sexta-feira, 19 de abril de 2013

Eurípedes- Ifigénia em Áulide


Invejo aqueles que, livres de perigos, passam obscuramente uma vida sem glória; aos que vivem entre honrarias, invejo menos.

(…) a doçura mais estimada que no  fastio anoja.

Nenhum mortal é feliz até ao fim, nenhum nem afortunado, pois nunca nasceu ninguém imune ao sofrimento.

Uma mente inconstante é fonte de injustiça e insegurança para os amigos.

Não deve um homem de têmpera lá porque ascendeu a grandes cargos, seus costumes mudar, mas até deve ser então muito mais fiel aos amigos, agora que, na prosperidade, mais possível lhe é ajudá-los.

Qualquer homem desde que inteligente pode ser chefe.

O homem bom gosta de se respeitar.

Tu podes não querer pensar direito, mas eu agirei como devo.

Um humilde nascimento que vantagem não tem! Pode-se chorar à vontade e tudo desabafar. Mas, ao bem nascido, tal não lhe permite a sua grandeza. É o decoro que governa a nossa vida e da multidão somos escravos. É que o pejo me vem de lágrimas verter, o pejo me vem, depois, de não chorar a minha desgraça, neste momento em que aos maiores infortúnios cheguei.

Semente de adivinhos, toda ela é ambição e desgraça!

(…) os alimentos do ensino muito contribuem para a virtude (…) Algo de grande é perseguir a virtude (…)

 Deveria o homem sábio manter em sua casa mulher boa e virtuosa, ou então não a ter.

Sei com medida agastar-me com os reveses e alegrar-me com os reveses e alegrar-me, quando as velas ficam pandas aos ventos.

Como louvar-te sem excesso de palavras nem ficar em falta com o favor que te devo?
É que os bons, quando são elogiados de qualquer modo, odeiam quem os louva, se caírem no excesso.

Nobreza tem-na, decerto, o homem bom, ao ajudar, mesmo se está de fora, os infelizes.

As razões, os temores vencem na disputa.



Onde está a face do Pudor
ou da Virtude
que possam defender-te,
quando a impiedade
detém o poder, e a Virtude, por desdenhada,
aos mortais não dá cuidado?
A Desordem das leis triunfa,
E esforço comum não há entre os homens,
Para que dos deuses o castigo não venha.


Compramos o que é mais odioso pelo preço do que nos é mais caro!

Dos males o sentimento até nas crianças é inato.

Ver esta luz do dia é, para os homens, o que há mais de doce;
E debaixo da terra é o nada; é louco quem anseia morrer.
Melhor é viver mal que bem morrer.


Plena  de sofrimentos
É dos efémeros mortais a geração, e dolorosa,
Para os homens, a descoberta da Necessidade.


Melhor é que um homem só contemple do dia a luz, que mulheres mil. lol






quarta-feira, 17 de abril de 2013

Eurípedes- Electra


Para os mortais é uma felicidade encontrar quem os conforte no infortúnio.

(…) ele tem com que se nutrir: mas um desterrado é sempre um indigente.

A compaixão é natural, não nas naturezas rudes, mas no coração dos sábios; mas a prudência em excesso pode ser prejudicial a quem a possui.

Ah! Não há sinal seguro quanto à virtude de um homem. A natureza dos mortais nos induz à confusão... Já vi o filho de um homem ilustre tornar-se um nulo, e filhos de criaturas perversas revelarem nobres qualidades. Tenho visto a miséria na alma de um ricaço, e um belo espírito no corpo de um pobretão. Como havemos de discernir as coisas? Pela riqueza? Seria um péssimo guia... Pelo que nada tem? Mas a pobreza não raro instiga ao mal aquele a quem tudo falta. Devemos nos regular pelas armas? Mas quem pode assegurar, vendo uma lança, que o indivíduo que a leva é valente? O melhor é deixar correr o mundo...

Os corpos sem espírito valem menos que as estátuas da ágora. Um braço robusto não sustém melhor a lança do que um mais fraco; é a índole, e o valor moral que tudo fazem.

Saiba todo aquele que corromper a esposa de outrem por uma união adúltera, e que com ela se consorcia, que é infeliz se supuser que ela lhe concederá a fidelidade que já não concedera ao outro. Tu vivias miseravelmente, na ilusão de que eras feliz...

(…) mas riquezas nada valem, porque são incertas e transitórias... Só a moral prevalece, e não a pecúnia. A moral granjeia duradouro renome, e triunfa do infortúnio; a opulência injusta torna-se presa dos perversos, e desaparece dos lares onde terá permanecido por pouco tempo...

Os descendentes de homens fortes nascem predestinados à carreira das armas; mas os filhos dos outros nunca passarão de dançarinos...

E que ninguém se ufane por ter vencido a primeira corrida; que ninguém se considere vencedor enquanto não houver atingido o termo da humana vida!

(…) Eu te falarei, embora saiba que uma mulher, quando perseguida por uma ruim fama, tem sempre a incredulidade contra suas palavras.

(…) porquanto os maus, muitas vezes, proporcionam aos bons a oportunidade para a prática de ações exemplares.

É um louco aquele que, seduzido pelas riquezas, ou pelo nascimento ilustre de alguém, se casa com uma mulher perversa. Um casamento humilde e puro leva vantagem, na família, por sua grandeza.

Há sempre uma compensação nos grandes males!

Só é ditoso aquele que tem a consciência tranquila, e não é ferido pelos golpes da desgraça!

domingo, 14 de abril de 2013

Eurípedes- Hipólito


Que um ponto não se ofusque a minha glória.


Uns, uns deuses veneram, outros, outros,
Bem como os homens.


Doença é um mal só, mas curar dela
Une à aflição do espírito a fadiga
Que sente o corpo.


Dolorosa é a vida dos humanos,
E descanso não têm em seus trabalhos;
Mas trevas que nos cercam, nos encobrem
Outra vida mais doce: loucamente
Amamos esta luz, que a terra doira,
Porque outra mais formosa não provámos,
Porque ignoramos o que encobre a terra,
Prestando fé a fábulas sonhadas.


Sossego, e ânimo forte levar podem
O mal mais facilmente.
É força que os mortais tenham trabalhos.

Muitas coisas ensina a longa vida.
Muito convinha, que os mortais travassem
Entre si amizades moderadas,
Que não entrassem no íntimo da alma:
E que a prisão, que os corações enlaça,
Fosse fácil, querendo desatá-la,
Ou apertá-la mais.
(…)
É visto, que da vida
O supérfluo cuidado maior dano
Lhe causa, e a não consola; e da saúde
É mortal inimigo: assim não louvo
Excesso e demasia em coisa alguma,
E comigo o dirão todos os sábios.


FEDRA: Que é o que dizem ser, amar os homens?
AIA: Gostoso, filha, e juntamente acerbo.


Da natural razão, que tantas vezes
O pior abraçamos: porque muitos
Têm senso, mas sucede deste modo.
Entendemos o bem, e o conhecemos:
Mas não o executamos, uns por frouxos;
Outros, porque ao honesto preferimos
Outro prazer diverso, pois são muitos
Os prazeres da vida; nestes conto
O excessivo conversar sem tento e fruto;
E o ócio, doce mal: e até o pejo.


A língua é infiel: males dos outros,
E erros alheios consolar bem pode;
Mas a si mesma grandes danos causa.


Oh desgraçada seja
Por mil modos aquela, que primeiro
Seu leito conjugal afrontou, trazendo a ele
Homem estranho; e nas ilustres casas
 Abriu tão torpe e vergonhoso exemplo!
Sim, que quando a torpeza agrada aos nobres,
Os humildes a têm por honra e glória.


(…)que mais conforta a vida,
Que ter desejos, e obras generosas.


O tempo, qual o espelho da donzela
Os torpes mostra, ou agora, ou logo.
Entre estes, oxalá, não seja eu vista.


Amas? que maravilha? muitos amam.
E porque amas, perder queres a vida?
Então amar não devem, os que ora amam,
Nem os que hão-de amar, se a morte é certa.


E quantos cuidas tu muito sensatos,
Que vêem seu leito ir mal, e o dissimulam?
E a quantos erraram com as filhas,
Vénus os ajudou, porque é prudência
Nos mortais encobrir o que é desaire.
Vida não nos convém muito severa.
Nem os tetos, que cobrem nossas casas,
Se obram em perfeição: se estás caída
Em desventura tal, qual me confessas,
Como pretendes dela levantar-te?
Se tu, humana sendo, mais bens logras
Do que são os teus males, és ditosa.


Suporta teu amor; quis dar-to a deusa.
Se mal padeces, teu mal bem termina;
Há encantos, há mágicas palavras,
Que o podem suavizar: algum remédio
Poderemos achar: pois tarde os homens
O que as mulheres não pudermos, achariam.


Eis o que já perdeu nobres cidades,
E famílias, discursos concertados:
Mas dizer não devemos o que agrada,
Mas sim o que nos ganha honra e fama.


Amor, amor, que instilas
Pelos olhos no peito teus afetos,
Doce, e brando prazer introduzindo
N’alma dos que combates,
Não me venhas com dano,
Nem forte e em demasia;
Pois os tiros do fogo,
E do raio não fazem
Mais funestos estragos,
Que as despontadas setas
De amor, que da mão vibra
Eros (Deus do amor)


O Amor é temível,
A todos acomete;
E qual abelha às flores,
Faz vôo aos corações.


Jurou a língua, não jurou a alma.



Como puseste, grande Deus, no mundo
Mulheres, mal espúrio e contrafeito?
Se propagar a nós mortais querias,
Não devias fazê-lo por tal sexo.
Melhor era que os homens ofertassem
Bronze em teu templo, ou ferro, ou peso d’ouro;
E assim comprassem filhos, dando o preço
Digno de cada um: e em suas casas
Vivessem sós e livres de mulheres.
Para trazer à nossa companhia
Este mal, grossas somas despendemos:
Donde se vê, que o dano não é leve.
O pai, que as gera e educa com cuidado,
Para lançar de si este mal grave,
Grande dote acumula: e o que recebe
Este duro infortúnio dentro em casa,
Alegra-se, e orna a infeliz estátua
Com atavios mil, jóias, vestidos.
E assim suas riquezas desperdiça.
A isso é obrigado, que enlaçar-se
Foi a ilustres afins, e o acerbo peso
É força suportar de tal união:
E se alguém conseguiu útil consorte,
E inúteis sogros, esse bem mitiga
O mal um tanto: mas melhor reputo
A tudo isso fugir, ou que na casa
Por sua estupidez a mulher seja
Uma coluna inútil: mulher sábia
Eu a aborreço: em minha companhia
Mulher não veja, que saber pretenda
Mais que a mulher convém: porquanto às sábias
Malignas artes Vénus lhes infunde,
O que por tais, as néscias não aprendem.
Era também razão, que não entrassem
Criadas nas estâncias das mulheres,
E que por companhia só tivessem
Mudas feras; ninguém a elas ouvisse,
E ninguém lhes falasse: porque as servas
Que têm nos aposentos, gente indigna,
E assaz perversa, ali os maus conselhos
Lhes inspiram, dali os levam fora.
(…)
Pereçais todas, quantas sois, mulheres!
Jamais me saciarei de aborrecer-vos.
Ainda que estranhe alguém dizê-lo eu sempre,
Pois que elas sempre, sempre são perversas.
E se alguém me mostrar que elas são castas,
Eu também cessarei de maldizê-las.



Mísero e infeliz é o destino
Do feminino sexo!


Pereça todo o que pretende
Benfazer aos amigos, que o não querem;
E por um modo tão indigno e feio!


Pelos fins julgamos os conselhos.


Tomar muitos cuidados é na vida
Arriscado.


Senhor, tu calas: de nenhum proveito
O silêncio é nos males; e se ansioso
O coração deseja saber tudo,
Até nas desgraças de as saber é ávido.



Ó audácia
Dos mortais, que caís em tantos erros,
Que aos homens ensinais tantas ciências,
Tantas artes achais, tantos inventos,
E uma coisa ignorais inteiramente:
Bom e sábio fazer quem não tem siso.


Oh que devia haver um sinal claro
Entre os mortais acerca dos amigos,
Que desse a conhecer do íntimo d’alma,
Qual fosse o verdadeiro, e qual o falso.
Demais, deviam ter todos os homens
Duas línguas, justa uma e verdadeira,
Outra qualquer que fosse: e quando a injusta
Algum mal meditasse, a verdadeira
A arguisse, por não sermos enganados.


A vã soberba
Dos mortais, seu ousado atrevimento,
Até onde chegará? pois se crescendo
Em cada geração a louca audácia
Dos homens, os vindouros forem sempre
Piores que os passados, será força
Que a esta terra os deuses outra ajuntem,
Que recolha os injustos e os perversos.


E destes tais eu clamarei a todos
Que fujam; pois pretendem com palavras
Formosas granjear estima e fama,
Quando maquinam as ações mais feias.


Já não sei, como algum mortal eu possa
Chamar feliz, se a mor boa ventura
Em desgraça se torna num momento!



(…)Pois muitos, que entre os sábios nada valem,
São destros em falar ao vulgo néscio.


E o estar desviado de perigos
Causa prazer maior, que ser monarca.


Logo desmaio,
Se considero
Nos mortais méritos,
Que mal se ajustam:
Nas aventuras,
Que tanto alternam.
A Sorte troca-se,
A Vida volve-se,
Errante sempre
Por mil desvios.


Estas mercês quisera
Que o Céu me concedesse,
E muito lhas suplico:
Ventura com riqueza,
Ânimo generoso,
Que dores não curvassem,
Costumes, que pudessem
Facilmente amoldar-se
Ao tempo: então vivera
Feliz com muitos outros.
















sexta-feira, 12 de abril de 2013

Eurípedes- As Troianas


O bem que não se deseja, não é apreciado.

Dos que são felizes, não se creia que algum é afortunado, antes de morrer.

Uma desgraça disputa à outra a precedência.

Não é a mesma coisa, morrer ou desgraçada, ver aluz do dia. Uma coisa é nada; na outra reside a esperança.

(…) Por mim, proclamo que não nascer ou morrer é igual, e morrer é melhor do que viver na dor. Quem foi feliz e cai na desgraça, o seu espírito vagueia à volta do antigo bem-estar.

Sofre com nobreza as tuas dores, e não aparentes ser forte, quando não tens força alguma.

Toda a intemperança é para os mortais Afrodite.


Hécuba: Não ama verdadeiramente quem não amar sempre.
Menelau: Depende da disposição de espírito de quem ama.


De desgraças novas desgraças saem.

Louco é aquele, dentre os mortais, que julga estável a sua prosperidade e nisso se compraz. Pois o hábito da sorte é andar aos saltos, ora para um lado, ora para outro, como um homem caprichoso, e não há ninguém que seja sempre bem sucedido.

Penso que para os mortos pouco difere obter ou não ricos adornos. Isso é apenas uma jactância oca dos vivos.






quinta-feira, 11 de abril de 2013

Eurípedes- Medeia


(…)Porque é essa certamente a maior segurança, que a mulher não discorde do marido.

Como uma rocha ou uma onda do mar, assim escuta os amigos, quando a aconselham.

Estamos perdidos, se ao mal antigo juntamos um novo, antes de aquele ter murchado.

E quem não é assim dentre os mortais? Ainda agora é que sabes que cada um se ama mais a si do que ao próximo (…)

(…) e que fará, tão malferida, e implacável uma alma mordida pela desgraça?

Duro é dos soberanos o querer e, pouco mandados, podendo muito, dificilmente mudam suas iras. Melhor é o costume de viver na igualdade; a mim me seja dada velhice tranquila e sem grandezas. Da moderação, vale nome mais que tudo. Dela usar é bem melhor para os mortais; aos homens de nada serve passar tal medida. Maior a pena da desgraça que sofrem, quando em fúria o demónio anda em casa.

(…)Se disseres inábeis e ignaros os antigos mortais, não erras; eles que para festas, banquetes e ceias acharam da vida suaves acentos, compondo hinos. Mas entre os mortais, nem um descobriu como fazer cessar com a musa e o canto multíssono, o hórrido desgosto, donde sai a morte e o fado terrível. E contudo era bom sarar com cantos os mortais.

Eu sei que muitos dentre os mortais são arrogantes, uns longe da vista, outros à porta de casa; outros, atravessando a vida com passo tranquilo, hostil fama que ganharam de vileza. Porque é que não há justiça aos olhos dos mortais, se alguém antes de bem conhecer o íntimo do homem, o odeia só de o ver, sem ter sido ofendido? Tampouco louvo do cidadão que é acerbo para os outros, por falta de sensibilidade.

Para nós, força é que contemplemos uma só pessoa.

Que jamais alguém, que seja por natureza astuto, instrua os filhos mais do que o preciso, fazendo deles sábios. Porque, além da mancha da inércia, que têm, ganharão malevolente inveja dos seus concidadãos. É que, para a multidão ignara, quem for o portador de uma nova sabedoria, passará por inútil, e não por sábio. E quem, na cidade, for julgado melhor do que aqueles que aparentam saber muitas coisas será tido como indesejável.


 Como eu preferiria mil vezes estar na linha de batalha a ser uma só vez mãe!

Cheia de medo é a mulher, e vil perante a força e à vista do ferro. Mas quando no leito a ofensa sentir, não há aí outro espírito que penda mais para o sangue.

Melhor é para mim mostrar-me agora odioso, ó mulher, do que gemer depois de enfraquecido.

Dizes palavras brandas ao ouvidos, mas dentro da tua alma tenho o temor de que premedites algum mal para mim, e tanto mais que antes acreditei em ti. Porque a uma mulher irascível, tal como a um homem, é mais fácil guardá-la do que a um sábio silencioso.

Ou pensais que, se o lisonjeei, não era para ganhar ou tramar alguma coisa?

Além de que nascemos mulheres, para as ações nobres incapacíssimas, mas de todos os males artífices sapientíssimas.

A fama mudará, trazendo à minha vida glória; a honra virá para a raça das mulheres e fama inglória não mais nos manchará.

Ó grande malvado – que está é a pior injúria que a minha língua tem para a tua covardia – tu vieste ter connosco, tu vieste, odiosa criatura? Isto já não é atrevimento, isto já não é ousadia – olhar de frente para os amigos a quem se faz mal – mas a maior de todas as enfermidades humanas, a falta de vergonha. Mas fizeste bem em vir. Porque eu, injuriando-te, aliviarei a minha alma, e tu, ouvindo-me, passarás pela tortura.

Terrível é a ira, e insanável, quando amigos contra amigos lançam a discórdia.

(…)todos os amigos fogem de quem é pobre...

Mas a tal ponto chegastes que, estando o consórcio em boa ordem, vós, mulheres, supondes ter tudo; se, porém, surge algum contratempo no matrimónio, das melhores e mais belas relações fazem as mais hostis.

Para mim, quem, sendo injusto, é hábil no dizer, merece muito maior castigo. Com uma língua artificiosa se gaba de enfeitar a injustiça e ousa cometer o mal; mas ele não é tão destro como isso.

O amor quando é forte nem renome nem virtude dá aos homens. Ai! mas Vénus, quando é branda, não há deusa mais graciosa!

Dentre as penas maior não há que ser da pátria arrancado.

É que não se pode tolerar que os inimigos escarneçam de nós.

Ninguém me suponha fraca ou débil, nem sossegada; outro é o meu caráter: dura para os inimigos, benévola para os amigos. Porque de tais pessoas a vida é gloriosíssima.

Frágil é a mulher e nascida para as lágrimas.

Há um provérbio que diz que os presentes até aos deuses convencem. O ouro é para os mortais mais potente do que mil argumentos.

Mais potente do que a minha vontade, é a paixão, que é a causa dos maiores males para os mortais.

Dentre os mortais, quem filhos nunca teve nem experimentou, digo eu que está no melhor caminho da felicidade, mais que quem os teve. Quem não tem filhos nem experimentou, seja isso um bem, seja isso um mal para os mortais – não tendo descendência, muita dor evitam.
Mas aqueles para quem dos filhos em casa existe o doce rebento, eu vejo o tempo em tormento passar. Como criá-los da melhor maneira, depois, da vida deixar-lhes os meios? Depois, se para o bem, se para o mal os criam, e para isso se esforçam, até isso é incerto.

Para que serve então aos homens os deuses, além dos outros males, um desgosto mais forte que todos ( na vida acharam bem-estar bastante, à flor da juventude eles já chegaram, e nobres são; mas a sorte o decide, os tira do caminho e a morte lhes leva dos filhos para o Hades os corpos belos), por causa de ter filhos, lhe acrescentem?

Aqueles dentre os homens que têm fama de sábios e de artificiosos nos seus discursos, esses mesmos merecem o maior dos castigos. Dos mortais, não há um só homem que seja feliz. Pode, se sobrevier à prosperidade, ser um mais bem-sucedido do que o outro, mas, feliz, não é nenhum.

Por que hesitamos e não executamos os males terríveis, mas necessários?





 

terça-feira, 9 de abril de 2013

Marguerite Duras- O Amante


Um dia, já eu era velha, um homem dirigiu-se-me à entrada de um lugar público. Deu-se a conhecer e disse-me: "Conheço-a desde sempre. Toda a gente diz que você era bonita quando era nova, vim dizer-lhe que, para mim, acho-a mais bonita agora do que quando era jovem, gostava menos do seu rosto de mulher jovem do que daquele que tem agora, devastado. "
(…)Muito cedo na minha vida foi tarde de mais. Aos dezoito anos era já tarde de mais. Entre os dezoito e os vinte e cinco anos o meu rosto partiu numa direcção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se é assim com toda a gente, nunca perguntei. Parece-me ter ouvido falar dessa aceleração do tempo que nos fere por vezes quando atravessamos as idades mais jovens, mais celebradas da vida. Este envelhecimento foi brutal. Vi-o apoderar-se dos meus traços um a um, alterar a relação que havia entre eles, tornar os olhos maiores, o olhar mais triste, a boca mais definitiva, marcar a fronte de fendas profundas. Em vez de me assustar, vi operar-se este envelhecimento do meu rosto com o interesse que teria, por exemplo, pelo desenrolar de uma leitura. Sabia também que não me enganava, que um dia ele abrandaria e retomaria o seu curso normal.
As pessoas que me tinham conhecido aos dezassete anos aquando da minha viagem a França ficaram impressionadas quando me voltaram a ver, dois anos depois, aos dezanove anos. Conservei esse novo rosto. Foi o meu rosto. Envelheceu ainda, evidentemente, mas relativamente menos do que deveria. Tenho um rosto lacerado de rugas secas e profundas, a pele quebrada. Não amoleceu como certos rostos de traços finos, conservou os mesmos contornos mas a sua matéria está destruída. Tenho um rosto destruído.

Vi sempre a minha mãe fazer todos os dias o futuro dos filhos e o seu. Um dia, já não estava em condições de fazer futuros grandiosos para os filhos, fez então outros, futuros colados com cuspo mas que mesmo assim desempenhavam a sua função, faziam uma barreira ao tempo à sua frente.

Já sei muito. Sei uma coisa. Sei que não são os vestidos que fazem as mulheres mais ou menos bonitas, nem os cuidados de beleza, nem o preço dos cremes, nem a raridade, o preço dos enfeites. Sei que o problema está algures. Não sei onde. Sei só que não está onde as mulheres julgam.


Não havia que atrair o desejo. Ele estava naquela que o provocava ou não existia. Estava lá desde o primeiro olhar ou então nunca existira. Era a inteligência imediata da relação de sexualidade ou então não era nada. Isso soube-o eu antes da experiência.

Resta aquela pequena que cresce e que saberá talvez um dia como fazer entrar dinheiro naquela casa. É por esta razão, embora não o saiba, que a mãe deixa a sua filha sair naquela figura de criança prostituída. E é por isso também que a criança sabe já muito bem como fazer para desviar a atenção que lhe dão a ela para a que ela dá ao dinheiro. Isso faz sorrir a mãe.

Morreu entre Dô e aquele a quem chama o seu filho no grande quarto do primeiro andar, o mesmo onde punha carneiros a dormir, quatro a seis carneiros à volta da cama nos períodos de geada, durante vários invernos, os últimos.

Vejo que a minha mãe é indubitavelmente louca. Vejo que Dó e o meu irmão tiveram sempre acesso a essa loucura. Que eu, não, nunca a tinha visto. Que nunca tinha visto a minha mãe como uma louca. Ela era-o. De nascença. No sangue. Não era doente da sua loucura, vivia-a como a saúde.

(…)tinha uma civilidade sublime até no saber, um modo ao mesmo tempo essencial e transparente de se servir do conhecimento, sem nunca fazer sentir a sua obrigação, o peso. Era uma pessoa sincera (…)

É a mesma coisa, a mesma piedade, o mesmo pedido de socorro, a mesma debilidade do juízo, a mesma superstição, digamos, que consiste em acreditar na solução política do problema pessoal.

Desonrada, dizem as pessoas? E eu digo: como é que a inocência se poderia desonrar?

Era preciso prevenir as pessoas destas coisas. Ensinar-lhes que a imortalidade é mortal, que ela pode morrer, que já aconteceu, que ainda acontece. Que não se anuncia enquanto tal, nunca, que é a duplicidade absoluta. Que não existe no pormenor, mas apenas no princípio. Que certas pessoas podem dela transportar a presença na condição de ignorarem que o fazem. Tal como certas outras pessoas podem detectar-lhe a presença nessas pessoas, na mesma condição, ignorarem que o podem fazer. Que é enquanto ela se vive que a vida é imortal, enquanto está em vida. Que a imortalidade não é uma questão de mais ou menos tempo, que não é uma questão de imortalidade, que é questão de outra coisa que permanece ignorada. Que é tão falso dizer que ela não tem começo nem fim, como dizer que começa e acaba com a vida do espírito uma vez que é do espírito que ela participa e da perseguição do vento. Olhai as areias mortas dos desertos, o corpo morto das crianças: a imortalidade não passa por aí, pára e contorna.




domingo, 7 de abril de 2013

Marguerite Duras- Os Insolentes


Durante vários meses o casal pudera levar uma existência daquele género de que se diz que é fútil por não ter um propósito, mas que, na realidade, é bastante difícil viver: uma existência ociosa perfeitamente egoísta, mesmo quando apresenta uma aparência de generosidade, e que consiste na sucessão ininterrupta de prazer e de descanso, no exorcismo contínuo do aborrecimento.

Assim se desfazia das coisas como das pessoas depois de as ter amado com violência, era incapaz de se ligar profundamente ao mesmo objecto.

Mas, infelizmente, pode-se sonhar durante muito tempo com uma coisa que se revela decepcionante quando surge a oportunidade de ser realizada, porque acaba sempre por ser menos brilhante do que se esperava.

Soube refrear a sua imaginação, que de resto nunca a cegara. Nela a paixão assumia, normalmente, um ar ponderado e exprimia-se habilmente.

Não se submetia a nenhuma obrigação, a não ser, talvez, a de se deixar viver.

Acreditou que a felicidade era apanágio desses momentos mágicos em que todas as dificuldades se dissipavam no próprio núcleo da desordem que gera uma catástrofe.

A beleza mesmo sendo grande, precisa de autoconsciência para se afirmar.

Quando lhe pediam a opinião, o prazer que lhe dava a consulta era tão grande que o fazia durar até ele próprio já não conseguir aguentar a impaciência.