quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
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Link para baixar os textos do livro "Palavras que se cravam na carne" de António Peneda
Palavras Que Se Cravam Na Carne de António Peneda
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segunda-feira, 20 de outubro de 2014
terça-feira, 25 de março de 2014
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Séneca- Medeia
E tu,
estrela, que anuncias dois momentos do dia e que regressas sempre tarde para os
que se amam: por ti anseiam as mães, ardentemente por ti anseiam as noivas que
difundas quanto antes os teus raios de luz.
Ama
Cala-te,
peço-te, e enterra os queixumes bem fundo na tua dor. Todo aquele que suportou
feridas profundas em silêncio e com um espírito paciente e resignado está apto
a restituí-las: o que é malfazejo é a ira dissimulada; o ódio que se declara
não encontra ocasião para a vingança.
Medeia
Ligeira é a
dor que consegue agir racionalmente e esconder-se em si. Os grandes males não
ficam na sombra. Quero atacar!
Ama
Contém esse
ímpeto desenfreado, filha. Mesmo a quietude do silêncio dificilmente te
protege.
Medeia
A fortuna
tem medo dos fortes; aos cobardes, oprime-os.
Ama
A coragem só
merece louvor, quando se lhe oferece ocasião.
Medeia
Nunca pode
faltar ocasião para a coragem.
Ama
Não há
esperança alguma então que aponte uma saída para a tua aflição.
Medeia
Quem já
perdeu a esperança não tem por que desesperar.
Ama
Está longe a
o teu país, a fidelidade do teu marido é nenhuma, e nada te resta de tão
grandes riquezas.
Medeia
Resta
Medeia; nela vês mar e terra e ferro e fogo e deuses e relâmpagos!
Uma realeza
injusta nunca dura muito tempo.
Quem decide
o que quer que seja sem ouvir a outra parte, mesmo que decida com justiça, não
é justo.
Quão difícil é desviar da
cólera um espírito já por ela inflamado e quão próprio de todo o rei que
empunha um ceptro com mãos arrogantes é continuar a caminhar pela via que
encetou.
Para quem é
pérfido nenhum tempo é curto para prejudicar.
Os nossos
pais viveram em tempos magníficos dos quais o embuste estava bem arredado. Cada
um ficava tranquilamente nos seus litorais e chegava à velhice nos campos
ancestrais, rico com pouco; não conhecia senão as riquezas que o solo pátrio
produzia.
Se procuras
saber que limite hás-de impor ao teu ódio, ó desditosa, copia o teu amor.
Um amor
verdadeiro não há-de temer ninguém.
Só terei
descanso quando vir o universo desabar em ruínas juntamente comigo: que tudo desapareça
comigo. É agradável arrastar outrem, quando se perece.
Jasão
Não é grata
a vida daquele que se envergonha de a ter aceitado.
Medeia
Não a deve
conservar quem se envergonha de a ter aceitado.
Jasão
Apavoram-me
os altivos ceptros.
Medeia
Zela por não
os ambicionares.
A serenidade
modera o infortúnio.
Ataca onde
não há a possibilidade de alguém ter medo seja do que for.
Nem a
violência da chama nem a do vento intumescido nem a do dardo lançado
ameaçadoramente é tão grande como quando uma esposa desapossada dos fachos
nupciais se inflama e manifesta ódio…
É cego o
fogo atiçado pela ira: não procura controlar-se, não suporta freios e não
receia a morte; anseia por enfrentar as próprias espadas.
Caminho já
trilhado não se paga caro.
Coro
Por que
embuste foram apanhados?
Mensageiro
Por aquele
que costuma vencer os reis: as dádivas.
Coro
E que
traição nelas podia existir? (…)
Entrega-te à
ira, desperta desse torpor e, selvática, das profundezas do teu coração exaure
por completo os antigos impulsos. Todo o mal que cometeste até hoje chame-se
piedade. Vamos!
A ira
rechaça a piedade, e a piedade, a ira: cede ao afecto, angústia.
Terêncio- O Eunuco
Fédria:
Que devo
fazer, então? Nao ir a casa dela, nem mesmo agora quando ela me mandou chamar,
por sua livre vontade? Ela me expulsou e agora me chama de volta: devo voltar?
Não, a menos que ela me implore.
Mas, se eu
começar e não persistir com empenho… se vier a casa dela, mesmo sem ter feito
as pazes, mostrando-lhe que a amo e que não lhe posso resistir, a coisa está
feita, está tudo acabado, fico perdido. Ela zombara de mim quando perceber que
fui vencido.
Assim, eu
reflita mais e mais enquanto é tempo.
Parmenão:
Patrão, uma
coisa que não tem em si nem prudência nem moderação, você não pode governá-la
pela prudência. No amor estão presentes todos estes vícios: injúrias, suspeitas,
inimizades, tréguas, guerra e paz novamente. Se você pretende tornar certas
pela razão essas coisas incertas não faça mais nada a não ser que você se
esforce para enlouquecer com a razão. E é isto que agora seguramente você está
pensando, irado consigo mesmo: “Eu a... ela que o... que me... que não! Sem
dúvida, porém, prefiro morrer! Ela perceberá que homem sou eu!”
Por
Hércules, uma única lagriminha falsa, que ela terá extraído com muito custo
esfregando os olhos com força, destruirá estas palavras e, além disso, ela te
acusará, e mais, você vai se oferecer ao suplício!
Fédria:
Oh! Crime
indigno! Agora percebo que ela é uma criminosa e eu um infeliz. Isto me
aborrece, mas, ao mesmo tempo, ardo de amor, estou morrendo consciente, vivo e
vendo, e não sei o que fazer.
Parmenão:
O que fazer?
Nada a não ser resgatar-se da escravidão pelo menor preço que puder. Se você
não puder por pouquinho, pelo quanto puder. E não se aflija.
Fédria:
É assim que
você me aconselha?
Parmenão:
Se você for
sensato, não acrescente desgostos além dos que o próprio amor já tem, e mesmo
aqueles que já tem, suporte-os bem. Mas ei-la em pessoa saindo, a ruína de
nossos fundos. Pois o que nos cabe conservar, ela nos subtrai.
As coisas
verdadeiras que ouvi, calo e guardo em segredo muito bem. Se são falsas, infundadas
ou inventadas, de imediato elas se tornam evidentes: sou cheio de fendas, deixo
escapar aqui e ali. Portanto, se você quer que me cale, deve dizer a verdade.
Há uma
espécie de homens que querem ser os melhores em tudo e não são. Procuro esses.
Não me ofereço a eles como alvo de chacotas, mas, ao contrário, rio com eles e
ao mesmo tempo admiro a inteligência deles. Louvo o que quer que digam; se, ao
invés, negam isso, louvo também. O que negam nego, o que afirmam, afirmo. Enfim
eu impus a mim mesmo concordar com tudo. Esta profissão agora é muitíssimo
vantajosa.
Parmenão:
Estamos
cometendo um crime.
Quérea:
Acaso é um
crime se eu for levado para a casa de uma cortesã e àquelas cruzes, que tomam
posse de nós e de nossa juventude da qual não fazem caso e que sempre nos
torturam de todas as maneiras, e agora mostre minha gratidão e as engane do
mesmo modo que somos enganados por elas? …
Parmenão:
Se está
decidido a fazer, faça. Mas depois não coloque a culpa em mim.
Muitas
vezes, quem tem sal toma para si por suas palavras a glória obtida com grande
esforço pelos outros. Isso você tem.
Parmenão:
O que você
diz, Gnatão? Acaso você tem alguma coisa para desdenhar? E você, Trasão? Calaram-se:
muito o elogiam.
Eu um
covarde? Nenhum homem que viva é menos.
É burrice
aceitar o que você pode evitar.
Conheço o génio
das mulheres: quando você quer, elas não querem, quando você não quer, é aí que
elas se interessam.
(…) eu ter
descoberto como um rapazinho pode a bom tempo tomar conhecimento do caráter e
dos costumes das meretrizes, para que, ao ser informado, tome ódio pelo resto
da vida.
Elas que
enquanto estão fora de casa, nada parece mais asseado, mais afeiçoado a quem
quer que seja, nem mais elegante, que quando ceiam com seu amante beliscam a
comida.
Ver a
imundície, a falta de classe e a pobreza delas, o quanto são desprezíveis e
esfomeadas quando estão sós em casa, como devoram pão preto à sopa amanhecida,
saber tudo isso é a salvação do rapazinho.
Plauto. Aululari ( A Comédia da Panela)
Irmã, se tu
queres que eu me case, estou disposto também a fazê-lo, com esta condição: ela
chega amanhã e no dia seguinte levam-na para fora de casa. Se é com estas
condições que tu achas bem, então podes vir e preparar o casamento.
Quem depois
de certa idade um homem casa com mulher de meia-idade, e já velho emprenha a
velha, só pode ter um nome para a criança. Sabes qual é? Póstumo.
Não me
importo nada com os grandes luxos, as honras, os dotes faustosos, as
aclamações, o poder, os carros de grande pompa, o vestuário, a púrpura, que
levam os outros homens à servidão
por aquilo que custam.
(…)Isto
parece promessa, mas é pedido. Está ardendo por me devorar o dinheiro. Dum lado
trás a pedra e do outro lado me mostra pão. Não creio em nenhum rico que venha
com tanta generosidade e tanta delicadeza para um pobre. Quando estende a mão
com bondade é porque nela traz alguma rede. Eu bem conheço estes polvos que
prendem tudo aquilo que tocam.
Não há
ninguém que a pobreza tenha feito mais avarento do que a ele.
(…) tu és um
homem rico e poderoso e eu sou um homem pobre, paupérrimo. Se eu casasse
contigo minha filha, estou eu cá a pensar que tu ficarias como boi e eu como
burro; andaríamos jungidos um ao outro e como eu não poderia suportar a mesma
carga, lá ficaria eu deitado como um burro no meio da lama. Tu, como boi,
tratar-me-ias com desprezo, como se eu não fosse gente. Irias ser duro comigo e
não me havia de faltar a troça dos da minha igualha. Depois, se houver qualquer
diferença entre nós, não terei estábulo estável a que me acolher. Os burros
vão-me despedaçar à dentada e os bois vão-me atacar à cornada. É muito perigoso
para eu passar da classe dos burros para a dos bois.
Homens são
assim! Se um rico pede alguma coisa a um pobre, o pobre tem medo de se
comprometer e, por medo, procede mal. E só depois de perder a oportunidade é
que ele se arrepende.
É uma
estupidez e não tem graça nenhuma proceder bem quando é inútil o que se faz.
Contei a
muitos amigos esta minha resolução de casamento; todos louvam a filha de
Euclião e dizem que foi uma resolução avisada e de boa cabeça. Ora, se os
outros ricos fizessem o mesmo com as filhas dos pobres e, mesmo sem dote, se
casassem com elas, não só a cidade viveria em maior paz, como haveria à nossa
volta muito menos inveja do que há. Elas ter-nos-iam mais respeito do que nos
têm e nós faríamos menos despesas do que as que fazemos. Seria ótimo para a
maior parte do povo e só prejudicaria alguns que são ávidos e insaciáveis e que
nem leis, nem magistrados seriam capazes de reter. Naturalmente, dirá alguém,
com quem se casariam então as que são ricas e têm dote, se se estabelece tal
direito para os pobres? Que se casem com quem quiserem, contanto que o dote não
vá com elas. Se isto fosse assim elas levariam, em lugar do dote de agora,
melhores costumes.
Aquela que
não tem dote está sob o domínio do marido. As que têm dote dão cabo dos maridos
com danos e perdas.
Sou eu o
mais desgraçado de todos quantos vivem na terra! Para que preciso eu agora de
vida, em que perdi um tesouro que guardei com tanto cuidado. Roubei-me a mim
próprio, roubei a minha alma, roubei o meu espírito! Agora outros gozam com
ele, para meu mal e prejuízo! Não posso suportá-lo!
Todo o homem
que confessa a sua culpa tem sempre o valor suficiente para se envergonhar e se
desculpar.
A todos a natureza jurou livres e
todos por natureza pensam na liberdade. O pior de todos os males, a pior de
todas as desgraças é a servidão.
O nosso tempo produziu donos
demasiado avarentos… pobres no meio das maiores riquezas e sedentos no seio do
vasto oceano. Não lhes chegam bens nenhuns…
…a nossa época não é muito de boa fé.
Escrevem-se documentos, vêm dez testemunhas, o notário aponta a data e o lugar.
No entanto há sempre um advogado pronto a negar o que se fez.
Sempre pensei que não ter dinheiro
era péssimo para todos, moços, homens e velhos. A indigência obriga os moços a
prostituir-se, os homens a roubar, e os velhos a pedir esmola. Mas é muito pior
o que vejo agora: ter muito mais dinheiro do que aquilo que é necessário.
Plauto- Anfitrião
(…)E não
convém impetrar injustiça por parte dos justos. Impetrar dos injustos justiça,
por sua vez, é falta de juízo, uma vez que os injustos ignoram a justiça e nem
se atêm a ela.
(…)Este faz
uma coisa que as pessoas geralmente não costumam fazer: ele sabe o que merece.
(…) ele vai
receber-me, que estou a chegar, com uma hospitalidade de punhos!
Quando o
supremo general não está junto de seu exército, faz-se mais rapidamente o que
não tem utilidade ser feito do que o que é necessário ser feito
Na vida e no
passar dos anos, não é coisa bem pequena o prazer em comparação com o que é
desagradável? Assim foi programado cada aspecto da vida humana, assim é a
vontade dos deuses: que a tristeza, tal como uma companheira, acompanhe o
prazer; se algo de bom cabe a alguém,
isso não acontece sem que haja ali inconvenientes e mais males. Pois agora eu experimento
isso pessoalmente e o sei por mim própria, a quem o prazer foi dado por pouco
tempo; somente durante uma noite tive a possibilidade de ver meu marido. Mas
repentinamente ele partiu daqui, para longe de mim, antes de amanhecer. Agora
parece que estou sozinha aqui, porque ele, que eu amo acima de todos, está
ausente daqui. Obtive mais infelicidade com a partida de meu marido que prazer com sua
chegada.
A virtude é
uma excelente recompensa; a virtude é realmente superior a todas as coisas.
Liberdade, segurança, vida, bens e antepassados, pátria e filhos são por ela
protegidos, bem guardados. A virtude tem tudo em si; quem tem o controle de sua
virtude tem todos os bens perto de si.
Com as
palavras é que você é virtuosa!
Com o passar
dos anos, muitas coisas acontecem para os homens deste modo: conseguem-se
prazeres, conseguem-se depois misérias; sobrevêm discórdias, fazem depois as
pazes.
Na verdade,
tendo tais discórdias por acaso ocorrido, se as pessoas depois fazem as pazes,
há entre elas duas vezes mais amor que antes!
tradução do Anfitrião plautino Lilian Nunes da Costa
Editora Mercado de Letras quanto a
agência de fomento FAPESP
Editora Mercado de Letras quanto a
agência de fomento FAPESP
Plauto- O Mercador
Todos estes
vícios juntos costumam acompanhar o amor: cuidado, inquietação e excessiva
elegância; essa, não atinge só quem ama, mas qualquer pessoa e a castiga com sólida e duradoura
preocupação; sem dúvida, ninguém se entregou à elegância sem grandes sofrimentos,
além daqueles que já padece.
Mas, ao amor
juntam-se também estes males, de que ainda não falei: a insónia, a atribulação,
a indecisão e junto com isso, o terror e a fuga; a loucura, até a estupidez e o
despropósito, a louca irreflexão, o excesso, a petulância e o desejo, a
malevolência; ligam-se a isso, ainda, a cobiça, a desídia, a injustiça, a privação,
a ofensa e a perda, o muito falar e o pouco falar: isto acontece porque o que
não diz respeito a isso, ou sequer tem utilidade, o amante manifesta, às vezes,
na hora inadequada.
Falo com
poucas palavras por esta razão: porque nenhum amante é tão habilmente eloquente, que possa falar o que existe em
sua situação.
(…)o pai
assim dizia:
“É para você
que você ara, para você revolve a terra, para você semeia, da mesma forma é
para você que você colherá, é para você enfim, que este trabalho gerará
alegria”
Diga-me, por
acaso em algum lugar, existe algum bem que se possa ou se queira gozar, sem que venha acompanhado de um
mal, ou que não dê trabalho?
Você castiga
com carinho.
(…) meu
pobre coração, que se consome gota a gota, como se dissolvesse o sal em água
(…)
Depois que a
vi morri de amores por ela, não como costumam amar os homens sensatos, mas como
costumam amar os insensatos (…) na verdade, uma coisa eu já sei: estou perdido!
Quando se é
velho, já não se sente nem se sabe; dizem que se costuma voltar a ser criança.
De.
(…)Mas será
que eu ousaria falar com você com sinceridade?
Li.
Sim, com
ousadia.
De.
Preste
atenção!
Li.
Estou a
prestar.
De.
Hoje comecei
a ir à escola primária. Já aprendi três letras, Lisímaco.
Li.
Que três
letras?
De.
A-M-O.
Li.
Você ama com
a cabeça branca, velho imprestável?
De.
Se é branca,
vermelha ou preta, eu amo.
Se vocês
nunca viram, um dia, pintada, a figura de um apaixonado, ei-la aqui. Pois, na
minha opinião, um velhinho, um ancião decrépito é igual a um quadro pintado
numa parede.
Quando a dor
vence a volúpia, o que é agradável?
É necessário
que todos os sábios se ocupem primeiro com a coisa solicitada.
Ao calado,
você ordena.
Está
decidido, retomarei os costumes de antes e servirei a mim. Já é breve o tempo
restante de vida: pois, eu me deleitarei com prazer, vinho e amor. Na verdade,
é bastante justo alguém ter o bem nesta idade. Quando se é jovem, enquanto o
sangue está novo, convém preocupar-se; com as coisas desejadas. Pois, enfim,
quando se está já velho, então no ócio se assentar, enquanto é possível amar;
isso já é lucro quando se está vivo.
(…) Acho que
agora você fala de maneira sábia e não amorosamente.
Não sou eu,
por acaso, um homem miserável, que em nenhum lugar pode ficar bem? Se estou em
casa, meu espírito está fora, se estou fora, meu espírito está em casa. Pois o
amor cria um incêndio no meu peito e no meu coração. Se as lágrimas dos olhos
não a defendessem, minha cabeça já estaria ardendo em brasa. Conservo a
esperança, perdi a saúde, se voltará ou não, não sei.
Falar muito
é odioso, quando a coisa certa é agir.
Ca.
Que
aparência diziam ter, Eutico?
Eu.
Eu direi a
você: envelhecido, corcunda, barrigudo, com boca grande, pequeno, com olhos
denegridos, mandíbulas oblongas, com pernas um pouco abertas.
Ca.
Não é um
homem, mas um tesouro de males que você menciona.
Está a
mentir. Prontamente justifica.
As pobres mulheres vivem sob uma lei dura e
muito mais injusta do que os homens. Pois, se um marido, às escondidas de sua
esposa, mantém uma prostituta, se a esposa descobre isso, o homem fica impune;
uma esposa, se sai fora do lar às escondidas do marido, torna-se para o marido
motivo para terminar o casamento.
Oxalá que a
lei fosse a mesma para a esposa e o marido, pois a esposa que é boa contenta-se
com um único marido; por que um homem não se contentaria com uma só esposa?
Se os homens
fossem castigados da mesma forma, se algum mantivesse uma prostituta, às
escondidas da esposa, da mesma forma que elas são repudiadas se cometem a
falta, mais maridos estariam sem cônjuge do que as esposas agora.
Aqueles que
são de boa família, se têm má índole, por sua própria culpa colhem o dano, e
por sua índole desmentem a família.
Da mesma
forma, como as estações do ano, em cada idade convém uma atitude.
Plauto- O Truculento (O Brutamontes)
Aqui mora
uma mulher chamada Fronésio. Ela possui em si os costumes deste nosso tempo:
nunca reclama aos seus amantes o que estes já lhe deram, mas, quanto ao que
lhes resta, esforça-se por que nada lhes reste, pedindo e arrebanhando, como é
costume das mulheres. Na verdade todas procedem assim, quando sentem que são
amadas.
Uma vida
inteira não é suficiente para um amante aprender satisfatoriamente, se é que o
aprende, de quantos modos pode arruinar-se. E nunca a própria Vénus, sob cujo
poder estão os mais importantes assuntos dos amantes, fará essa conta: de
quantas formas o amante pode ser enganado, de quantos modos pode ser arruinado,
com quantas súplicas pode ser amaciado.
Quantas
lisonjas aí há, quantas birras aí há! Quanta sobranceria! Ó deuses, a vossa bondade, ai!
Quanto tem
que se perder, já sem contar com as prendas. Em primeiro lugar, o sustento de
um ano: esse é o primeiro golpe. Em troca dele, concedem-se três noites ao
amante. De permeio, fala-se ou num
altar, ou em vinho, ou em azeite, ou em trigo. Está a sondar se és generoso ou
agarrado aos teus bens. Tal como o pescador que lança a rede para o viveiro —
logo que a rede vai ao fundo, puxa a linha e, se o peixe tiver entrado na rede,
trata de não o deixar escapar cercando o peixe com a rede por todos os lados até
o tirar para fora —, assim sucede com o amante. Se ele dá o que lhe é pedido e
é mais generoso do que agarrado aos seus bens, concedem-se-lhe mais algumas
noites; durante esse tempo ele morde o isco. Mal ele experimentou uma taça de
amor puro e essa bebida penetrou até às suas entranhas, imediatamente se
arruinou a si próprio, aos seus bens e à sua reputação.
Se acaso uma
puta se irrita com o amante, o amante arruína-se duplamente: nos seus bens e ao
mesmo tempo no coração.
Se, pelo
contrário, um se entrega ao outro, também fica arruinado: se obtém poucas
noites, sofre no seu coração; se se torna mais assíduo, sente-se feliz por si
próprio, mas os bens arruínam-se.
É assim nas
casas de lenocínio. Ainda lhe não deste um único presente, ela já está a
pedir-te um cento: ou foi uma jóia de ouro que desapareceu, ou uma mantilha que
se rasgou, ou comprou uma serva ou algum vaso de prata, ou um vaso de bronze,
ou algum leito de pedra, ou uns pequenos armários gregos ou ... há sempre qualquer
coisa, de perda que o amante deve à sua
puta.
E, enquanto
arruinamos os nossos bens, a nossa reputação e a nós próprios, nós ocultamos
isso, em segredo, com o maior cuidado, não venham os nossos pais e os nossos
familiares a sabê-lo.
Se, em vez
de nos escondermos, nos confiássemos a eles, para que a tempo refreassem a
nossa juventude, a fim de entregarmos a herdeiros futuros os bens herdados dos
nossos antepassados, eu suponho que haveria, aqui muito menos, chulos e putas e
menos homens gastadores do que existem presentemente.
De facto,
hoje em dia há quase mais chulos e putas do que moscas em plena canícula. Com
efeito, como se não houvesse outro lugar, o número de putas e chulos que
acampam todos os dias em volta das mesas dos banqueiros é incalculável. Pois
estou seguro de que há lá, agora, mais putas do que pesos de balanças. Eu não
sei dizer com que finalidade eles permanecem junto dos banqueiros, a não ser
para servir de tabuinhas onde se fazem os registos dos dinheiros relativos a
juros — refiro-me aos dinheiros recebidos, não vá alguém pensar em dinheiros
gastos.
(…) num
grande povo implica distinções: meretrix ‘meretriz, cortesã, puta fina’,
scortum ‘rameira, puta’ ...
Quanto a
mim, (mostrando a casa de Fronésio)
aqui esta meretriz que tem Fronésio como nome próprio, expulsou do meu
espírito, por completo, a querida Sabedoria.
É que phronesis em grego significa
“sabedoria”. Na verdade, eu confesso que fui o seu amante favorito e íntimo, o
que é muitíssimo mau para a fortuna de um amante. Ela, depois que encontrou um
outro que lhe dava mais, mais gastador, logo me tirou daí e colocou nesse lugar
aquele que ela, anteriormente, na sua malvadez, dizia que lhe era odioso: um
soldado de Babilónia!
Astáfio
(criada)
Parece-me
que és um homem desocupado demais.
Diniarco
Porque tens
essa impressão?
Astáfio
Porque,
vestido e alimentado à tua custa, te ocupas de assuntos alheios.
Diniarco
Vocês
meretrizes é que me causaram a desocupação.
Astáfio
Como é isso,
por favor?!
Diniarco
Eu vou explicar.
Arruinei os meus bens em vossa casa. Vocês afastaram-me da minha ocupação. Se
eu tivesse conservado os meus bens, tinha em que estar ocupado.
Astáfio
Acaso
pretendes tu poder arrematar o domínio público de Vénus ou do Amor com outra
condição que não a de ficares desocupado?
(…)
Astáfio
Quem acusa
outrem de desonra, deve ele mesmo estar livre de mancha. Tu, que és
espertalhão, de nosso nada tens! Nós, umas nulidades, temos tudo de ti.
(…)
Astáfio
Conhece-se
um homem enquanto ele está vivo. Logo que morre, paz à sua alma! Quando tu
estavas vivo, eu conhecia-te.
Diniarco
Julgas,
porventura, que eu estou morto?
Astáfio
Diz-me,
acaso poderia estar mais claro? Tu que anteriormente eras considerado como o
amante mais importante, agora não tens para oferecer à tua querida mais do que
lamentos.
Diniarco
Aconteceu
por culpa vossa, que tanta pressa tínheis então! Deviam ter-me depenado
lentamente, para eu continuar em bom estado para vós, durante muito tempo.
Astáfio
Um amante é
tal e qual uma fortaleza inimiga.
Diniarco
Em que
argumento te baseias?
Astáfio
Quanto mais
depressa puder ser conquistado, tanto melhor isso é para a amante.
Diniarco
Tenho de
concordar. Mas um amigo é muito diferente de um amante. Por Hércules, quanto
mais antigo é um amigo, tanto melhor ele é, certamente! Por Hércules, eu ainda
não estou completamente morto! Ainda tenho terras e uma casa.
Astáfio (mudando repentinamente de tom)
Então, diz
lá, porque é que estás especado diante da porta como um desconhecido e um estrangeiro?
Vá, entra! Na verdade tu não és um estranho! Com efeito, ela hoje não vai amar
ninguém mais do que a ti, no seu coração e na sua alma, se realmente tu possuis
terras e uma casa!
Diniarco
As vossas
línguas e palavras estão encharcadas de mel, mas os vossos actos e corações
estão encharcados de fel e de vinagre azedo. Assim, com a língua pronunciais
palavras doces, mas com o coração tornai-las amargas.
Astáfio
[Se os amantes não escorregam com alguma
coisa, é porque eu não aprendi a arte de falar.] Não é a ti que convém falar
assim, ó meu bem, mas sim àqueles que, por serem sovinas, estão em guerra com
as suas próprias inclinações.
Diniarco
Tu és manhosa e a mesma sedutora do costume.
Astáfio
Finalmente
chegaste do estrangeiro, ó tão desejado! Na verdade, ó céus, a minha ama
ansiava tanto ver-te.
Diniarco
Então
porquê?
Astáfio
Dentre
todos, és o único a quem ela ama.
Diniarco
Bravo,
minhas terras e minha casa, vós viestes em meu socorro no momento oportuno! Mas
dizes-me uma coisa, Astáfio?
Astáfio
Que queres
saber?
Diniarco
Fronésio
(puta) está agora aí dentro?
Astáfio
Para os
outros não sei, seguramente que para ti está lá dentro.
Diniarco
Ela tem
passado bem?
Astáfio
Espero que
venha a passar ainda melhor quando te vir!
Diniarco
Este é o
nosso maior defeito: quando nos apaixonamos, logo nos perdemos. Se dizem o que
nós desejamos ouvir, ainda que mintam abertamente, nós, estúpidos, acreditamos
que é verdade, em vez de nos irritarmos <com toda a razão>.
Astáfio
Ei! Isso não
é verdade.
Diniarco
Então dizes
tu que ela me ama?
Astáfio
Tu és mesmo
o seu único amor.
(…)
Astáfio
(só e estalando a rir) Ah! Ah! Ah! Estou descansada, pois o
meu pegamasso já foi lá para dentro. Finalmente estou sozinha. Agora de facto
posso dizer livremente, à minha vontade, o que quiser e o que me der na real
gana. (indicando a porta da casa da sua
ama, pela qual acaba de entrar Diniarco)
Em honra
deste amante, entoou a minha ama em nossa casa um canto fúnebre pelos seus
bens. De facto, as suas terras e a sua casa foram hipotecadas pela possessão do
Amor. Entretanto a minha ama revela-lhe à vontade os seus planos mais
importantes e este é, para ela, muito mais um amigo conselheiro do que
fornecedor de dinheiro.
Enquanto ele
teve, deu! Agora não tem nada, mesmo! O que ele tinha, temo-lo nós e ele tem o
que nós tivemos. Ocorreu um acontecimento tipicamente humano. A fortuna costuma
mudar-se rapidamente. A vida é um mar de vicissitudes. Nós lembramo-nos de que
este foi rico e ele lembra-se de que nós fomos pobres. As lembranças
inverteram-se.
Estúpido
seja quem se admirar com isso! Se ele está necessitado, é forçoso que o
consintamos. Ele apaixonou-se, aconteceu-lhe o que é justo. É um sacrilégio
compadecermo-nos dos homens que administram mal os seus bens.
É mister que
uma alcoviteira de gema tenha bons dentes, que sorria e fale meigamente a quem
quer que lhe apareça, que rumine o mal no seu coração, que fale por palavras
agradáveis.
Convém que
uma meretriz seja semelhante às silvas: a qualquer homem que ela tocar, deve
causar‑lhe mal
ou dano total. Convém que uma meretriz nunca conheça as razões do seu amante.
Que, quando ele nada pagar, o mande para casa como um soldado pouco aplicado.
Nunca
ninguém será um bom amante a não ser aquele que é inimigo dos seus próprios
bens2. Enquanto tiver, então ame. Quando não tiver nada, inicie outra
profissão. Se ele nada tiver, dê com resignação o seu lugar aos outros que têm.
É perda de
tempo, se depois de ter dado, não tiver prazer em dar de novo. Aqui em nossa
casa ama-se aquele que, depois de ter dado, se esqueceu que deu. Bom amante é
aquele que, desprezando tudo o resto, arruína os seus bens.
Todavia os
homens proclamam que nós costumamos proceder mal com eles e que somos avarentas!
E porque o somos? Afinal, o que é que nós fazemos de mal? Na verdade, nunca
nenhum amante deu o bastante à sua querida, e nem nós recebemos o suficiente! E
também nunca nenhuma pediu o suficiente! De facto, quando um amante vem de mãos
a abanar, se ele diz que não tem nada para nos dar, nós acreditamos piamente
nele e não cobramos demasiado, uma vez que ele não tem bastante para dar.
A nossa
obrigação é procurar continuamente clientes frescos que tenham realmente as
suas arcas a abarrotar de presentes…
É mesmo uma
vergonha esta caterva de macacas. Vieste aqui para te pavoneares com o teu
esqueleto aperaltado, por teres o teu manto da cor da lama, ó desavergonhada?
Ou julgas que és uma beldade, assim, com os braceletes de bronze que te
ofereceram?!
Tocar-te,
eu?! Pela minha enxada, eu preferiria abraçar-me no campo a uma vaca de longos
cornos e passar com ela a noite inteira na sua cama de palha, a serem-me dadas
de presente cem noites contigo, mesmo com uma jantarada! Tu lanças-me à cara a
parvónia. (com ironia) Pois
encontraste um homem que se envergonha dessa desfeita!
Se tu me
parecesses estar em teu juízo, sempre te diria: “Estás a injuriar-me” (ironia)
O mal que
uma mulher começou a fazer, se não o acaba de fazer, isso causa-lhe doença,
isso causa-lhe mal-estar, essa desgraça causa-lhe desgraça. Se uma começou a
fazer o bem, a verdade é que rapidamente se enche de aversão contra isso.
Demasiado poucas são as mulheres que se cansam do mal que começaram a fazer e
excessivamente poucas são aquelas que acabam de fazer o bem que começaram a
fazer. Para uma mulher, fazer o mal é uma acção extraordinariamente melhor do
que fazer o bem.
Não
espereis, ó espectadores, que eu venha proclamar as minhas façanhas! Costumo
proclamar as minhas proezas com os braços, não com palavreado.
Eu sei que
muitos soldados contaram patranhas e é possível recordar não só o imitador de
Homero como até mil outros depois dele, que foram refutados e condenados por
contarem falsas batalhas.
[Não se deve
elogiar aquele no qual acredita mais o que o ouve do que o que o vê]. Não me agrada aquele a quem mais
louvam os que o ouvem do que os que o vêem. Uma só testemunha ocular vale mais
do que dez testemunhas de ouvido. Os que ouvem, contam o que ouviram; os que
vêem, sabem com certeza. Não me agrada aquele a quem os papalvos elogiam, mas
de quem os soldados do manípulo falam entre dentes, nem aqueles cuja língua
torna rombo o gume das espadas, quando estão em casa.
Os corajosos
são muito mais úteis ao povo do que os hábeis em parlapatice.
A bravura
encontra facilmente uma eloquência parlapatona: pela minha parte, considero
palrador, mas sem bravura, como uma carpideira, o cidadão que é capaz de fazer
grandes elogios aos outros, mas não é capaz de se elogiar a si próprio.
Estratófanes
(soldado)
Fronésio já
deu à luz?
Astáfio (criada)
Deu à luz um
menino extremamente encantador.
Estratófanes
(empertigando-se) Ena! Por acaso é parecido comigo?
Astáfio
Ainda
pergunta? Como não, se, logo ao nascer, exigia uma espada e um escudo?
Estratófanes
É meu filho.
Percebe-se logo pelas provas.
Astáfio
É
parecido a mais não poder!
Estratófanes Eh pá! Bravo! Já é grande? Já se
alistou numa legião? Trouxe alguns despojos?
Astáfio
Patrão, mas
ele nasceu há exactamente cinco dias!
Estratófanes
E depois?
Por Hércules, em tantos dias já podia ter praticado exactamente alguma façanha!
Porque saiu ele da barriga da mãe, antes de poder ir para a guerra?
(…) há em
nossa casa um apaixonado que faz as piores acções, que considera os seus bens
como lixo e manda levá-los para fora de casa. Tem medo, perante a opinião
pública, de não parecer muito asseado. Ele quer que a sua casa esteja limpa:
tudo o que ele tem em casa é varrido para o prostíbulo.
Uma vez que
ele próprio caminha para a perdição, por Hércules, eu vou ajudá-lo sem dar nas
vistas! Jamais, por minha intervenção, ele se arruinará menos rapidamente do
que é possível. Com efeito, da mina para estas provisões, já eu fiz um
abatimento. Tirei para mim cinco moedas, a parte de Hércules. É exactamente
como quem que desvia para seu proveito a água de um rio. Se não a desviasse,
toda essa água iria de qualquer modo para o mar: de facto, isto (apontando para
as malas que os escravos levam) vai para o mar e perde-se miseravelmente sem
qualquer benefício. Ao ver isto a acontecer, eu roubo às escondidas, eu abafo.
Da presa, arrebanho a presa.
Eu sou da
opinião que uma meretriz é tal qual o mar. Devora o que lhe deres e nunca
transborda de presentes. Mas o mar ao menos guarda o que recebeu.
Comigo
guarda-se, aparece. Dês quanto deres a uma cortesã, em parte nenhuma aparece,
nem para o que dá nem para a que recebe.
Palavra de
honra! Afirmas que eu sou desavergonhado, logo tu que és um covil de dissolução
em pessoa?
Estou salvo,
porque me perco! Se eu não me perdesse, perder-me-ia completamente.
Eu preferia
que os meus inimigos me invejassem a invejá-los eu. Na verdade, teres inveja
dos outros que estão bem, quando tu estás mal, é uma desgraça. Os que têm
inveja, é porque estão na ruína. Aqueles de quem se inveja, esses têm bens.
Diniarco
Estou aqui, Cálicles. Peço pelos teus joelhos
que tu julgues com sensatez isto que foi feito insensatamente e que me perdoes
o que fiz. É que então eu não era senhor de mim, por culpa do vinho.
Cálicles
Isto não me
está a agradar. Tu atribuis a culpa a um mudo, que não pode falar. Ora se o
vinho pudesse falar, defender-se-ia. O vinho não costuma dominar os homens, os
homens é que costumam dominar o vinho, pelo menos os que são honestos. Porém, o
que é desonesto, quer beba, quer se abstenha desse licor, é todavia desonesto
por natureza.
(…) pensa
quão sábio animal é o ratinho, que não confia a sua existência a um buraco
apenas, porque se uma entrada for bloqueada,
fica com outra escapatória .
Para
proveito próprio, todas as pessoas são espertas e não se fazem esquisitas.
quinta-feira, 27 de junho de 2013
Aristófanes- A Paz
(…)Mais!
Mais! Peça a um pederasta! O escaravelho disse que gosta do bolo bem espremido.
Digam-me,
quem souber, onde eu posso comprar um nariz sem buracos. Não conheço trabalho
mais horroroso que este de espremer comida para um escaravelho. Um porco ou um
cachorro engolem sem luxinhos os nossos excrementos mas esse bicho aí se faz de
delambido e não quer comer a não ser que eu tenha passado o dia todo a amassar
os bocados, como se fosse uma mulherzinha muito delicada!
Coma!
Empanturre-se de comida até estourar! Com que gana esse bicho maldito devora a
comida! Ele mexe o queixo sem parar, como um lutador mexe com os braços. Mexe
as cabeças e as patas como um fabricante de cordas para barcos. Bicho feio,
fedorento e guloso! A que deus ele é consagrado? Não tenho certeza, mas penso
que não há de ser a Afrodite nem às Graças.
“…Para quê
esse escaravelho?” E um vizinho dele responde: “Se não me engano, aquele
político sujo anda metido nisso; dizem que ele comia imundície”… E eu vou explicar o caso às crianças,
aos homenzinhos, aos homens feitos, aos homens desfeitos, aos que já viveram
demais.
Trigeu
Onde está a
Paz?
Hermes
A Guerra
trancafiou a infeliz numa caverna profunda.
Trigeu
Em que
caverna?
Hermes
Naquela ali
em baixo. Você está a ver quanta pedra ela amontoou na entrada para impedir
vocês de reconquistá-la?
Trigeu
E você sabe
o que a Guerra vai fazer conosco?
Hermes
Só sei uma
coisa: ontem de noite ela pôs lá dentro uma enormidade de pilão.
Trigeu
E o que é
que ela vai fazer com esse pilão?
Hermes
Ela pretende
reduzir as cidades a pó.
Marchem
todos por aqui fogosamente, diretos à liberdade! Ajudemo-nos uns aos outros,
gregos de toda a parte, agora ou nunca! Chega de campos de batalha! Chega de
uniformes militares! Acaba de raiar o dia luminoso de que traficantes de guerra
não vão gostar!
Hermes
Libação!
Libação! Concentrem-se! Concentrem-se! Fazendo esta libação, vamos rezar para
que este dia seja para todos os gregos o início de um bocado de coisas boas e
para os que pegarem nestas cordas com o coração cheio de boa vontade nunca mais
tornem a pegar em armas!
Trigeu
(bebendo)
E que se
possa levar a vida no seio da paz, com uma boa amiga, remexendo brasas...
Hermes
(bebendo)
Quanto aos
que preferirem a guerra, que nunca parem...
Trigeu
(bebendo) ... de arrancar pontas de flechas dos cotovelos.
Hermes
(bebendo)
E se alguém,
com vontade de comandar batalhões, se opuser a que você volte a reinar entre os
homens, soberana Paz, que nas batalhas...
Trigeu
(bebendo)
... tenha de lançar as armas fora para fugir
mais depressa.
Hermes
(bebendo)
E se um
fabricante de lanças ou um vendedor de escudos desejar que haja guerra para
ganhar mais dinheiro...
Trigeu
(bebendo) ... que seja assaltado por bandidos e só fique com umas migalhas para
comer!
Hermes (bebendo) E se alguém, com
vontade de ser general, não quiser nos ajudar, ou desertar como um escravo...
Trigeu (bebendo) ... que seja
amarrado numa roda e esfolado a chicotadas!
Hermes
(bebendo)
E a nós que
só aconteçam coisas boas! Hipe, urra! Hipe, urra!
Trigeu
(bebendo) Tire esse “urra”, que faz pensar em surra, e diga só “hipe”.
Hermes
(bebendo) Então, hipe! Hipe! (Ouviu? Eu disse só hipe.)
Trigeu
(bebendo) A Hermes, às Graças, à Abundância, à deusa do amor, ao Desejo!
Hermes (já meio embriagado) Mas ao
deus da guerra, não!
Trigeu (bebendo) Não!
Hermes (bebendo)
Nem aos deus da carnificina!
Trigeu (bebendo) Não!
(… solta a
Paz)
Hermes
(…)E aqueles
ali, os espectadores? Olha a cara deles e veja se descobre a profissão de cada
um!
Trigeu
Que
tristeza!
Hermes
Aquele ali,
por exemplo, o fabricante de penachos para capacetes: você está a ver como ele
arranca os cabelos?
Trigeu
Sim, mas o
fabricante de enxadas soltou o maior peido no nariz do fabricante de espadas,
aquele ali atrás.
Hermes
E você está
vendo como o fabricante de foices de colheita de cereais está alegre?
Trigeu
E como ela
dá milho ao fabricante de lanças?
Hermes
Agora
comunique aos lavradores que eles devem voltar.
Trigeu
Ouçam todos:
que os lavradores voltem com suas ferramentas e se dirijam sem demora para o
campo, sem lança, nem espada, nem dardo, pois a boa Paz de antigamente está de
novo aqui conosco! Vamos! Volte cada um a trabalhar no campo após cantar uma
canção alegre!
Corifeu
O dia tão
esperado pelos homens de bem e pelos lavradores! Feliz haver-te visto, quero
saudar minhas parreiras e figueiras, que plantei na mocidade. Há muito tempo
suspiro por abraçá-las!
Viva! Viva!
Como estamos alegres com a sua vinda, Paz muito querida! Eu estava tarado de
desejos por você; um impulso sobre-humano me impelia a voltar para o campo.
Você era a causa da abundância para todos nós que vivíamos da terra, Paz muito
desejada! Só você nos ajudava. Que doces prazeres tínhamos antes, graças a
você, gratuitos e bem gozados! Você era para a gente do campo o doce mais
saboroso e a salvação. As parreiras e as figueiras novas e todas as outras
plantas também receberão você com um sorriso alegre.
Vocês lá de
cima pareciam tão insignificantes! Olhando lá do céu vocês pareciam ruins
mesmo, mas próximo eu vejo que vocês são ainda piores.
Vão ficar
com muita inveja de você, velhinho, quando você aparecer todo perfumado, como
um broto.
(A Alegria
despe-se; quando fica nua, Trigeu a conduz até a entrada do compartimento reservado
aos senadores.)
Trigeu
Senado!
Senadores! Contemplem a Alegria! Vejam quanta coisa boa eu trago para vocês! De
saída, vocês podem levantar as pernas dela e iniciar o “sacrifício”. Olhem que
“forno”!
Criado
Como ela é
bonita! Agora eu compreendo porque é que ela tem aquela mancha preta! É a
fumaça do forno! Antes da guerra os senadores fritavam bolinhos ali!
Trigeu
Agora que
ela é de vocês, podem organizar a partir de amanhã uma sessão deliciosa, com
uma luta vale-tudo; podem virá-la de costas, botá-la de joelhos, aplicar uns
golpes bem lubrificados, trabalhar com as mãos e com os paus. No dia seguinte,
depois de tudo isso, vocês podem fazer uma competição hípica, montando e
desmontando, caindo e trepando. Quem não aguentar a virada vai ficar todo
esfolado! Vamos, senadores! Recebam a Alegria!
(Vejam com
que “eficiência” aquele senador recebe a Alegria! Você não agiria com essa
rapidez se fosse preciso apresentar algum projeto sem compensação; você
entraria em recesso...)
Se algum
músico desses que levam a vida na flauta vir vocês aí, vai-se aproximar e vai
querer tocar sem ser convidado; e se vocês virem a cara de sofrimento que ele
faz quando toca, vão deixar que ele tome parte na festa.
Venerada Paz
recebe nosso sacrifício, deusa digníssima, e não faças como as mulheres que
negoceiam com os amantes; elas entreabrem a porta e se debruçam; se algum homem
fica de olho elas cruzam as pernas; se vai embora, elas se debruçam de novo.
Não faças nada disso conosco!
(…)Tinha que
ser! Você não podia deixar de ser filho de um desses gaiatos que fazem tudo
para haver guerra e que depois são os primeiros a gemer por causa dela…
quinta-feira, 20 de junho de 2013
Aristófanes- As nuvens
Estrepsíades:
(apontando para outros alunos, que estão
completamente curvados.)
Mas aqueles além, curvados
Quase que
até ao chão, o que eles fazem?
Estudante:
São alunos de escol.
Pesquisam o
Hades.
Estrepsíades:
Mas... e os traseiros para o céu voltados?
Estudante:
Da astronomia são principiantes.
Estrepsíades:
Suponho, realmente, que é melhor
Tu zombares
dos deuses lá em cima,
Trepado
nesse cesto, do que estares
Aqui em baixo,
neste duro chão.
Sócrates:
Essa também é a minha opinião.
Suspenso,
como estou, no ar etéreo,
Com ele
misturando facilmente
Meu douto
pensamento, de Natura
Posso
explorar o íntimo mistério,
Mais perto
assim do fabuloso Empíreo.
Se aí, no
baixo solo, as pesquisas
Da alta
ciência eu prosseguir tentasse,
Em vão
seria, eu tentaria em vão:
Do nosso
pensamento a terra suga
A essência
subtil e deixa a grossa.
(como que
refletindo)
É o mesmo
que acontece com o agrião.
Sócrates:
O que queres saber?
Estrepsíades
Eu quero,
Mestre,
Teu curso de
oratória e de eloquência
Seguir, pra
discutir com meus credores.
Em verdade
os credores se tornaram
Absolutamente
insuportáveis.
Importunam,
perseguem. Uns miseráveis!
O pior é que me estão a ameaçar
De tomar os
meus bens. E pouco falta
Que de fato
o consigam.
Sócrates
(aspergindo
Estrepsíades da cabeça aos pés com a farinha ritual)
Renascerás,
senhor, como perfeita
Flor da
oratória, como um consumado
Tratante,
palavroso e descarado.
Sócrates
São as nuvens, que são deusas
Dos homens
de valor filosofal.
Elas nos
asseguram o repertório
Do talento
verbal e da eloquência,
Da graça, do
arranzel, do casuísmo,
Da prova em
profusão, do circunlóquio...
Estrepsíades
Deve ser
então que por isso me sinto
Como que
carregado para o alto,
Flutuando no
ar de tão inflado
Com todo o
sopro da filosofia,
Envolto numa
espécie de lanugem,
Verbal
tatuagem que me faz sentir
A sensação
de uma inchação etérea.
Como se eu
fosse um saco de palavras,
Repleto de
argumentos e razões,
Cada qual
mais aéreo.
Corifaio
Salve, ó tu,
superidoso homem,
Cão
amestrado da cultura, salve!
Sócrates
(…) Apenas
eu pretendo
Fazer-te
umas perguntas. Em primeiro
Lugar,
responde: Tens boa memória?
Estrepsíades
Isso
depende. Se alguém me deve,
Eu não me
esqueço, de maneira alguma.
Se eu devo a
alguém, contudo, o caso é outro:
Não consigo
lembrar, por mais que queira.
Quero-o
capaz de rir-se da verdade.
Filosofia:
Vamos,
vamos,
Penosa
Impertinência,
E diante
assim do respeitável público,
Faze uma
respeitosa reverência.
Gostas de
pimponar.
Está na
hora.
Sofisma:
Está mesmo
na hora,
Massa
Informe,
Quanto maior
a multidão, maior
O prazer de
poder, diante dela,
Te refutar.
Filosofia:
Tem graça. Refutar-me!
Quem pensas
que tu és?
Sofisma:
Sou uma
Lógica.
Filosofia:
Tu, uma Lógica, vil Loquacidade?
Palavrório
vazio!
Sofisma:
Não me importo
Ser chamado
de Sofisma.
Eu te
liquido.
Vou
refutar-te.
Filosofia:
Com o que não é convencional, e ainda
Com o
ultramodernismo, e assim também
Com ideias de
todo heterodoxas.
Filosofia
Essa moda
que ora predomina
Devemos a
essa corja de imbecis...
Sofisma
Imbecis?
Cavalheiros
requintados.
Filosofia
Eu te
invalidarei.
Sofisma
Invalidar-me?
Que estás a
pensar, seu defunto andante?
Filosofia
Meus
argumentos são, convém saber,
A Verdade e
a Justiça.
Sofisma
Eu te
desarmo.
E te
derroto, com Justiça e tudo.
Não existe a
Justiça.
Filosofia
Não existe?
Tem graça!
Sofisma
Então, mostra-me
onde ela está.
Filosofia
Onde está a
Justiça?
Muito fácil:
No regaço dos deuses.
Sofisma
No regaço
Dos deuses?
Então podes
me explicar
Como Zeus
escapou da punição,
Depois de
ter prendido o próprio pai?
A
incoerência é clara como a água.
Filosofia
Tagarela
asqueroso! Tu me enojas!
Sofisma
Decrépito!
Senil! Velho caduco!
Filosofia
Pederasta
precoce! Pervertido!
Sofisma
Pode
atirar-me roas e mancheias.
Filosofia
Ó cogumelo
vil! Ó vil latrina!
Sofisma
Com uma
coroa de viçosos lírios
A minha
fronte cinge.
Filosofia
Parricida!
Sofisma
Uma chuva de
ouro sobre mim Faze cair.
Não vês que
eu me deleito
Com os teus
insultos?
Filosofia
Deleitas-te,
monstro?
Em meu
tempo, eu teria-te cingido
De vergonha.
Sofisma
Porém hás de
convir
Que hoje as
coisas mudaram.
O que era errado
no teu tempo,
É o certo e
a moda agora.
Filosofia
Fedelho
repulsivo!
Sofisma
Vil pedante!
Filosofia
Por tua
culpa só e tão-somente
As escolas
de Atenas estão vazias.
E por isso, ociosa e pervertida,
Toda uma
geração nas ruas vaga.
Escuta o que
te digo: no futuro
Saberá a
cidade o que fizeste:
Os seus
filhos viris tu os tornaste
Tolos e
efeminados.
Sofisma
Idiota!
Filosofia
Enquanto
isso, por tua vez, viraste
Um
peralvilho muito presunçoso,
Mas recordo-me
bem de teu começo
Humilde e
triste, em que representavas
Bem igual a
Telefos, embrulhado
No trapo e
no farrapo euripidiano.
Sofisma
Quanta
sabedoria havia ali!
Filosofia
E que prodígio de loucura aqui!
Tua loucura,
e, mais louca que tu,
Esta cidade,
pois só louca pode
Permitir que
tu vivas, miserável,
Corruptor de
sua juventude!
Sofisma
(lançando
uma asa em torno de Feidipides)
Fica
sabendo, seu
Defunto
Vivo,
Que a este
aluno jamais ensinarás.
Filosofia
(puxando
Feidipides para trás)
Hei de ser o
seu Mestre, a menos que
Se dedique à
carreira da sandice.
Sofisma
Vá
esperando. Vem comigo, jovem.
Filosofia
Para a
desgraça caminhar?
Corifaios
(intervindo)
Senhores!
Chega de altercações e de injúrias.
Que cada um,
por sua vez, exponha
Seus
argumentos. Tu, Escola Antiga,
Descreve,
com clareza e cortesia,
Como
ensinaste os homens do passado,
E tu
descreve a Nova Educação.
Filosofia
Apoio essa
proposta.
Sofisma
E eu também.
Corifaios
Muito bem.
Qual dos dois fala primeiro?
Sofisma
Que ele comece.
Ficarei ouvindo.
Depois,
porém, que ela tiver falado,
Lançarei
sobre ela esmagadora
Concentração
do Pensamento Novo
E dos Pontos
de Vista Derradeiros,
Que vão
deixá-la sem poder falar.
Coro
Com atenção
ouçamos.
Afinal A
Grande Discussão vai começar.
Entre os
dois decididos campeões
Quem vai
ganhar ninguém pode saber.
Ambos são
hábeis, destros e subtis,
Mestres no
ataque e na defesa, mestres
No insulto
soez e na agressão.
Do pleito o
prémio é a Sabedoria.
Da perícia
dos dois contendores
O destino
depende inteiramente
Do idioma e
da mentalidade,
Da educação,
enfim, de toda Atenas.
Corifaios
Tem a
palavra a Filosofia.
Fala,
portanto, ó tu, que conferiste
A virtude às
antigas gerações.
Fala com
confiança, e explica-nos
O que na realidade
representas.
Filosofia
Quero falar
da Educação Antiga,
E como
floresceu nos velhos tempos
Dirigida por
mim. A Honestidade
Sem atavios,
a Linguagem Clara
E a Verdade
eram honradas, praticadas.
E em todas
as escolas de Atenas
Se seguia o
regime dos três DD:
Disciplina,
Decoro e Dever.
O programa
era a Música e a Ginástica,
Ensinadas de
acordo com o ditado:
“As crianças
são vistas, não ouvidas”.
Este era o
princípio cardeal.
Os alunos,
em grupos divididos,
Conforme a
região de onde vinham,
Em esquadras
marchavam para a escola
Disciplinados
e silenciosos.
E eram
jovens bem fortes, resistentes.
Mesmo em
manhãs de inverno, quando a neve
Caía, a sua
única proteção
Contra o
rigor do tempo era uma túnica
Muito leve e
bem fina. E nas salas
De aula eram
os alunos colocados
Em filas e
de pé, e muitos atentos
Escutavam as
lições e as repetiam
Muitas
vezes, de cor, seguidamente.
A própria
música era tradicional:
Entoavam-se,
então, hinos e cânticos
Bem
conhecidos, como, por exemplo,
O que
começa: “Uma voz vem de longe”
Ou “Salve,
Palas ultriz” e outros cantos
De uma
simplicidade que encantava.
Brincadeiras
na aula eram severa
E
decididamente proibidas.
Aqueles que
quisessem improvisar
Ou usar os
torneios e trinados
Então em
voga na degenerada
E efeminada
escola de Frinis,
Eram
severamente castigados
Por
ultrajarem as Musas.
No ginásio,
Também todo
o decoro era exigido.
Nus em pelo
os alunos reunidos
Pudicamente
as pernas estendiam
Para frente,
dos olhos curiosos
Escondendo a
nudez.
Tão
recatados
Eram os
jovens então, que sempre tinham
O cuidado de
bem limpo deixarem
O lugar onde
se tinham sentado,
Para que
acaso o traço sobre a areia
Por suas
próprias nádegas deixado
Chegar não
fosse a provocar desejos.
Era proibido
ungir com óleo o corpo
Para cima do
umbigo, e, em consequência,
O órgão
genital era mantido
Com toda a
exuberância juvenil.
Para os
amantes o comportamento
De todos
eles era bem viril.
Não eram
vistos em pares aos cochichos,
Nem soltando
gritinhos nem olhares
Provocantes
lançarem, requebrando.
Na mesa, a
educação e a cortesia
Eram
cumpridas rigorosamente.
Nenhum jovem
jamais se atreveria
A salada
sequer provar, sem antes
Terem sido
servidos os adultos.
Comida
temperada era proibida.
Proibido
também dar gargalhadas
Ou as pernas
cruzar...
Sofisma
Quanta
estupidez!
Filosofia
Estupidez?
Esses preceitos produziram
Os heróis
que venceram a Maratona.
(ao Sofisma)
E tu o que
ensinas? A modéstia?
Apenas a
vaidade e a frouxidão.
A beleza do
corpo nu oculta
Por pesadas
e feias vestimentas,
Pouco viris
também. Fico enojado
Se nas Panetenéias vejo os jovens
Dançarem do
seu corpo envergonhados.
Esquecendo,
de fato, o seu dever
Para com os
nossos deuses, quando atrás
Dos seus
escudos a nudez escondem.
(A
Feidipides)
Eu te
convoco, jovem. Vira as costas
À atração do
vício, às artimanhas
Dos
tribunais e à fácil, preguiçosa
Corrupção
dos banhos. Ao contrário
Escolhe a
Antiga Educação, baseada
Na sã
Filosofia. Jovem, segue-me
E dos meus
lábios, sem temor, aprende
As virtudes
do homem: a mente sã,
A decência e
a inocência que não vão
Permitir que
do mal te aproximes.
Que te
sintas furioso, indignado,
Quando a tua
honra sentes ultrajada.
Para com os
mais velhos, deferência;
Respeitar
pai e mãe; manter intacta
A imagem de
modéstia assaz viril
Que servirá
de guia em tua vida.
Sê puro,
evita os sórdidos bordéis,
O amor
prostituído, que corrompe
Teu caráter
viril, e que rebaixa
Tua
reputação. Para teu pai
Mostres
sempre total obediência.
Respeita o
fim da vida de quem antes
Te criou, te
tratou, quando mais moço.
Jamais o
chames de velho ou caduco...
Sofisma
Meu jovem, se seguires tais conselhos,
Acabarás
ficando efeminado
Filosofia
Muito ao
contrário disso, eu te prometo,
Não
discussões estéreis, não pendências
Judiciais
repletas de chicana,
E sim lutas
atléticas, viris,
Disputadas
por jovens musculosos
Repletos de
vigor e de saúde.
Parece-me
ver-te agora, em um idílio
Com outro
jovem de tua mesma idade,
Tão modesto
e viril como tu mesmo,
Caminhando
talvez na Academia,
Ou entre os
olivais, ambos coroados
De pâmpano e
respirando o ar sadio
Da
primavera, a súbita fragrância
Do início da
estação. Portanto, ó jovem,
Segue os
meus passos e conquistarás
A perfeição
do físico, a saber
(Demonstrando
cada tributo individualmente)
FORMA,
Estupenda.
CÚTIS,
Magnífica.
OMBROS,
Gigantes.
LÍNGUA, Bem
Pequena.
NÁDEGAS,
Robustas.
PÉNIS,
Discreto.
Se seguires,
porém, a outra parte,
É esta a
recompensa que terás:
FORMA,
Efeminada.
CÚTIS,
Macilenta.
OMBROS,
Caídos.
LÍNGUA,
Enorme.
NÁDEGAS,
Molengas.
PÉNIS,
Desprezível!
Mas é
verdade que terás também
Muitos e
dedicados partidários.
E o que é
pior, irás acostumar-te
A zombar da
moral, não distinguindo
O bem do mal
e o mal do bem. Em suma
Coberto
ficarás de vilania,
Indecência,
desonra e perversão.
Coro
Bravo! Que
brilho! Que vigor!
Que belo!
Que saber!
Que
modéstia! Que decoro!
Nem uma só
palavra desperdiçada!
Felizes
foram aqueles cujas vidas
Nas virtudes
antigas se apoiaram!
(Para o Sofisma)
A despeito
de tua subtileza,
De tua
habilidade, tem cuidado.
Teu rival
conseguiu lavrar um tento.
Muito vigor
precisas para vencê-lo.
Podes falar
agora. A vez é tua.
Corifaios
A não ser
que prepares com cuidado
Tua
estratégia e, ferozmente, ataques,
Terás
perdido a causa, e saíras
Daqui como
motivo de chacota.
Sofisma
Até que
enfim! Se mais alguns minutos
Tivesse que
esperar, eu morreria
Até, de
impaciência, do desejo
De refutar e
de arrasar o outro.
Muito bem. Para
começo de conversa,
Tenho de
admitir que, entre os letrados
E os
pedantes, costumo ser chamado
- Pejorativamente algumas vezes –
De Lógica Sofística, Imoral. E por quê?
Porque eu
fui o primeiro
A construir
um Método capaz
De subverter
as Crenças Sociais
De há muito
respeitadas e seguidas
E a Moral
respeitada solapar.
Além de
tudo, uso um certo truque,
Invençãozinha
que a mim mesmo devo,
Que é o de
utilizar um argumento
Que parece o
pior dos argumentos,
E acabar
vencendo, no entanto.
E essa minha
invenção tem-se mostrado
Extremamente
lucrativa como
Fonte de
rendimentos. Vede, agora,
Como eu
refuto a vã Filosofia.
(Para a
Filosofia)
Em teu
programa escolar proíbes
Absolutamente
os banhos quentes.
Podes
expor-me agora os argumentos
Em que se
funda tal proibição?
Filosofia
O que mais
poderia eu aduzir?
Os banhos
quentes fazem muito mal,
Tornam o
homem frouxo, efeminado.
Sofisma
Não me digas
mais nada. Isso é bastante.
Estás em
minhas mãos, completamente.
Responde-me
de pronto: quem dos filhos
De Zeus foi
mais valente, mais heróico?
Quem mais
aos sofrimentos resistiu?
Quem
executou as mais duras tarefas?
Filosofia
Na minha
opinião, Héracles foi
O maior dos
heróis que o mundo viu.
Sofisma
Quando tu te
referes aos famosos
Banhos de
Héracles, referindo estás
A que
espécie de banhos: frios, quentes?
É claro que
são quentes. Assim sendo,
Por tua
própria lógica era Héracles
Efeminado e
frouxo.
Filosofia
Idiotice! A
tua lógica é dessas que se usam
Entre esses
jovens desfibrados, torpes,
Que esvaziam
os ginásios e enchem os banhos.
Sofisma
Muito bem.
Prossigamos. Se quiseres
Considerar a
nacional paixão
Pela
política e pelo debate
Um mal,
muito ao contrário eu a aprovo.
Se a
política fosse razoavelmente
Tão nefasta
e tão má como sustentas,
Então jamais o venerando Homero
- Nosso guia e mentor quanto à Moral –
Jamais,
jamais teria retrato
Nestor e
outros velhos respeitáveis
Como
políticos. Não é mesmo claro?
Agora
examinemos a questão
De estudarem
os jovens a oratória,
Coisa que eu
defendo e tu condenas.
Quanto ao
Decoro e à Moderação,
Estas
próprias noções são absurdas.
Acho mesmo
difícil conceber
Preconceitos
tão tolos, ou melhor
Mais que
tolos: prejudiciais.
Poderias,
por acaso, me citar
O exemplo de
um homem que lucrou
Com a
moderação? Um só exemplo.
Filosofia
Os exemplos
abundam. Eu citaria...
Por exemplo,
Peleu. Sua virtude
Conquistou-lhe
uma espada.
Sofisma
Ora, uma
espada!
Que grande
prémio pra tão grande tolo!
Vejamos
nosso Hipérbolo. Sem dúvida
Virtude é
coisa que ele nunca teve.
No entanto,
viveu à tripa forra,
Teve
dinheiro a rodo. Não espadas.
Espada não
combina com Hipérbolo.
Filosofia
Além disso,
porém, a castidade
De Peleu
conquistou o amor da deusa
Tétis, que
se tornou a sua esposa.
Sofisma
Exatamente.
Mas o que fez Tétis
Depois do
casamento? Despediu-o,
Por ser frio
demais, com espada e tudo.
(A
Feidipides)
Eu te
aconselho, jovem, a encarares
Com cuidado
o caminho da Virtude,
Pois se
acaso o seguires, não te esqueças:
Despedirás
de todos os prazeres
Que hoje te
deleitam. Por exemplo:
Sexo, glutonaria,
jogatina, bebedeiras etc.
O que farás
na vida, jovem e forte,
Se deixares
de lado tais deleites
Essas
pequenas alegrias? Pensa
Em tuas naturais
necessidades.
Supões que,
sendo exemplo da virtude,
Cometas,
algum dia, um pecadilho,
Uma
seduçãozinha, um adultério,
E, por azar,
tu sejas apanhado
Com a boca
na botija. Que farias?
Tu estarias
desmoralizado,
Não poderias
defender-te, é claro,
Sem ter
nunca aprendido como agir
Em tal
situação imprevisível.
Segue,
porém, os meus conselhos, jovem,
E faz o que
te dita a natureza.
Goza a vida,
diverte-te e ri
Do mundo sem
escrúpulos. Se acaso
Em flagrante
tu fores apanhado,
Afirma
simplesmente ao pobre corno
Que não tens
culpa, e invoca como exemplo
O Zeus
onipotente, que não pode
Ver mulher
sem tratar de conquistá-la.
Se um tão
grande e poderoso deus
Não pode
resistir, como querer
Que um pobre
mortal tenha a arrogância
De ministrar
ensinos de moral
Aos deuses
imortais? Não é possível.
Filosofia
Mas supõe
que, aceitando o teu conselho,
O teu
discípulo seja condenado,
Por
adultério, a ter um rabanete
Enterrado no
reto?
Por acaso Poderias salvá-lo?
Sofisma
Um rabanete!
Achas mesmo,
confessa, uma desgraça
Tão grande ter um rabanete
Enfiado no
rabo?
Filosofia
Para mim
Não pode
haver nada mais degradante
Do que ter
um rabanete em tal lugar.
Sofisma
E o que
dirias, se eu te derrotasse
Neste campo
também?
Filosofia
Nada diria.
Não abriria nunca mais a boca.
Sofisma
O que achas
que são nossos juristas?
Filosofia
Pederastas
passivos.
Sofisma
Muito bem. E
os poetas trágicos?
Filosofia
O mesmo.
Sofisma
Políticos?
Filosofia
Também a
mesma coisa.
Sofisma
É assim?
Pois então, agora olha
Para a nossa
audiência. Estás olhando?
Filosofia
Estou.
Atentamente.
Sofisma
E o que tu
vês;
Filosofia
Muitos
homens eu vejo,
e quase
todos Pederastas passivos.
(Apontando
para alguns indivíduos no público)
Vê aqueles
De cabelos
compridos?
Têm de ser.
Sofisma
E agora dize, amigo, onde chegamos.
Filosofia
Fui
derrotada pelos Pederastas Passivos.
Vou-me
retirar. Só isso. (Atira seu manto para o público)
Tomai meu
manto e recebei-me, ó vós,
Pederastas
Passivos.
E vós, aí?
Sim, vós mesmos, cretinos! Vós carneiros
Com cabeças
de pombo! Presa fácil
Do palavroso
esperto e do sofista.
Cambada de
idiotas! Tenho dito.
Os juros não
são mais do que a tendência
Natural do
dinheiro aplicado
De se
reproduzir, com a passagem
Do tempo. E
assim é mais do que claro
Que os juros
crescem, o capital aumenta.
Feidipides
Senhores! A Eloquência
é coisa boa,
Muito melhor
até do que esperava.
Oh! O
arrebatamento do discurso!
Oh! A
volúpia da articulação!
Mas sobretudo
o ático prazer
De poder à
vontade subverter
A ordem da
Moral seguida e aceite!
Feidipides
Responde
agora pai:
Quando eu
era pequeno bateste-me?
Estrepsíades
É claro. Eu
tinha de te educar. Bati porque te amava.
Feidipides
Muito bem.
Uma vez que tu mesmo reconheces
A sinonímia
de espancar e amar,
É mais do
que natural que eu, agora,
Por minha
vez, com muito amor, te espanque.
Mais que
isso, aliás: com que direito
Tu podes me
espancar e pretenderes
Que eu não
possa fazer a mesma coisa.
O que pensas
que sou? Que sou escravo?
Não nasci,
como tu, um homem livre?
Que me
dizes, então?
Estrepsíades
Mas...
Feidipides
Mas o quê?
“Poupas a
vara e estragas a criança”?
Este é o teu
argumento?
Pois, se for
Eu posso
responder com outro ditado:
“Os velhos são crianças que cresceram”.
É lógico,
portanto, que os velhos
Merecem
muito mais ser espancados,
Porquanto,
experientes como são,
São menos
desculpáveis que as crianças.
Estrepsíades
Mas não é
natural! É ilegal!
Honrarás pai
e mãe. Tal é a lei.
Feidipides
E quem fez
essa lei? Um homem igual
A mim, a ti,
um homem igual a nós.
Um homem que
lutou por seu projeto
Até poder
persuadir o povo
Que o
transformasse em lei.
Somente
isso.
Pelo mesmo
motivo, o que me impede
De uma lei
nova apresentar, mandando
Que os pais
sejam espancados pelos filhos?
Não seria
vingança, é evidente.
Estou mesmo
inclinado a sugerir
Uma amnistia
que retroagisse
Favorecendo
os pais, e garantindo
Uma
compensação pelas pancadas
Que, por
acaso, houvessem recebido
Antes que
fosse promulgada a lei.
Se, apesar
disso tudo, não estás
Ainda
convencido, todavia,
Argumento
com a própria Natureza.
Por exemplo:
observa como os galos
Se comportam
entre si.
Vivem
brigando Filhos com pais, sem vãs hierarquias.
E em quê a
sociedade galinácea
Difere da nossa: tão somente
Porque a
nossa tem leis e ela não.
Estrepsíades
Se estás
disposto a imitar os galos,
Por que não
vais, então, comer titica
E dormir no
poleiro?
Feidipides
Ora!
Porque... Porque não há no caso analogia.
Se duvidas
de mim, pergunta a Sócrates.
Estrepsíades
Deixa os
galos para lá. Mas aconselho-te
A não
bateres mais em mim, pois isso
Vai acabar é
a prejudicar-te.
Feidipides
Prejudicar-me?
Eu duvido.
Estrepsíades
Então,
Presta
atenção no que te vou dizer:
Quando eras
menino eu bati.te.
Mas um dia
terás, também um filho,
Nele
descontarás o que tiveste.
Se, porém,
me bateres, o teu filho
Naturalmente
seguirá o exemplo
E contigo
fará o que me fazes.
Feidipides
E se eu não
tiver filho? Nesse caso
Eu ficarei
privado de bater
Em qualquer
um.
E agora, o
que me dizes?
Estrepsíades
Tenho de
confessar que tens razão.
(Para o
público.)
Falando para
a geração mais velha,
Sou obrigado
a confessar, senhores,
Derrotado
saí. Meu douto filho
Conseguiu
demonstrar a sua tese:
Deve ser
espancado o pai faltoso.
Feidipides
Naturalmente.
Eu estava a esquecer-me,
De uma
questão final, muito importante.
Estrepsíades
Qual é? O
funeral?
Feidipides
Muito ao
contrário.
Eu acho até
que vais ficar contente.
Estrepsíades
Mais do que
já estou? Acho difícil...
Feidipides
Segundo dizem, “O sofrimento gosta
De
companhia”. E terás, meu pai
Em tua
desventura, companhia
Vou espancar
também minha mãezinha.
Estrepsíades
Bater em tua mãe?!
Isso é pior,
Dez mil vezes pior!
Feidipides
Tu achas
mesmo?
E se eu
provar, por Lógica socrática,
Isso também,
então o que dirias?
Estrepsíades
O que eu
diria? Digo agora mesmo:
Se tal coisa
provares, eu permito
Que juntes
tua Lógica nojenta,
E o teu
Pensamental e que Sócrates,
Enfie tudo
no lugar devido!
(Dirigindo-se
ao Coro)
Ó Nuvens,
fostes vós que me arrastastes
A esta
situação em que me encontro.
Ser assim
enganado! Mentirosas!
Corifaios
Foste tu o
culpado, Estrepsíades.
O único
culpado foste tu.
Não foi
feita por nós a tua escolha,
Porém por
tua própria improbidade
Estrepsíades
Por que,
então, em vez de aconselhardes
Um pobre
ignorante a se afastar
Do mal,
muito ao contrário, o incitastes?
Corifaios
Porque é
assim mesmo que nós somos:
Insubstanciais
nuvens onde o homem
Constrói as
suas frágeis esperanças,
Brilhantes,
tentadoras, mas formadas
De puro ar,
miragens do desejo.
E assim
agimos nós, indiferentes.
Seduzindo e
atraindo os homens vãos
Nos desonestos
sonhos da ambição
Que, como
sonhos, logo se desfazem.
E o
sofrimento lhes ensina então
A respeitar
os deuses, e a temê-los.
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