segunda-feira, 20 de outubro de 2014

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Séneca- Medeia

E tu, estrela, que anuncias dois momentos do dia e que regressas sempre tarde para os que se amam: por ti anseiam as mães, ardentemente por ti anseiam as noivas que difundas quanto antes os teus raios de luz.



Ama
Cala-te, peço-te, e enterra os queixumes bem fundo na tua dor. Todo aquele que suportou feridas profundas em silêncio e com um espírito paciente e resignado está apto a restituí-las: o que é malfazejo é a ira dissimulada; o ódio que se declara não encontra ocasião para a vingança.

Medeia
Ligeira é a dor que consegue agir racionalmente e esconder-se em si. Os grandes males não ficam na sombra. Quero atacar!

Ama
Contém esse ímpeto desenfreado, filha. Mesmo a quietude do silêncio dificilmente te protege.

Medeia
A fortuna tem medo dos fortes; aos cobardes, oprime-os.

Ama
A coragem só merece louvor, quando se lhe oferece ocasião.


Medeia
Nunca pode faltar ocasião para a coragem.

Ama
Não há esperança alguma então que aponte uma saída para a tua aflição.

Medeia
Quem já perdeu a esperança não tem por que desesperar.

Ama
Está longe a o teu país, a fidelidade do teu marido é nenhuma, e nada te resta de tão grandes riquezas.

Medeia
Resta Medeia; nela vês mar e terra e ferro e fogo e deuses e relâmpagos!



Uma realeza injusta nunca dura muito tempo.


Quem decide o que quer que seja sem ouvir a outra parte, mesmo que decida com justiça, não é justo.

Quão difícil é desviar da cólera um espírito já por ela inflamado e quão próprio de todo o rei que empunha um ceptro com mãos arrogantes é continuar a caminhar pela via que encetou.


Para quem é pérfido nenhum tempo é curto para prejudicar.


Os nossos pais viveram em tempos magníficos dos quais o embuste estava bem arredado. Cada um ficava tranquilamente nos seus litorais e chegava à velhice nos campos ancestrais, rico com pouco; não conhecia senão as riquezas que o solo pátrio produzia.


Se procuras saber que limite hás-de impor ao teu ódio, ó desditosa, copia o teu amor.


Um amor verdadeiro não há-de temer ninguém.


Só terei descanso quando vir o universo desabar em ruínas juntamente comigo: que tudo desapareça comigo. É agradável arrastar outrem, quando se perece.



Jasão
Não é grata a vida daquele que se envergonha de a ter aceitado.

Medeia
Não a deve conservar quem se envergonha de a ter aceitado.



Jasão
Apavoram-me os altivos ceptros.

Medeia
Zela por não os ambicionares.



A serenidade modera o infortúnio.


Ataca onde não há a possibilidade de alguém ter medo seja do que for.


Nem a violência da chama nem a do vento intumescido nem a do dardo lançado ameaçadoramente é tão grande como quando uma esposa desapossada dos fachos nupciais se inflama e manifesta ódio…


É cego o fogo atiçado pela ira: não procura controlar-se, não suporta freios e não receia a morte; anseia por enfrentar as próprias espadas.


Caminho já trilhado não se paga caro.


Coro
Por que embuste foram apanhados?

Mensageiro
Por aquele que costuma vencer os reis: as dádivas.

Coro
E que traição nelas podia existir? (…)


Entrega-te à ira, desperta desse torpor e, selvática, das profundezas do teu coração exaure por completo os antigos impulsos. Todo o mal que cometeste até hoje chame-se piedade. Vamos!


A ira rechaça a piedade, e a piedade, a ira: cede ao afecto, angústia.




Terêncio- O Eunuco

Fédria:
Que devo fazer, então? Nao ir a casa dela, nem mesmo agora quando ela me mandou chamar, por sua livre vontade? Ela me expulsou e agora me chama de volta: devo voltar? Não, a menos que ela me implore.
Mas, se eu começar e não persistir com empenho… se vier a casa dela, mesmo sem ter feito as pazes, mostrando-lhe que a amo e que não lhe posso resistir, a coisa está feita, está tudo acabado, fico perdido. Ela zombara de mim quando perceber que fui vencido.
Assim, eu reflita mais e mais enquanto é tempo.

Parmenão:
Patrão, uma coisa que não tem em si nem prudência nem moderação, você não pode governá-la pela prudência. No amor estão presentes todos estes vícios: injúrias, suspeitas, inimizades, tréguas, guerra e paz novamente. Se você pretende tornar certas pela razão essas coisas incertas não faça mais nada a não ser que você se esforce para enlouquecer com a razão. E é isto que agora seguramente você está pensando, irado consigo mesmo: “Eu a... ela que o... que me... que não! Sem dúvida, porém, prefiro morrer! Ela perceberá que homem sou eu!”
Por Hércules, uma única lagriminha falsa, que ela terá extraído com muito custo esfregando os olhos com força, destruirá estas palavras e, além disso, ela te acusará, e mais, você vai se oferecer ao suplício!

Fédria:
Oh! Crime indigno! Agora percebo que ela é uma criminosa e eu um infeliz. Isto me aborrece, mas, ao mesmo tempo, ardo de amor, estou morrendo consciente, vivo e vendo, e não sei o que fazer.

Parmenão:
O que fazer? Nada a não ser resgatar-se da escravidão pelo menor preço que puder. Se você não puder por pouquinho, pelo quanto puder. E não se aflija.

Fédria:
É assim que você me aconselha?

Parmenão:
Se você for sensato, não acrescente desgostos além dos que o próprio amor já tem, e mesmo aqueles que já tem, suporte-os bem. Mas ei-la em pessoa saindo, a ruína de nossos fundos. Pois o que nos cabe conservar, ela nos subtrai.



As coisas verdadeiras que ouvi, calo e guardo em segredo muito bem. Se são falsas, infundadas ou inventadas, de imediato elas se tornam evidentes: sou cheio de fendas, deixo escapar aqui e ali. Portanto, se você quer que me cale, deve dizer a verdade.


Há uma espécie de homens que querem ser os melhores em tudo e não são. Procuro esses. Não me ofereço a eles como alvo de chacotas, mas, ao contrário, rio com eles e ao mesmo tempo admiro a inteligência deles. Louvo o que quer que digam; se, ao invés, negam isso, louvo também. O que negam nego, o que afirmam, afirmo. Enfim eu impus a mim mesmo concordar com tudo. Esta profissão agora é muitíssimo vantajosa.




Parmenão:
Estamos cometendo um crime.
Quérea:
Acaso é um crime se eu for levado para a casa de uma cortesã e àquelas cruzes, que tomam posse de nós e de nossa juventude da qual não fazem caso e que sempre nos torturam de todas as maneiras, e agora mostre minha gratidão e as engane do mesmo modo que somos enganados por elas? …
Parmenão:
Se está decidido a fazer, faça. Mas depois não coloque a culpa em mim.



Muitas vezes, quem tem sal toma para si por suas palavras a glória obtida com grande esforço pelos outros. Isso você tem.


Parmenão:
O que você diz, Gnatão? Acaso você tem alguma coisa para desdenhar? E você, Trasão? Calaram-se: muito o elogiam.


Eu um covarde? Nenhum homem que viva é menos.

É burrice aceitar o que você pode evitar.

Conheço o génio das mulheres: quando você quer, elas não querem, quando você não quer, é aí que elas se interessam.

(…) eu ter descoberto como um rapazinho pode a bom tempo tomar conhecimento do caráter e dos costumes das meretrizes, para que, ao ser informado, tome ódio pelo resto da vida.
Elas que enquanto estão fora de casa, nada parece mais asseado, mais afeiçoado a quem quer que seja, nem mais elegante, que quando ceiam com seu amante beliscam a comida.
Ver a imundície, a falta de classe e a pobreza delas, o quanto são desprezíveis e esfomeadas quando estão sós em casa, como devoram pão preto à sopa amanhecida, saber tudo isso é a salvação do rapazinho.








Plauto. Aululari ( A Comédia da Panela)

Irmã, se tu queres que eu me case, estou disposto também a fazê-lo, com esta condição: ela chega amanhã e no dia seguinte levam-na para fora de casa. Se é com estas condições que tu achas bem, então podes vir e preparar o casamento.


Quem depois de certa idade um homem casa com mulher de meia-idade, e já velho emprenha a velha, só pode ter um nome para a criança. Sabes qual é? Póstumo.

Não me importo nada com os grandes luxos, as honras, os dotes faustosos, as aclamações, o poder, os carros de grande pompa, o vestuário, a púrpura, que levam os outros homens à servidão por aquilo que custam.


(…)Isto parece promessa, mas é pedido. Está ardendo por me devorar o dinheiro. Dum lado trás a pedra e do outro lado me mostra pão. Não creio em nenhum rico que venha com tanta generosidade e tanta delicadeza para um pobre. Quando estende a mão com bondade é porque nela traz alguma rede. Eu bem conheço estes polvos que prendem tudo aquilo que tocam.


Não há ninguém que a pobreza tenha feito mais avarento do que a ele.

(…) tu és um homem rico e poderoso e eu sou um homem pobre, paupérrimo. Se eu casasse contigo minha filha, estou eu cá a pensar que tu ficarias como boi e eu como burro; andaríamos jungidos um ao outro e como eu não poderia suportar a mesma carga, lá ficaria eu deitado como um burro no meio da lama. Tu, como boi, tratar-me-ias com desprezo, como se eu não fosse gente. Irias ser duro comigo e não me havia de faltar a troça dos da minha igualha. Depois, se houver qualquer diferença entre nós, não terei estábulo estável a que me acolher. Os burros vão-me despedaçar à dentada e os bois vão-me atacar à cornada. É muito perigoso para eu passar da classe dos burros para a dos bois.


Homens são assim! Se um rico pede alguma coisa a um pobre, o pobre tem medo de se comprometer e, por medo, procede mal. E só depois de perder a oportunidade é que ele se arrepende.


É uma estupidez e não tem graça nenhuma proceder bem quando é inútil o que se faz.


Contei a muitos amigos esta minha resolução de casamento; todos louvam a filha de Euclião e dizem que foi uma resolução avisada e de boa cabeça. Ora, se os outros ricos fizessem o mesmo com as filhas dos pobres e, mesmo sem dote, se casassem com elas, não só a cidade viveria em maior paz, como haveria à nossa volta muito menos inveja do que há. Elas ter-nos-iam mais respeito do que nos têm e nós faríamos menos despesas do que as que fazemos. Seria ótimo para a maior parte do povo e só prejudicaria alguns que são ávidos e insaciáveis e que nem leis, nem magistrados seriam capazes de reter. Naturalmente, dirá alguém, com quem se casariam então as que são ricas e têm dote, se se estabelece tal direito para os pobres? Que se casem com quem quiserem, contanto que o dote não vá com elas. Se isto fosse assim elas levariam, em lugar do dote de agora, melhores costumes.


Aquela que não tem dote está sob o domínio do marido. As que têm dote dão cabo dos maridos com danos e perdas.


Sou eu o mais desgraçado de todos quantos vivem na terra! Para que preciso eu agora de vida, em que perdi um tesouro que guardei com tanto cuidado. Roubei-me a mim próprio, roubei a minha alma, roubei o meu espírito! Agora outros gozam com ele, para meu mal e prejuízo! Não posso suportá-lo!


Todo o homem que confessa a sua culpa tem sempre o valor suficiente para se envergonhar e se desculpar.


A todos a natureza jurou livres e todos por natureza pensam na liberdade. O pior de todos os males, a pior de todas as desgraças é a servidão.


O nosso tempo produziu donos demasiado avarentos… pobres no meio das maiores riquezas e sedentos no seio do vasto oceano. Não lhes chegam bens nenhuns…

…a nossa época não é muito de boa fé. Escrevem-se documentos, vêm dez testemunhas, o notário aponta a data e o lugar. No entanto há sempre um advogado pronto a negar o que se fez.


Sempre pensei que não ter dinheiro era péssimo para todos, moços, homens e velhos. A indigência obriga os moços a prostituir-se, os homens a roubar, e os velhos a pedir esmola. Mas é muito pior o que vejo agora: ter muito mais dinheiro do que aquilo que é necessário.