtude, praticada acarretará ruína, e alguma outra que, com aparência de vício, seguida dará origem à segurança e estabilidade.

Liberal/ parcimonioso
A liberalidade, usada para que se torne conhecida de todos, prejudica-te, porque, se usada com medida e como deve ser, ela não se torna conhecida e não conseguirás tirar de cima de ti a má fama do seu contrário; porém, querendo manter entre os homens o nome de liberal, é preciso não esquecer nenhuma espécie de magnificências, de forma tal que um príncipe assim procedendo consumirá em coisas semelhantes todas as suas finanças e terá necessidade de, no fim, se quiser manter o conceito de liberal, agravar extraordinariamente o povo de impostos, ser duro no fisco e fazer tudo aquilo de que possa se utilizar para obter dinheiro. Isso começará a torná-lo odioso perante o povo e, empobrecendo-o, fá-lo-á pouco estimado de todos; de forma que, tendo ofendido a muitos e premiado a poucos com essa sua liberalidade, sente mais intensamente qualquer revés inicial e periclita face ao primeiro perigo. Percebendo isso e querendo recuar, o príncipe incorre desde logo na má fama de somítico.
Um príncipe, pois, não podendo usar essa qualidade de liberal sem sofrer dano, tornando-a conhecida, deve ser prudente, deve não se preocupar com a em lhe chamarem somítico, pois que, com o decorrer do tempo, será considerado sempre mais liberal, uma vez vendo o povo que com sua parcimónia a receita lhe basta, pode defender-se de quem lhe mova guerra e tem possibilidade de realizar empreendimentos sem gravar o povo; assim agindo, vem a usar liberalidade para com todos aqueles dos quais nada tira, que são numerosos, e a empregar a sovinice para com todos os outros a quem não dá, que são poucos.
Portanto, um príncipe deve gastar pouco para não precisar roubar os seus súbditos, para poder defender-se, para não ficar pobre e desprezado, para não ser forçado a tornar-se rapace, não se importando de incorrer na fama de somítico (ou parcimonioso), porque esse é um daqueles defeitos que o fazem reinar.
E se alguém replicasse que houve muitos príncipes, tidos como extremamente liberais, que realizaram grandes feitos com seus exércitos, responderia: ou o príncipe gasta do seu, ou de seus súbditos, ou de outrem; no primeiro caso, deve ser parcimonioso; nos outros, não deve deixar de praticar nenhuma magnificência.
E aquele príncipe que vai com os exércitos, que se mantém de rapinagem, de saques e de resgates, maneja bens de outros, tem necessidade dessa liberalidade porque, de contrário, não será seguido pelos soldados.
 E, daquilo que não é teu nem de súbditos teus, podes ser o mais generoso doador, pois que o despender aquilo que é dos outros não te tira reputação, ao contrário, a aumenta; somente o gastar o teu é que te prejudica. E não há coisa que tanto se destrua a si mesma como a liberalidade, pois, enquanto tu a usas, perdes a faculdade de utilizá-la, tornando-te pobre e desprezado ou, para fugir à pobreza, rapace e odioso.
Dentre todas as coisas de que um príncipe se deve guardar está o ser desprezado e odiado, e a liberalidade te conduz a uma e a outra dessas coisas. Portanto, é mais sabedoria ter a fama de somítico, que dá origem a uma infâmia sem ódio, do que, por querer o conceito de liberal, ver-se na necessidade de incorrer no julgamento de ganacioso, que cria uma má fama com ódio.

Crueldade/ Clemência
Ser amado/ Ser temido

Digo que cada príncipe deve desejar ser tido como piedoso e não como cruel: não obstante isso, deve ter o cuidado de não usar mal essa piedade.
Um príncipe não deve, temer a má fama de cruel, desde que por ela mantenha seus súbditos unidos e leais, pois que, com mui poucos exemplos, ele será mais piedoso do que aqueles que, por excessiva piedade, deixam acontecer as desordens das quais resultam assassínios ou rapinagens: porque estes costumam prejudicar a comunidade inteira, enquanto aquelas execuções que emanam do príncipe atingem apenas um indivíduo.
 E, dentre todos os príncipes, é ao novo que se torna impossível fugir à pecha de cruel, visto serem os Estados novos cheios de perigos.
O príncipe, contudo, não deve crer nem agir levianamente, não se deixar invadir por o medo e proceder por forma equilibrada, com prudência e humanidade, buscando evitar que a excessiva confiança o torne incauto e a demasiada desconfiança o faça intolerável.
Nasce daí uma questão: se é melhor ser amado que temido ou o contrário. A resposta é de que seria necessário ser uma coisa e outra; mas, como é difícil reuni-las, em tendo que faltar uma das duas é muito mais seguro ser temido do que amado.
 Isso porque dos homens pode-se dizer, geralmente, que são ingratos, volúveis, simuladores, tementes do perigo, ambiciosos de ganho; e, enquanto lhes fizeres bem, são todos teus, oferecem-te o próprio sangue, os bens, a vida, os filhos, desde que, a necessidade esteja longe de ti; quando esta se avizinha, porém, revoltam-se.
E o príncipe que confiou inteiramente em suas palavras, encontrando-se destituído de outros meios de defesa, está perdido: as amizades que se adquirem por dinheiro, e não pela grandeza e nobreza de alma, são compradas mas com elas não se pode contar e, no momento oportuno, não se torna possível utilizá-las.
E os homens têm menos escrúpulo em ofender a alguém que se faça amar do que a quem se faça temer, posto que a amizade é mantida por um laço de obrigações que, por serem os homens maus, é quebrado em cada oportunidade de melhor proveito;
mas o temor é mantido pelo receio de castigo que jamais se abandona. Deve o príncipe, não obstante, fazer-se temer de forma que, se não conquistar o amor, fuja ao ódio, mesmo porque podem muito bem coexistir o ser temido e o não ser odiado: isso conseguirá sempre que se abstenha de tomar os bens e as mulheres de seus cidadãos e de seus súbditos e, em se lhe tornando necessário derramar o sangue de alguém, faça-o quando existir conveniente justificativa e causa manifesta.
Deve, sobretudo, abster-se dos bens alheios, posto que os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do património.
 De resto, nunca faltam motivos para justificar as expropriações, e aquele que começa a viver de rapinagem sempre encontra razões para apossar-se dos bens alheios, ao passo que as razões para o derramamento de sangue são mais raras e esgotam-se mais depressa.
Quando o príncipe está à frente de seus exércitos e tem sob seu comando uma multidão de soldados, então é de todo necessário não se importar com a fama de cruel, eis que, sem ela, jamais se conservará exército unido e disposto a alguma empresa.
(…) disse haver muitos homens que melhor sabiam não errar do que corrigir os erros.
Concluo, pois, voltando à questão de ser temido e amado, que um príncipe sábio, amando os homens como a eles agrada e sendo por eles temido como deseja, deve apoiar-se naquilo que é seu e não no que é dos outros; deve apenas empenhar-se em fugir ao ódio, como foi dito.

Honrar a palavra
Quando seja louvável em um príncipe o manter a fé (da palavra dada) e viver com integridade, e não com astúcia, todos compreendem; contudo, vê-se nos nossos tempos, pela experiência, alguns príncipes terem realizado grandes coisas a despeito de terem tido em pouca conta a fé da palavra dada, sabendo pela astúcia transtornar a inteligência dos homens; no final, conseguiram superar aqueles que se firmaram sobre a lealdade.
Deveis saber, então, que existem dois modos de combater: um com as leis, o outro com a força. O primeiro é próprio do homem, o segundo, dos animais; mas, como o primeiro modo muitas vezes não é suficiente, é preciso recorrer ao segundo. Portanto, a um príncipe torna-se necessário saber bem empregar o animal e o homem.
Um príncipe precisa saber usar uma e outra dessas naturezas: uma sem a outra não é durável. Necessitando um príncipe, pois, saber bem empregar o animal, deve deste tomar como modelos a raposa e o leão, eis que este não se defende dos laços e aquela não tem defesa contra os lobos. É preciso, portanto, ser raposa para conhecer os laços e leão para aterrorizar os lobos. Aqueles que agem apenas como o leão, não conhecem a sua arte. Logo, um senhor prudente não pode nem deve guardar a sua palavra, quando isso seja prejudicial aos seus interesses e quando desapareceram as causas que o levaram a empenhá-la.
Se todos os homens fossem bons, este preceito seria mau; mas, porque são maus e não respeitariam a palavra que te dessem, não há razão para que a cumpras para com eles.
Jamais faltaram a um príncipe razões legítimas para justificar a sua quebra da palavra. Disto poder-se-ia dar inúmeros exemplos modernos, mostrar quantas pazes e quantas promessas foram tornadas írritas e vãs pela infidelidade dos príncipes; e aquele que, com mais perfeição, soube agir como a raposa, saiu-se melhor. Mas é necessário saber bem disfarçar esta qualidade e ser grande simulador e dissimulador: tão simples são os homens e tão obedientes às necessidades do momento, que aquele que engana sempre encontrará quem se deixe enganar.
A um príncipe, portanto, não é essencial possuir todas as qualidades enumeradas, mas é bem necessário parecer possuí-las. Antes, ousarei dizer que, possuindo-as e usando-as sempre, elas são danosas, enquanto que, aparentando possuí-las, são úteis; por exemplo: parecer piedoso, fiel, humano, íntegro, religioso, e sê-lo realmente, mas estar com o espírito preparado e disposto de modo que, precisando não sê-lo, possas e saibas tornar-te o contrário.
Deve-se compreender que um príncipe, e em particular um príncipe novo, não pode praticar todas aquelas coisas pelas quais os homens são considerados bons, uma vez que, frequentemente, é obrigado, para manter o Estado, a agir contra a fé, contra a caridade, contra a humanidade, contra a religião. Porém, é preciso que ele tenha um espírito disposto a voltar-se segundo os ventos da sorte e as variações dos factos o determinem e, não apartar-se do bem, podendo, mas saber entrar no mal, se necessário.
Um príncipe, portanto, deve ter muito cuidado em não deixar escapar de sua boca nada que não seja repleto das cinco qualidades, para parecer, ao vê-lo e ouvi-lo, todo piedade, todo fé, todo integridade, todo humanidade, todo religião; e nada existe mais necessário de ser aparentado do que esta última qualidade. É que os homens em geral julgam mais pelos olhos do que pelas mãos, porque a todos cabe ver mas poucos são capazes de sentir.
Todos vêem o que tu aparentas, poucos sentem aquilo que tu és; e esses poucos não se atrevem a contrariar a opinião dos muitos que, aliás, estão protegidos pela majestade do Estado; e, nas ações de todos os homens, em especial dos príncipes, onde não existe tribunal a que recorrer, o que importa é o sucesso das mesmas.
Procure, pois, um príncipe, vencer e manter o Estado: os meios serão sempre julgados honrosos e por todos louvados, porque o vulgo sempre se deixa levar pelas aparências e pelos resultados, e no mundo não existe senão o vulgo; os poucos não podem existir quando os muitos têm onde se apoiar. Algum príncipe dos tempos atuais, que não convém nomear, não prega senão a paz e fé, mas de uma e outra é ferrenho inimigo; uma e outra, se ele as tivesse praticado, ter-lhe-iam por mais de uma vez tolhido a reputação ou o Estado.

De como se deva evitar o ser DESPREZADO e ODIADO
Que o príncipe pense em fugir àquelas circunstâncias que possam torná-lo odioso e desprezível; sempre que assim proceder, terá cumprido o que lhe compete e não encontrará perigo algum nos outros defeitos.
Odioso o tornará, acima de tudo, o ser ganancioso e usurpador dos bens e das mulheres dos súditos, do que se deve abster; e, desde que não se tirem nem os bens nem a honra à universalidade dos homens, estes vivem felizes e somente se terá de combater a ambição de poucos, o que se refreia por muitos modos e com facilidade.
Desprezível o torna ser considerado volúvel, leviano, efeminado, pusilânime, irresoluto, do que um príncipe deve guardar-se como da peste, empenhando-se para que nas suas ações se reconheça grandeza, coragem, seriedade e força; com relação às intrigas particulares dos súbditos, deve querer que a sua sentença seja irrevogável; deve manter-se em tal conceito que ninguém possa pensar em enganá-lo ou traí-lo.
O príncipe que dá de si esta opinião é assaz reputado e, contra quem é reputado, só com muita dificuldade se conspira; dificilmente é atacado, desde que se considere excelente e seja reverenciado pelos seus.
 Na verdade, um príncipe deve ter dois temores:
 um de ordem interna, de parte de seus súbditos, o outro de natureza externa, de parte dos potentados estrangeiros. Destes se defende com boas armas e bons amigos; e sempre que tenha boas armas terá bons amigos.
A situação interna, desde que ainda não perturbada por uma conspiração, estará segura sempre que esteja estabilizada a externa; mesmo quando esta se agite, se o príncipe se organizou e viveu…, desde que não desanime, resistirá a qualquer impacto.
Mas, a respeito dos súbditos, quando os negócios externos não se agitam, deve-se temer que conspirem secretamente, contra o que o príncipe se assegura firmemente fugindo de ser odiado ou desprezado e mantendo o povo com ele satisfeito;
Um dos mais poderosos remédios de que um príncipe pode dispor contra as conspirações é não ser odiado pela maioria, porque sempre, quem conjura, pensa com a morte do príncipe satisfazer o povo, mas, quando considera que com isso irá ofendê-lo, não se anima a tomar semelhante partido, mesmo porque as dificuldades com que os conspiradores têm de se defrontar são infinitas.
Por experiência vê-se que muitas foram as conspirações mas poucas tiveram bom fim, pois quem conspira não pode ser sozinho, nem pode ter por companheiros senão aqueles que acredite estarem descontentes; mas, logo que se tenha revelado a um descontente a intenção, dá-se-lhe motivo para ficar contente, pois se ele for delator pode daí esperar todas as vantagens; de forma que, vendo o ganho certo de um lado, sendo o outro dúbio e cheio de perigo, é preciso que ele seja ou um extraordinário amigo ou implacável inimigo do príncipe para manter a palavra empenhada.
Para reduzir o assunto a termos breves, digo que do lado do conspirador não existe senão medo, ciúme, suspeita de castigo que o atordoa; mas, do lado do príncipe, existe a majestade do principado, as leis, as barreiras dos amigos e do Estado que o defendem; consequentemente, e somada a tais fatores a benevolência popular, é impossível que exista alguém tão temerário que venha a conspirar. Isso porque, geralmente, onde um conspirador teme antes da execução do mal, se tiver o povo por inimigo, deve temer ainda mesmo depois de ocorrido o facto, não podendo por isso esperar qualquer amparo.
Concluo, portanto, que um príncipe deve dar pouca importância às conspirações se o povo lhe é benévolo; mas quando este lhe seja adverso e o tenha em ódio, deve temer tudo e a todos.
Os Estados bem organizados e os príncipes hábeis têm com toda a diligência procurado não desesperar os grandes e satisfazer o povo conservando-o contente, mesmo porque este é um dos mais importantes assuntos de que um príncipe tenha de tratar.
Os príncipes devem atribuir a outrem as coisas odiosas, reservando para si aquelas de graça. Novamente concluo que um príncipe deve estimar os grandes, mas não se fazer odiado pelo povo.
Enquanto nos outros principados tem-se de lutar apenas contra a ambição dos grandes e a insolência do povo, os imperadores romanos encontravam uma terceira dificuldade, aquela de terem de suportar a crueldade e a ambição dos soldados. Esta terceira dificuldade era de tal forma séria que se tornou a causa da ruína de muitos, pois é difícil satisfazer ao mesmo tempo os soldados e o povo: este amava a paz e, por isso, estimava os príncipes moderados, enquanto que os soldados amavam o príncipe de ânimo militar, que fosse insolente, cruel e rapace, querendo que o mesmo exercesse tais violências contra as populações para poder ter, assim, duplicado soldo e expansão à sua rapacidade e crueldade.
Tais fatos fizeram com que aqueles imperadores que, por natureza ou por engenho, não desfrutavam uma grande reputação de forma a poder manter freados um e outros, sempre se arruinassem.
(…) porque, não podendo o príncipe deixar de ser odiado por alguém, deve primeiro buscar não ser odiado por qualquer classe social; mas, quando não pode conseguir isto, deve empenhar-se em, por todos os meios, evitar o ódio daquelas classes que são mais poderosas.
Deve-se notar aqui que o ódio se adquire tanto pelas boas como pelas más ações: como já disse acima, querendo um príncipe conservar o Estado, frequentemente é forçado a não ser bom, pois quando aquele elemento mais forte, povo, soldados ou grandes, de que julgas necessitar para manter-te, é corrompido, convém que sigas o seu desejo para satisfazê-lo; então, as boas obras tornam-se tuas inimigas.

(…) assassinatos, decorrentes da deliberação de um espírito obstinado, são impossíveis de evitar por parte dos príncipes, porque todo aquele que não tema morrer pode golpeá-los. Todavia, o príncipe pouco deve temer, porque tais mortes são raras. Deve apenas cuidar de não fazer grave injúria a algum daqueles de que se serve e que tem ao seu derredor no serviço do principado.
Digo que os príncipes dos nossos tempos têm a menos, nos seus governos, a dificuldade de satisfazer extraordinariamente os soldados, pois que, não obstante se deva ter para com os mesmos alguma consideração, isso resolve-se (…) agora é necessário a todos os príncipes, satisfazer mais ao povo que aos militares, porque aquele pode mais que estes.
Para conservar a segurança do Estado, alguns príncipes desarmaram os seus súbditos, outros mantiveram divididas as terras submetidas, alguns nutriram inimizades contra si mesmos, outros dedicaram-se a conquistar o apoio daqueles que lhes eram suspeitos no início de seu governo, alguns construíram fortalezas, outros as arruinaram e destruíram.
Jamais existiu um príncipe novo que desarmasse os seus súbditos, mas, antes, sempre que os encontrou desarmados, armou-os; isto porque, armando-os, essas armas passam a ser tuas, tornam fiéis aqueles que te são suspeitos, os que eram fiéis assim se conservam e de súbditos tornam-se teus partidários. E, porque não se pode armar todos os súbditos, beneficiados os que armas, com os outros podes tratar mais seguramente; essa diversidade de tratamento que reconhecem em seu favor torna-os obrigados para contigo e os outros desculpar-te-ão, julgando ser necessário que tenham aqueles mais recompensas por estarem sujeitos a maiores perigos e maiores obrigações.
Mas quando os desarmas, começas a ofendê-los, mostras deles duvidar, ou por vileza ou por desconfiança uma ou outra destas opiniões concebe ódio contra ti. E, por não poderes ficar desarmado, torna-se necessário que te voltes à milícia mercenária, e quando fosse boa, não poderia sê-lo por forma a defender-te dos inimigos poderosos e dos súbditos suspeitos.

Mas, quando um príncipe conquista um novo Estado que, como membro, se agrega ao antigo, então é necessário desarmar o conquistado, salvo aqueles que, nele, foram teus partidários na conquista; estes mesmos, com o tempo e a oportunidade, devem ser tornados amolecidos e efeminados, procedendo-se de modo que as armas fiquem somente em poder dos teus próprios soldados, daqueles que, no Estado antigo, estavam junto de ti.

(…) em algumas regiões por conquistadas, mantinham as discórdias entre os partidos para dominá-las mais facilmente (…) o que não acredito pudessem as divisões, alguma vez, acarretar qualquer benefício; ao contrário, quando o inimigo se avizinha, as cidades divididas, necessariamente, perdem-se logo, eis que sempre a parte mais fraca aderirá às forças externas e a outra não poderá resistir.
Tais atitudes revelam fraqueza do príncipe, eis que em um principado poderoso jamais serão permitidas semelhantes divisões, úteis somente em tempo de paz, eis que por elas pode-se mais facilmente manejar os súditos; mas, sobrevindo a guerra, tal sistema demonstra sua falácia.
Sem dúvida alguma, os príncipes tornam-se grandes quando superam as dificuldades e as oposições que lhes são antepostas; porém a sorte, (principalmente quando quer tornar grande um príncipe novo, que tem mais necessidade de adquirir reputação do que um hereditário), faz nascer-lhe inimigos e determina que lhe sejam opostos embaraços, a fim de que ele tenha oportunidade de superá-los e, assim, possa subir mais alto pela escada que os inimigos lhe oferecem.
 Por isso, muitos pensam que um príncipe hábil deve, quando tenha ocasião, incentivar com astúcia alguma inimizade para, eliminada esta, continuar a ascensão de sua grandeza.
 Os príncipes, particularmente aqueles que são novos, têm encontrado mais lealdade e maior utilidade nos homens que no início de seu governo foram considerados suspeitos, do que nos que inicialmente eram da sua confiança.
Os homens que no início de um principado haviam sido inimigos, sendo de condição que para manterem-se precisam de apoio, o príncipe poderá sempre com grande facilidade vir a conquistá-los; e eles tanto mais são forçados a servi-lo com lealdade, quanto reconheçam ser-lhes necessário cancelar com obras aquela má opinião que, a seu respeito, se fazia.
Assim, o príncipe deles obtém sempre maior utilidade do que daqueles que, servindo-o com excessiva segurança, descuram de seus interesses com a negligência da tranquilidade.
Já que o assunto torna oportuno, não quero deixar de recordar aos príncipes que tomaram um Estado novo pelo favor de alguns dos habitantes do mesmo deverem considerar bem qual a razão que determinou que assim agissem os que o favoreceram; se a mesma não é por afeição natural em relação aos príncipes  mas sim, se o apoio decorreu do fato de não estarem satisfeitos com o Estado anterior, só com fadiga e grande dificuldade se poderá conservá-los amigos, dado que é quase impossível possam vir a ser contentados.
E, considerando bem os exemplos que se extraem das coisas antigas e modernas, em razão disso, ver-se-á ser muito mais fácil ao príncipe tornar amigos aqueles homens que se contentavam com o regime antigo e, portanto, eram seus inimigos,do que aqueles que, por descontentes, fizeram-se seus amigos e o favoreceram na conquista.

As fortalezas são úteis ou não, segundo os tempos; se te fazem bem por um lado, prejudicam-te por outro. Pode-se explicar esta afirmativa pela forma a seguir exposta.
O príncipe que tiver mais temor de seu povo do que dos estrangeiros, deve construir as fortalezas; mas aquele que sentir mais medo dos estrangeiros que de seu povo, deve abandoná-las.
A melhor fortaleza que possa existir é o não ser odiado pelo povo: mesmo que tenham fortificações elas de nada valem se o povo te odeia, eis que a este, quando tome das armas, nunca faltam estrangeiros que o socorram.
Louvarei tanto os que fizerem como os que não fizerem as fortalezas e censurarei aquele que, fiando-se nas fortificações, venha a subestimar o facto de ser odiado pelo povo.

Nada faz estimar tanto um príncipe como concluir com êxito grandes e magnânimas empresas e dar exemplos dignos de ficarem na memória.
Muito apraz a um príncipe dar de si exemplos raros na forma de comportar-se com os súbditos (…) quando surge a oportunidade de alguém ter realizado alguma coisa extraordinária de bem ou de mal na vida civil, encontrar um novo meio de premiá-lo ou puni-lo por forma que seja bastante comentada, Acima de tudo, um príncipe deve empenhar-se em dar de si, com cada ação, conceito de grande homem e de inteligência extraordinária.
Um príncipe é estimado, ainda, quando verdadeiro amigo ou verdadeiro inimigo, isto é, quando sem hesitar se revela em favor de um, contra outro. Esta atitude é sempre mais útil do que ficar neutro, eis que, se dois poderosos vizinhos teus entrarem em luta, ou são de qualidade que vencendo um deles tenhas a temer o vencedor, ou não. Em qualquer um destes dois casos será sempre mais útil o definir-te e fazer guerra digna, porque no primeiro caso se não te definires serás sempre presa do que vencer, com prazer e satisfação do que foi vencido, e não terás razão ou coisa alguma que te defenda nem quem te receba. O vencedor não quer amigos suspeitos ou que não o ajudem nas adversidades; quem perde não te socorrerá por não teres querido correr a sua sorte de armas em punho.
Sempre acontecerá que aquele que não é amigo procurará tua neutralidade e aquele que é amigo pedirá que te definas com as armas. Os príncipes irresolutos, para fugir aos perigos presentes, seguem na maioria das vezes o caminho da neutralidade e, geralmente, caem em ruína. Mas, quando o príncipe se define galhardamente em favor de uma das partes, se aquele a quem aderes vence, mesmo que seja tão poderoso que venhas a ficar á sua discrição, ele tem obrigação para contigo e está ligado a ti pela amizade; e os homens nunca são tão desonestos que, com tamanha prova de ingratidão, possas vir a ser oprimido. Além disso, as vitórias nunca são tão brilhantes que o vencedor não deva ter qualquer consideração, principalmente para com o que é justo.
Mas, se aquele a quem aderes perder, serás amparado por ele e, enquanto puder, ajudar-te-á e ficarás associado a uma fortuna que poderá ressurgir.

Quando aqueles que lutam são de classe que não precisas temer o vencedor, ainda maior prudência é aderir, pois causas a ruína de um com a ajuda do outro, que o deveria ter evitado, se fosse sábio; vencendo, o teu aliado fica à tua mercê, e é impossível que não vença com o teu auxílio.
Note-se aqui que um príncipe deve ter a cautela de jamais fazer aliança com um mais poderoso que ele para atacar os outros, senão quando a necessidade o compelir, porque, vencendo, torna-se seu prisioneiro; e os príncipes devem fugir o quanto possam de ficar à discrição dos outros.

 Nem julgue algum Estado poder adotar sempre partidos seguros, devendo antes pensar a ser obrigado a tomar, frequentemente, partidos duvidosos; vê-se na ordem das coisas que nunca se procura fugir a um inconveniente sem incorrer em outro e a prudência consiste em saber conhecer a natureza desses inconvenientes e tomar como bom o menos prejudicial.
Deve, ainda, um príncipe mostrar-se amante das virtudes, dando oportunidade aos homens virtuosos e honrando os melhores numa arte. Ao mesmo tempo, deve animar os seus cidadãos a exercer pacificamente as suas atividades no comércio, na agricultura e em qualquer outra ocupação, de forma que o agricultor não tema ornar as suas propriedades por receio de que as mesmas lhe sejam tomadas, enquanto o comerciante não deixe de exercer o seu comércio por medo das taxas;
Deve, além disso, instituir prémios para os que quiserem realizar tais coisas e os que pensarem em por qualquer forma engrandecer a sua cidade ou o seu Estado.
 Ademais, deve, nas épocas convenientes do ano, distrair o povo com festas e espetáculos. E, porque toda cidade está dividida em corporações de artes ou grupos sociais, deve cuidar dessas corporações e desses grupos, reunir-se com eles algumas vezes, dar de si prova de humanidade e magnificência, mantendo sempre firme, não obstante, a majestade de sua dignidade, pois que esta não deve faltar em coisa alguma.

Não é de pouca importância para um príncipe a escolha dos ministros, os quais são bons ou não, segundo a prudência daquele. E a primeira conjectura que se faz da inteligência de um senhor, resulta da observação dos homens que o cercam; quando são capazes e fiéis, sempre se pode reputá-lo sábio, porque soube reconhecê-los competentes e conservá-los. Mas, quando não são assim, sempre se pode fazer mau juízo do príncipe, porque o primeiro erro por ele cometido reside nessa escolha.
São de três espécies as inteligências, uma que entende as coisas por si própria, a que compreende quando lhe ensinam e a terceira que não entende nem por si própria nem por intermédio dos outros, a primeira excelente, a segunda  boa e a terceira inútil
Toda a vez que alguém tem a capacidade de conhecer o bem e o mal que uma pessoa faça ou diga, mesmo que por si próprio não tenha capacidade para solucionar os problemas, discerne as más e as boas obras do seu ministro, recompensa estas e corrige aquelas. E o ministro compreende que não pode enganá-lo, pelo que segue o bom caminho.
 Mas, para que um príncipe possa conhecer o ministro, existe um método que não falha: Quando vires o ministro pensar mais em si do que em ti, e que em todas as ações procura o seu interesse próprio, podes concluir que este jamais será um bom ministro e nele nunca poderás confiar; aquele que tem o Estado de outrem em suas mãos não deve pensar nunca em si, mas sim e sempre no príncipe, não lhe recordando nunca coisa que não seja da sua competência. Por outro lado, o príncipe, para conservá-lo bom ministro, deve pensar nele, honrando-o, fazendo-o rico, obrigando-se-lhe, fazendo-o participar das honrarias e cargos, a fim de que veja que não pode ficar sem sua proteção, e que as muitas honras não o façam desejar mais honras, as muitas riquezas não o façam desejar maiores riquezas e os muitos cargos o façam temer as mudanças. Quando, pois, os ministros, e os príncipes com relação àqueles, estão assim preparados, podem confiar um no outro; quando não for assim, o fim será sempre danoso ou para um ou para o outro.

Não quero deixar de tratar de um ponto importante, de um erro do qual os príncipes só com muita dificuldade se defendem, se não são de extrema prudência ou se não fazem boa escolha. Refiro-me aos aduladores, dos quais as cortes estão repletas, dado que os homens se comprazem tanto nas suas coisas próprias e têm ideias tão lisonjeiras a seu respeito, que com dificuldade se defendem desta peste e, querendo defender-se, há o perigo de tornar-se menosprezado.
Não há outro meio de guardar-se da adulação, a não ser fazendo com que os homens entendam que não te ofendem dizendo a verdade; mas, quando todos podem dizer-te a verdade, passam a faltar-te com a reverência.
Portanto, um príncipe prudente deve proceder por uma terceira maneira, escolhendo em seu Estado homens sábios e somente a eles deve dar a liberdade de falar-lhe a verdade daquilo que ele pergunte e nada mais. Deve consultá-los sobre todos os assuntos e ouvir as suas opiniões; depois, de liberar por si, a seu modo, e, com estes conselhos e com cada um deles, portar-se de forma que todos compreendam que quanto mais livremente falarem, tanto mais facilmente serão aceitas suas opiniões.
 Fora aqueles, não querer ouvir ninguém, seguir a deliberação adotada e ser resoluto nas suas decisões.
Quem procede por outra forma, ou se deixa perder pelos aduladores, ou muda frequentemente de opinião pela variedade dos pareceres; daí resulta a sua desestima.
Um príncipe, portanto, deve aconselhar-se sempre, mas quando ele queira e não quando os outros desejem; antes, deve tolher a todos o desejo de aconselhar-lhe alguma coisa sem que ele venha a pedir. Mas deve ser grande perguntador e, depois, acerca das coisas perguntadas, paciente ouvinte da verdade; antes, notando que alguém por algum respeito não lhe diga a verdade, deve mostrar aborrecimento.
 Há muitos que entendem que certo príncipe tem a fama de ser sábio, seja assim considerado não pela sua natureza, mas pelos bons conselhos que o rodeiam, porém, sem dúvida alguma, estão enganados, pois que esta é uma regra geral que nunca falha: um príncipe que não seja sábio por si mesmo, não pode ser bem aconselhado, a menos que por acaso confiasse em um só que de todo o governasse e fosse homem de extrema prudência.
 Este caso poderia bem acontecer, mas duraria pouco, porque aquele que efectivamente governasse, em pouco tempo lhe tomaria o Estado; mas, aconselhando-se com mais de um, um príncipe que não seja sábio, não terá nunca os conselhos uniformes e não saberá por si mesmo harmonizá-los. Cada conselheiro pensará por si e ele não saberá corrigi-los nem inteirar-se do assunto.
E não é possível encontrar conselheiros diferentes, porque os homens sempre serão maus se a necessidade os obriga a ser bons.
Consequentemente se conclui que os bons conselhos, venham de onde vierem, devem nascer da prudência do príncipe, e não a prudência do príncipe resultar dos bons conselhos.

As coisas já referidas, observadas prudentemente, fazem um príncipe novo parecer antigo e logo o tornam mais seguro e mais firme no Estado do que se aí fosse um príncipe antigo. Porque um príncipe novo é muito mais observado nas suas ações do que um hereditário; e, quando estas são reconhecidas como virtuosas, atraem mais fortemente os homens e os ligam a si muito mais que a tradição do sangue. Porque os homens são levados muito mais pelas coisas presentes do que pelas passadas e, quando nas presentes encontram o bem, ficam satisfeitos e nada mais procuram. Antes, assumirão toda a defesa do príncipe, desde que não falte à palavra nas outras coisas. Assim, terá a dupla glória de ter dado início a um principado novo e de tê-lo ornado e fortalecido com boas leis, boas armas e bons exemplos;
 Por outro lado, aquele que, tendo nascido príncipe, veio a perder o Estado por sua pouca prudência, terá duplicada a sua vergonha.

(…) pois, não tendo nunca, nos tempos pacíficos, pensado que estes poderiam mudar (o que é defeito comum dos homens na bonança não se preocupar com a tempestade) quando chegaram os tempos adversos preocuparam-se em fugir e não em defender-se, esperando que as populações, cansadas da insolência dos vencedores, os chamassem de volta.
Esse partido é bom quando os outros falham, mas é um erro ter deixado fugir outros meios e remédios confiado nesse. Ninguém se deve deixar cair apenas por acreditar encontrar alguém que o levante; isso não acontece ou, se acontecer, não será para tua segurança, dado que aquela defesa torna-se vil se não depender de ti.
 As defesas somente são boas, certas e duradouras quando dependem de ti próprio e da tua virtude.

Julgo poder ser verdade que a sorte seja o árbitro da metade das nossas ações, mas que ainda nos deixe governar a outra metade, ou quase.
Comparo-a a um desses rios torrenciais que, quando se encolerizam, alagam as planícies, destroem as árvores e os edifícios, carregam terra de um lugar para outro; todos fogem diante dele, tudo cede ao seu ímpeto, sem poder opor-se em qualquer parte. E, se bem que assim ocorra, isso não impedia que os homens, quando a época era de calma, tomassem providências com anteparos e diques, de modo que, crescendo depois, ou as águas corressem por um canal, ou o seu ímpeto não fosse tão desenfreado nem tão danoso.
Da mesma forma acontece com a sorte, a qual demonstra o seu poderio onde não existe virtude preparada para resistir e, aí, volta seu ímpeto em direção ao ponto onde “sabe” que não foram construídos diques e anteparos para contê-la.
Penso que isto seja suficiente quanto ao que tinha a dizer acerca da oposição que se pode antepor à sorte em geral.
Mas, restringindo-me mais ao particular, digo por que se vê um príncipe hoje em franco e feliz progresso e amanhã em ruína, sem que tenha mudado sua natureza ou as suas qualidades; isso resulta, segundo creio, que o príncipe que se apoia totalmente na sorte arruína-se segundo as variações desta. Creio, ainda, seja feliz aquele que acomode o seu modo de proceder com a natureza dos tempos, da mesma forma que penso seja infeliz aquele que, com o seu proceder, entre em choque com o momento que atravessa.
Isso decorre de ver-se que os homens, naquilo que os conduz ao fim que cada um tem por objetivo, isto é, glórias e riquezas, procedem por formas diversas: um com cautela, o outro com ímpeto, um com violência, o outro com astúcia, um com paciência e o outro por forma contrária; e cada um, por esses diversos meios, pode alcançar o objetivo.
Vê-se, ainda, de dois indivíduos cautos, um alcançar o seu objetivo, o outro não, e da mesma maneira, dois deles alcançarem igualmente fim feliz com duas tendências diversas, sendo, por exemplo, um cauteloso e o outro impetuoso; isso resulta apenas da sorte do momento que se coaduna ou não ao proceder dos mesmos. Daí decorre aquilo que eu disse, isto é, que dois indivíduos agindo por formas diversas podem alcançar o mesmo efeito, ao passo que de dois que operem igualmente, um alcança o seu fim e o outro não.
Da mesma causa depende o carácter mutável do êxito, porque, se alguém se orienta com prudência e paciência e os tempos e as situações se apresentam de modo a que a sua orientação seja boa, ele alcança a felicidade; mas, se os tempos e as circunstâncias se modificam, ele se arruína, visto não ter mudado seu modo de proceder.
Nem é possível encontrar homem tão prudente que saiba acomodar-se a isso, seja porque não pode se desviar daquilo a que a natureza o inclina, seja ainda porque, tendo alguém prosperado seguindo sempre por um caminho, não se consegue persuadi-lo de abandoná-lo. Por isso, o homem cauteloso, quando é tempo de passar para o ímpeto, não sabe fazê-lo e, em consequência, cai em ruína, dado que se mudasse de natureza de acordo com o vento e os negócios, a sua fortuna não se modificaria.
Concluo, pois, que variando a sorte e permanecendo os homens obstinados nos seus modos de agir, serão felizes enquanto aquela e estes sejam concordes e infelizes quando surgir a discordância. Considero que seja melhor ser impetuoso do que dotado de cautela, porque a fortuna é mulher e consequentemente se torna necessário, querendo dominá-la, bater-lhe e contrariá-la; e ela mais se deixa vencer por estes do que por aqueles que procedem friamente. A sorte, porém, como mulher, sempre é amiga dos jovens, porque são menos cautelosos, mais afoitos e com maior audácia a dominam.


Titio Lívio escreveu:
Iustum enim est bellum quibus necessarium, et pia arma ubi nulla nisi in armis spes est. ( É justa a guerra feita por aqueles a quem é necessária, e as armas são santas desde que não haja outra esperança anão ser nelas.

Deus não quer fazer tudo, para não nos tolher o livre arbítrio e parte daquela glória que compete a nós.
Não há coisa que cause tanta honra ao homem que de novo medra, como as novas leis e os novos regulamentos por ele elaborados. Tais coisas, quando são bem fundados e em si encerrem grandeza, tornam-no digno de reverência e admiração.


A todos repugna este bárbaro domínio. Tome, portanto, a vossa ilustre casa esta incumbência com aquele ânimo e com aquela esperança com que se abraçam as causas justas, a fim de que, sob sua insígnia, esta pátria seja nobilitada e sob seus auspícios se verifique aquele dito de Petrarca: Virtude contra Furor Tomará Armas; e Faça o Combater Curto Que o Antigo Valor Nos Itálicos Corações Ainda não é Morto.