sexta-feira, 26 de abril de 2013

Eurípedes- Alceste


Nada conseguirás daquilo que não deves conseguir.

Nunca direi que o himeneu dê mais venturas do que dores.

A madrasta que sucede à esposa é inimiga dos filhos do primeiro matrimónio, e em nada inferior a uma víbora!

É grato, com efeito, rever aqueles a quem amamos, em quaisquer circunstâncias, inclusive em sonho.

O tempo moderará tua dor.

No entanto, ser e não ser são coisas muito diferentes. (Mais tarde em Hamlet: ser ou não ser…)

Mentem os velhos que a cada momento invocam a morte, queixando-se da velhice, e da longa duração da vida; pois se a morte se aproxima, ninguém quer morrer, e a velhice deixa de ser um doloroso fardo!

Depois de morto, pouco me importa que falem mal de mim!

(…)Tu, porém, vendo neste recinto um sincero amigo de teu senhor, tu o recebes com fisionomia triste, e sobrancelhas carregadas, preocupado por algum motivo estranho. Vem cá: quero ensinar-te a ser mais delicado. Sabes tu, por acaso, de que natureza são os seres humanos? Creio que ignoras; com efeito, como poderias saber tal coisa? Ouve, pois: todos os homens são condenados a morrer, e não há um só que possa assegurar um dia que ainda estará vivo no dia imediato. O que depende da sorte nos é oculto; nada a tal respeito nos pode instruir, e nenhuma ciência jamais revelará. Portanto, convencido dessas verdades, que acabas de ouvir de mim, trata de gozar a alegria, de beber à vontade, de aproveitar a vida que passa; que fique o mais a cargo do Destino! Presta homenagem a Vénus, a deusa que maiores delícias concede aos mortais. Que deusa generosa ela é! Não cures do resto; segue meus conselhos, porque eu sei que são bons. Deixa essa melancolia, homem, e vem beber comigo! Transpõe esta porta, e coroa-te de flores! Estou certo de que o tilintar das taças afugentando-te a tristeza, há-de conduzir a um ditoso porto. Visto que somos mortais, convém que nos conformemos à condição das coisas mortais. Com efeito, a vida para os homens austeros e tristes, não é a verdadeira vida, mas um suplício, e nada mais!

Invejo a sorte dos que não têm mulher, nem filhos... Possuem uma única alma, e sofrer por ela será um fardo suportável. Mas ver o sofrimento dos filhos, e ver devastado pela morte o leito nupcial, eis um espetáculo intolerável, quando se poderia ter vivido sem prole, e sem o matrimónio!

É bem mais fácil exortar os outros a que se resignem, do que enfrentar o mal que nos aflige.

O pranto é um alívio para o coração que se angustia.


HERACLES
 O tempo abrandará teu desgosto, que por ora ainda sentes tão violento!
ADMETO
Ah! O tempo... tu dizes bem: o tempo significa a aproximação da morte!


Os acontecimentos que o céu nos proporciona manifestam-se sob as mais diversas formas; e muita coisa acontece, para além de nossos temores e suposições; muita vez o que se espera, nunca sucede; e o que nos assombra, realiza-se com a ajuda dos deuses.




quarta-feira, 24 de abril de 2013

Eurípedes- As Bacantes


Um homem com audácia e arguto no falar, porém sem discernimento, funesto cidadão será.

Sabedoria não é sensatez, nem o é raciocinar acima de mortal. Curta é a vida; se para lá da medida alguém busca a grandeza, os bens presentes não sustentará. De loucos são tais hábitos, e de insensatos, a meu ver.

Quem me dera ir para Chipre,
de Afrodite a ilha,
lá onde reinam, do coração dos mortais
sedução, os Amores!

Ao ignorante, o que fala com senso parece não pensar bem.

Ao homem sensato cabe cultivar uma disposição equilibrada.

Nada há mais nocivo que suportar que nos subjuguem as mulheres!

O que é honroso, deleitoso é sempre!

Múltiplos os homens, múltiplas as esperanças suas, umas em dita se acabam para os mortais, outras se esfumam... Quem da ventura do dia a dia desfruta, eu tenho por feliz!




sexta-feira, 19 de abril de 2013

Eurípedes- Ifigénia em Áulide


Invejo aqueles que, livres de perigos, passam obscuramente uma vida sem glória; aos que vivem entre honrarias, invejo menos.

(…) a doçura mais estimada que no  fastio anoja.

Nenhum mortal é feliz até ao fim, nenhum nem afortunado, pois nunca nasceu ninguém imune ao sofrimento.

Uma mente inconstante é fonte de injustiça e insegurança para os amigos.

Não deve um homem de têmpera lá porque ascendeu a grandes cargos, seus costumes mudar, mas até deve ser então muito mais fiel aos amigos, agora que, na prosperidade, mais possível lhe é ajudá-los.

Qualquer homem desde que inteligente pode ser chefe.

O homem bom gosta de se respeitar.

Tu podes não querer pensar direito, mas eu agirei como devo.

Um humilde nascimento que vantagem não tem! Pode-se chorar à vontade e tudo desabafar. Mas, ao bem nascido, tal não lhe permite a sua grandeza. É o decoro que governa a nossa vida e da multidão somos escravos. É que o pejo me vem de lágrimas verter, o pejo me vem, depois, de não chorar a minha desgraça, neste momento em que aos maiores infortúnios cheguei.

Semente de adivinhos, toda ela é ambição e desgraça!

(…) os alimentos do ensino muito contribuem para a virtude (…) Algo de grande é perseguir a virtude (…)

 Deveria o homem sábio manter em sua casa mulher boa e virtuosa, ou então não a ter.

Sei com medida agastar-me com os reveses e alegrar-me com os reveses e alegrar-me, quando as velas ficam pandas aos ventos.

Como louvar-te sem excesso de palavras nem ficar em falta com o favor que te devo?
É que os bons, quando são elogiados de qualquer modo, odeiam quem os louva, se caírem no excesso.

Nobreza tem-na, decerto, o homem bom, ao ajudar, mesmo se está de fora, os infelizes.

As razões, os temores vencem na disputa.



Onde está a face do Pudor
ou da Virtude
que possam defender-te,
quando a impiedade
detém o poder, e a Virtude, por desdenhada,
aos mortais não dá cuidado?
A Desordem das leis triunfa,
E esforço comum não há entre os homens,
Para que dos deuses o castigo não venha.


Compramos o que é mais odioso pelo preço do que nos é mais caro!

Dos males o sentimento até nas crianças é inato.

Ver esta luz do dia é, para os homens, o que há mais de doce;
E debaixo da terra é o nada; é louco quem anseia morrer.
Melhor é viver mal que bem morrer.


Plena  de sofrimentos
É dos efémeros mortais a geração, e dolorosa,
Para os homens, a descoberta da Necessidade.


Melhor é que um homem só contemple do dia a luz, que mulheres mil. lol






quarta-feira, 17 de abril de 2013

Eurípedes- Electra


Para os mortais é uma felicidade encontrar quem os conforte no infortúnio.

(…) ele tem com que se nutrir: mas um desterrado é sempre um indigente.

A compaixão é natural, não nas naturezas rudes, mas no coração dos sábios; mas a prudência em excesso pode ser prejudicial a quem a possui.

Ah! Não há sinal seguro quanto à virtude de um homem. A natureza dos mortais nos induz à confusão... Já vi o filho de um homem ilustre tornar-se um nulo, e filhos de criaturas perversas revelarem nobres qualidades. Tenho visto a miséria na alma de um ricaço, e um belo espírito no corpo de um pobretão. Como havemos de discernir as coisas? Pela riqueza? Seria um péssimo guia... Pelo que nada tem? Mas a pobreza não raro instiga ao mal aquele a quem tudo falta. Devemos nos regular pelas armas? Mas quem pode assegurar, vendo uma lança, que o indivíduo que a leva é valente? O melhor é deixar correr o mundo...

Os corpos sem espírito valem menos que as estátuas da ágora. Um braço robusto não sustém melhor a lança do que um mais fraco; é a índole, e o valor moral que tudo fazem.

Saiba todo aquele que corromper a esposa de outrem por uma união adúltera, e que com ela se consorcia, que é infeliz se supuser que ela lhe concederá a fidelidade que já não concedera ao outro. Tu vivias miseravelmente, na ilusão de que eras feliz...

(…) mas riquezas nada valem, porque são incertas e transitórias... Só a moral prevalece, e não a pecúnia. A moral granjeia duradouro renome, e triunfa do infortúnio; a opulência injusta torna-se presa dos perversos, e desaparece dos lares onde terá permanecido por pouco tempo...

Os descendentes de homens fortes nascem predestinados à carreira das armas; mas os filhos dos outros nunca passarão de dançarinos...

E que ninguém se ufane por ter vencido a primeira corrida; que ninguém se considere vencedor enquanto não houver atingido o termo da humana vida!

(…) Eu te falarei, embora saiba que uma mulher, quando perseguida por uma ruim fama, tem sempre a incredulidade contra suas palavras.

(…) porquanto os maus, muitas vezes, proporcionam aos bons a oportunidade para a prática de ações exemplares.

É um louco aquele que, seduzido pelas riquezas, ou pelo nascimento ilustre de alguém, se casa com uma mulher perversa. Um casamento humilde e puro leva vantagem, na família, por sua grandeza.

Há sempre uma compensação nos grandes males!

Só é ditoso aquele que tem a consciência tranquila, e não é ferido pelos golpes da desgraça!

domingo, 14 de abril de 2013

Eurípedes- Hipólito


Que um ponto não se ofusque a minha glória.


Uns, uns deuses veneram, outros, outros,
Bem como os homens.


Doença é um mal só, mas curar dela
Une à aflição do espírito a fadiga
Que sente o corpo.


Dolorosa é a vida dos humanos,
E descanso não têm em seus trabalhos;
Mas trevas que nos cercam, nos encobrem
Outra vida mais doce: loucamente
Amamos esta luz, que a terra doira,
Porque outra mais formosa não provámos,
Porque ignoramos o que encobre a terra,
Prestando fé a fábulas sonhadas.


Sossego, e ânimo forte levar podem
O mal mais facilmente.
É força que os mortais tenham trabalhos.

Muitas coisas ensina a longa vida.
Muito convinha, que os mortais travassem
Entre si amizades moderadas,
Que não entrassem no íntimo da alma:
E que a prisão, que os corações enlaça,
Fosse fácil, querendo desatá-la,
Ou apertá-la mais.
(…)
É visto, que da vida
O supérfluo cuidado maior dano
Lhe causa, e a não consola; e da saúde
É mortal inimigo: assim não louvo
Excesso e demasia em coisa alguma,
E comigo o dirão todos os sábios.


FEDRA: Que é o que dizem ser, amar os homens?
AIA: Gostoso, filha, e juntamente acerbo.


Da natural razão, que tantas vezes
O pior abraçamos: porque muitos
Têm senso, mas sucede deste modo.
Entendemos o bem, e o conhecemos:
Mas não o executamos, uns por frouxos;
Outros, porque ao honesto preferimos
Outro prazer diverso, pois são muitos
Os prazeres da vida; nestes conto
O excessivo conversar sem tento e fruto;
E o ócio, doce mal: e até o pejo.


A língua é infiel: males dos outros,
E erros alheios consolar bem pode;
Mas a si mesma grandes danos causa.


Oh desgraçada seja
Por mil modos aquela, que primeiro
Seu leito conjugal afrontou, trazendo a ele
Homem estranho; e nas ilustres casas
 Abriu tão torpe e vergonhoso exemplo!
Sim, que quando a torpeza agrada aos nobres,
Os humildes a têm por honra e glória.


(…)que mais conforta a vida,
Que ter desejos, e obras generosas.


O tempo, qual o espelho da donzela
Os torpes mostra, ou agora, ou logo.
Entre estes, oxalá, não seja eu vista.


Amas? que maravilha? muitos amam.
E porque amas, perder queres a vida?
Então amar não devem, os que ora amam,
Nem os que hão-de amar, se a morte é certa.


E quantos cuidas tu muito sensatos,
Que vêem seu leito ir mal, e o dissimulam?
E a quantos erraram com as filhas,
Vénus os ajudou, porque é prudência
Nos mortais encobrir o que é desaire.
Vida não nos convém muito severa.
Nem os tetos, que cobrem nossas casas,
Se obram em perfeição: se estás caída
Em desventura tal, qual me confessas,
Como pretendes dela levantar-te?
Se tu, humana sendo, mais bens logras
Do que são os teus males, és ditosa.


Suporta teu amor; quis dar-to a deusa.
Se mal padeces, teu mal bem termina;
Há encantos, há mágicas palavras,
Que o podem suavizar: algum remédio
Poderemos achar: pois tarde os homens
O que as mulheres não pudermos, achariam.


Eis o que já perdeu nobres cidades,
E famílias, discursos concertados:
Mas dizer não devemos o que agrada,
Mas sim o que nos ganha honra e fama.


Amor, amor, que instilas
Pelos olhos no peito teus afetos,
Doce, e brando prazer introduzindo
N’alma dos que combates,
Não me venhas com dano,
Nem forte e em demasia;
Pois os tiros do fogo,
E do raio não fazem
Mais funestos estragos,
Que as despontadas setas
De amor, que da mão vibra
Eros (Deus do amor)


O Amor é temível,
A todos acomete;
E qual abelha às flores,
Faz vôo aos corações.


Jurou a língua, não jurou a alma.



Como puseste, grande Deus, no mundo
Mulheres, mal espúrio e contrafeito?
Se propagar a nós mortais querias,
Não devias fazê-lo por tal sexo.
Melhor era que os homens ofertassem
Bronze em teu templo, ou ferro, ou peso d’ouro;
E assim comprassem filhos, dando o preço
Digno de cada um: e em suas casas
Vivessem sós e livres de mulheres.
Para trazer à nossa companhia
Este mal, grossas somas despendemos:
Donde se vê, que o dano não é leve.
O pai, que as gera e educa com cuidado,
Para lançar de si este mal grave,
Grande dote acumula: e o que recebe
Este duro infortúnio dentro em casa,
Alegra-se, e orna a infeliz estátua
Com atavios mil, jóias, vestidos.
E assim suas riquezas desperdiça.
A isso é obrigado, que enlaçar-se
Foi a ilustres afins, e o acerbo peso
É força suportar de tal união:
E se alguém conseguiu útil consorte,
E inúteis sogros, esse bem mitiga
O mal um tanto: mas melhor reputo
A tudo isso fugir, ou que na casa
Por sua estupidez a mulher seja
Uma coluna inútil: mulher sábia
Eu a aborreço: em minha companhia
Mulher não veja, que saber pretenda
Mais que a mulher convém: porquanto às sábias
Malignas artes Vénus lhes infunde,
O que por tais, as néscias não aprendem.
Era também razão, que não entrassem
Criadas nas estâncias das mulheres,
E que por companhia só tivessem
Mudas feras; ninguém a elas ouvisse,
E ninguém lhes falasse: porque as servas
Que têm nos aposentos, gente indigna,
E assaz perversa, ali os maus conselhos
Lhes inspiram, dali os levam fora.
(…)
Pereçais todas, quantas sois, mulheres!
Jamais me saciarei de aborrecer-vos.
Ainda que estranhe alguém dizê-lo eu sempre,
Pois que elas sempre, sempre são perversas.
E se alguém me mostrar que elas são castas,
Eu também cessarei de maldizê-las.



Mísero e infeliz é o destino
Do feminino sexo!


Pereça todo o que pretende
Benfazer aos amigos, que o não querem;
E por um modo tão indigno e feio!


Pelos fins julgamos os conselhos.


Tomar muitos cuidados é na vida
Arriscado.


Senhor, tu calas: de nenhum proveito
O silêncio é nos males; e se ansioso
O coração deseja saber tudo,
Até nas desgraças de as saber é ávido.



Ó audácia
Dos mortais, que caís em tantos erros,
Que aos homens ensinais tantas ciências,
Tantas artes achais, tantos inventos,
E uma coisa ignorais inteiramente:
Bom e sábio fazer quem não tem siso.


Oh que devia haver um sinal claro
Entre os mortais acerca dos amigos,
Que desse a conhecer do íntimo d’alma,
Qual fosse o verdadeiro, e qual o falso.
Demais, deviam ter todos os homens
Duas línguas, justa uma e verdadeira,
Outra qualquer que fosse: e quando a injusta
Algum mal meditasse, a verdadeira
A arguisse, por não sermos enganados.


A vã soberba
Dos mortais, seu ousado atrevimento,
Até onde chegará? pois se crescendo
Em cada geração a louca audácia
Dos homens, os vindouros forem sempre
Piores que os passados, será força
Que a esta terra os deuses outra ajuntem,
Que recolha os injustos e os perversos.


E destes tais eu clamarei a todos
Que fujam; pois pretendem com palavras
Formosas granjear estima e fama,
Quando maquinam as ações mais feias.


Já não sei, como algum mortal eu possa
Chamar feliz, se a mor boa ventura
Em desgraça se torna num momento!



(…)Pois muitos, que entre os sábios nada valem,
São destros em falar ao vulgo néscio.


E o estar desviado de perigos
Causa prazer maior, que ser monarca.


Logo desmaio,
Se considero
Nos mortais méritos,
Que mal se ajustam:
Nas aventuras,
Que tanto alternam.
A Sorte troca-se,
A Vida volve-se,
Errante sempre
Por mil desvios.


Estas mercês quisera
Que o Céu me concedesse,
E muito lhas suplico:
Ventura com riqueza,
Ânimo generoso,
Que dores não curvassem,
Costumes, que pudessem
Facilmente amoldar-se
Ao tempo: então vivera
Feliz com muitos outros.
















sexta-feira, 12 de abril de 2013

Eurípedes- As Troianas


O bem que não se deseja, não é apreciado.

Dos que são felizes, não se creia que algum é afortunado, antes de morrer.

Uma desgraça disputa à outra a precedência.

Não é a mesma coisa, morrer ou desgraçada, ver aluz do dia. Uma coisa é nada; na outra reside a esperança.

(…) Por mim, proclamo que não nascer ou morrer é igual, e morrer é melhor do que viver na dor. Quem foi feliz e cai na desgraça, o seu espírito vagueia à volta do antigo bem-estar.

Sofre com nobreza as tuas dores, e não aparentes ser forte, quando não tens força alguma.

Toda a intemperança é para os mortais Afrodite.


Hécuba: Não ama verdadeiramente quem não amar sempre.
Menelau: Depende da disposição de espírito de quem ama.


De desgraças novas desgraças saem.

Louco é aquele, dentre os mortais, que julga estável a sua prosperidade e nisso se compraz. Pois o hábito da sorte é andar aos saltos, ora para um lado, ora para outro, como um homem caprichoso, e não há ninguém que seja sempre bem sucedido.

Penso que para os mortos pouco difere obter ou não ricos adornos. Isso é apenas uma jactância oca dos vivos.






quinta-feira, 11 de abril de 2013

Eurípedes- Medeia


(…)Porque é essa certamente a maior segurança, que a mulher não discorde do marido.

Como uma rocha ou uma onda do mar, assim escuta os amigos, quando a aconselham.

Estamos perdidos, se ao mal antigo juntamos um novo, antes de aquele ter murchado.

E quem não é assim dentre os mortais? Ainda agora é que sabes que cada um se ama mais a si do que ao próximo (…)

(…) e que fará, tão malferida, e implacável uma alma mordida pela desgraça?

Duro é dos soberanos o querer e, pouco mandados, podendo muito, dificilmente mudam suas iras. Melhor é o costume de viver na igualdade; a mim me seja dada velhice tranquila e sem grandezas. Da moderação, vale nome mais que tudo. Dela usar é bem melhor para os mortais; aos homens de nada serve passar tal medida. Maior a pena da desgraça que sofrem, quando em fúria o demónio anda em casa.

(…)Se disseres inábeis e ignaros os antigos mortais, não erras; eles que para festas, banquetes e ceias acharam da vida suaves acentos, compondo hinos. Mas entre os mortais, nem um descobriu como fazer cessar com a musa e o canto multíssono, o hórrido desgosto, donde sai a morte e o fado terrível. E contudo era bom sarar com cantos os mortais.

Eu sei que muitos dentre os mortais são arrogantes, uns longe da vista, outros à porta de casa; outros, atravessando a vida com passo tranquilo, hostil fama que ganharam de vileza. Porque é que não há justiça aos olhos dos mortais, se alguém antes de bem conhecer o íntimo do homem, o odeia só de o ver, sem ter sido ofendido? Tampouco louvo do cidadão que é acerbo para os outros, por falta de sensibilidade.

Para nós, força é que contemplemos uma só pessoa.

Que jamais alguém, que seja por natureza astuto, instrua os filhos mais do que o preciso, fazendo deles sábios. Porque, além da mancha da inércia, que têm, ganharão malevolente inveja dos seus concidadãos. É que, para a multidão ignara, quem for o portador de uma nova sabedoria, passará por inútil, e não por sábio. E quem, na cidade, for julgado melhor do que aqueles que aparentam saber muitas coisas será tido como indesejável.


 Como eu preferiria mil vezes estar na linha de batalha a ser uma só vez mãe!

Cheia de medo é a mulher, e vil perante a força e à vista do ferro. Mas quando no leito a ofensa sentir, não há aí outro espírito que penda mais para o sangue.

Melhor é para mim mostrar-me agora odioso, ó mulher, do que gemer depois de enfraquecido.

Dizes palavras brandas ao ouvidos, mas dentro da tua alma tenho o temor de que premedites algum mal para mim, e tanto mais que antes acreditei em ti. Porque a uma mulher irascível, tal como a um homem, é mais fácil guardá-la do que a um sábio silencioso.

Ou pensais que, se o lisonjeei, não era para ganhar ou tramar alguma coisa?

Além de que nascemos mulheres, para as ações nobres incapacíssimas, mas de todos os males artífices sapientíssimas.

A fama mudará, trazendo à minha vida glória; a honra virá para a raça das mulheres e fama inglória não mais nos manchará.

Ó grande malvado – que está é a pior injúria que a minha língua tem para a tua covardia – tu vieste ter connosco, tu vieste, odiosa criatura? Isto já não é atrevimento, isto já não é ousadia – olhar de frente para os amigos a quem se faz mal – mas a maior de todas as enfermidades humanas, a falta de vergonha. Mas fizeste bem em vir. Porque eu, injuriando-te, aliviarei a minha alma, e tu, ouvindo-me, passarás pela tortura.

Terrível é a ira, e insanável, quando amigos contra amigos lançam a discórdia.

(…)todos os amigos fogem de quem é pobre...

Mas a tal ponto chegastes que, estando o consórcio em boa ordem, vós, mulheres, supondes ter tudo; se, porém, surge algum contratempo no matrimónio, das melhores e mais belas relações fazem as mais hostis.

Para mim, quem, sendo injusto, é hábil no dizer, merece muito maior castigo. Com uma língua artificiosa se gaba de enfeitar a injustiça e ousa cometer o mal; mas ele não é tão destro como isso.

O amor quando é forte nem renome nem virtude dá aos homens. Ai! mas Vénus, quando é branda, não há deusa mais graciosa!

Dentre as penas maior não há que ser da pátria arrancado.

É que não se pode tolerar que os inimigos escarneçam de nós.

Ninguém me suponha fraca ou débil, nem sossegada; outro é o meu caráter: dura para os inimigos, benévola para os amigos. Porque de tais pessoas a vida é gloriosíssima.

Frágil é a mulher e nascida para as lágrimas.

Há um provérbio que diz que os presentes até aos deuses convencem. O ouro é para os mortais mais potente do que mil argumentos.

Mais potente do que a minha vontade, é a paixão, que é a causa dos maiores males para os mortais.

Dentre os mortais, quem filhos nunca teve nem experimentou, digo eu que está no melhor caminho da felicidade, mais que quem os teve. Quem não tem filhos nem experimentou, seja isso um bem, seja isso um mal para os mortais – não tendo descendência, muita dor evitam.
Mas aqueles para quem dos filhos em casa existe o doce rebento, eu vejo o tempo em tormento passar. Como criá-los da melhor maneira, depois, da vida deixar-lhes os meios? Depois, se para o bem, se para o mal os criam, e para isso se esforçam, até isso é incerto.

Para que serve então aos homens os deuses, além dos outros males, um desgosto mais forte que todos ( na vida acharam bem-estar bastante, à flor da juventude eles já chegaram, e nobres são; mas a sorte o decide, os tira do caminho e a morte lhes leva dos filhos para o Hades os corpos belos), por causa de ter filhos, lhe acrescentem?

Aqueles dentre os homens que têm fama de sábios e de artificiosos nos seus discursos, esses mesmos merecem o maior dos castigos. Dos mortais, não há um só homem que seja feliz. Pode, se sobrevier à prosperidade, ser um mais bem-sucedido do que o outro, mas, feliz, não é nenhum.

Por que hesitamos e não executamos os males terríveis, mas necessários?